Mais de cinco mil anos após a morte, o microbioma de Ötzi não está parado. Cientistas isolaram nos Alpes uma levedura que sobrevive ao frio extremo e que pode tornar a fermentação industrial bem mais barata, porque trabalha sem precisar de calor, o que abre uma porta inesperada para a economia de energia.
Uma múmia de 5.300 anos não deveria ter quase nada de vivo dentro de si. Foi por isso que o resultado de um novo estudo sobre Ötzi, o famoso Homem do Gelo, surpreendeu até os pesquisadores. Em artigo publicado em 3 de junho de 2026 na revista científica Microbiome, a equipe da Eurac Research, em Bolzano, na Itália, mostrou que o corpo congelado guarda um microbioma com organismos ainda metabolicamente ativos, capazes de reagir ao ambiente como se o tempo não tivesse passado.
O achado muda a forma de enxergar a múmia mais estudada do mundo. Em vez de uma cápsula do tempo parada, Ötzi se revelou um ecossistema dinâmico, onde uma levedura adaptada ao frio dos Alpes continua se comportando como organismo vivo. E o detalhe que liga essa ciência ao bolso de qualquer indústria é simples: esse tipo de levedura consegue fazer fermentação em temperaturas baixas, sem o gasto de energia que o aquecimento exige.
Uma múmia que ainda está mudando por dentro

O ponto mais surpreendente do trabalho não foi achar micróbios antigos, e sim perceber que eles continuam ativos e em transformação. Ao comparar amostras coletadas em 2010 e em 2019, os cientistas notaram que uma levedura do gênero Glaciozyma, típica de ambientes gelados como a Antártida, havia se multiplicado e virado a espécie dominante na pele de Ötzi. Ou seja, o microbioma do Homem do Gelo não ficou congelado no tempo junto com ele.
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Esse comportamento obrigou a equipe a separar o que é antigo do que é recente. Parte dos organismos colonizou o corpo logo após a morte, há mais de cinco mil anos, enquanto outra parte chegou durante as décadas de conservação em laboratório. Mesmo com essa mistura, a constatação de que há vida ativa no microbioma de uma múmia dos Alpes já é, por si só, um resultado fora do comum, que recoloca Ötzi no centro do debate científico.
A levedura que veio do gelo dos Alpes

Descoberto por alpinistas em 1991, num trecho de geleira na fronteira entre Itália e Áustria, Ötzi é a múmia natural mais antiga e mais bem preservada já encontrada. O frio extremo dos Alpes funcionou como um congelador gigante por mais de cinco mil anos, e foi justamente esse ambiente que selecionou micro-organismos resistentes. A equipe isolou quatro linhagens de levedura amantes do frio, coletadas da pele, da água de degelo interna e até do estômago do corpo.
Entre essas linhagens, a levedura retirada do sistema digestivo chamou mais atenção. Os pesquisadores conseguiram cultivá-la em laboratório, num processo que levou cerca de três meses em condições geladas até obter uma cultura estável. O comportamento dela impressionou por outro motivo: a levedura mostrou capacidade de lidar com o fenol, substância química agressiva usada após a descoberta para conter o avanço de fungos modernos sobre Ötzi.
Por que isso interessa à indústria e à energia
Aqui mora o ângulo que vai além da curiosidade arqueológica. Uma levedura que faz fermentação ativa em temperaturas muito baixas oferece uma vantagem prática enorme. Na produção de alimentos, a fermentação costuma exigir ambientes aquecidos e controlados, o que consome energia. Com um organismo que trabalha no frio, dá para fermentar à temperatura ambiente ou até dentro de uma geladeira, cortando parte do gasto energético do processo.
Para provar o conceito, os cientistas usaram a levedura ancestral para assar um pão de fermentação natural, transformando um ingrediente pré-histórico em comida de verdade. Mais do que o pão em si, o que interessa é o princípio: micro-organismos extremófilos, adaptados a ambientes hostis como os Alpes, podem render processos industriais mais econômicos e sustentáveis. É a ponte entre o microbioma de Ötzi e setores que vivem de eficiência energética.
O que a ciência ainda não sabe
Apesar do entusiasmo, os autores pedem cautela. Ainda não dá para afirmar se essas formas de vida representam uma linhagem ininterrupta que sobreviveu por mais de cinco mil anos ou se são organismos que ficaram dormentes e voltaram à atividade depois que a múmia foi descongelada. A diferença é grande para a ciência, e responder a essa pergunta exige novos estudos sobre o microbioma do Homem do Gelo.
Há ainda uma reflexão mais ampla. Comparar a levedura e os demais micro-organismos de Ötzi com os de hoje pode ajudar a entender quanto da microbiota ancestral o corpo humano moderno perdeu ao longo dos milênios. Seja como reservatório genético, seja como fonte de soluções para a fermentação e a economia de energia, a múmia dos Alpes segue entregando muito mais do que se esperava de um homem que morreu na Idade do Cobre.
O caso de Ötzi mostra como uma descoberta de milhares de anos atrás pode esbarrar em temas bem atuais, como produção de alimentos e eficiência energética. Uma levedura congelada nos Alpes virar peça de interesse industrial é o tipo de virada que ninguém esperava de uma múmia.
E você, achou mais fascinante a ideia de um microbioma vivo depois de cinco mil anos ou a possibilidade de uma fermentação que economiza energia no futuro? Conta nos comentários o que mais te impressionou.
FONTES
- Eurac Research — Ötzi and his microbiome (instituição autora do estudo)
- Scientific American — Ötzi’s microbiome is still active (microbioma ativo, Glaciozyma)
- Live Science — ancient yeast used to make sourdough (levedura, pão, fermentação)
- Smithsonian Magazine — sourdough with Ötzi’s yeast (revista Microbiome, amostras 2010 e 2019)

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