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No Matopiba, a soja tomou o lugar do arroz e do feijão, e comunidades tradicionais do Cerrado que plantavam a própria comida agora precisam comprá-la, enquanto agrotóxico das fazendas vizinhas chega às nascentes

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 21/06/2026 às 00:48
Atualizado em 21/06/2026 às 00:50
No Matopiba, a soja tomou o Cerrado e comunidades tradicionais que plantavam a própria comida agora a compram, com agrotóxico chegando às nascentes.
No Matopiba, a soja tomou o Cerrado e comunidades tradicionais que plantavam a própria comida agora a compram, com agrotóxico chegando às nascentes.
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Durante gerações, famílias do Matopiba colhiam arroz, feijão e mandioca para comer. Agora, com a soja avançando sobre o Cerrado, muitas comunidades tradicionais viraram fregueses do mercado, comprando o alimento que antes plantavam, enquanto denunciam que o agrotóxico das lavouras contamina as nascentes que sobraram.

Quem sempre tirou o sustento da terra agora enfrenta uma ironia amarga: precisa ir ao mercado comprar o arroz que a própria família colhia. É o que vivem comunidades tradicionais espalhadas pelo Matopiba, a fronteira agrícola formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde a soja virou rainha e empurrou para o canto as roças de comida de verdade. Reportagens publicadas ao longo de 2026 mostram que essa troca tem nome e endereço.

A conta aparece nos números e na mesa. Desde que a região foi decretada fronteira agrícola, em 2015, o Matopiba perdeu cerca de 142 mil hectares de arroz, 23 mil de feijão e 75 mil de mandioca, justamente os alimentos que sustentam o prato do brasileiro. No lugar deles, avançou a soja, em boa parte destinada à exportação e à ração animal. O resultado é um paradoxo cruel: mais grão produzido, menos comida na região que produz.

A comida que sumiu da própria roça

No Matopiba, a soja tomou o Cerrado e comunidades tradicionais que plantavam a própria comida agora a compram, com agrotóxico chegando às nascentes.
Para as comunidades tradicionais, a mudança é sentida no dia a dia.

Em municípios como Correntina, na Bahia, agricultores que antes eram autossuficientes hoje dependem do mercado para se alimentar, comprando produtos sem saber de onde vêm nem como foram plantados. A autonomia alimentar que passava de geração em geração foi substituída pela ida ao comércio, com dinheiro contado.

O detalhe que torna tudo mais absurdo é o destino da soja. Cerca de dois terços da soja brasileira são exportados, e a maior parte dos grãos que ficam no país vira ração animal, não comida na mesa das pessoas. Ou seja, o Matopiba bate recorde de produção enquanto suas comunidades tradicionais perdem o acesso ao próprio alimento. O Cerrado, antes despensa de quem morava nele, virou plataforma de commodities para fora.

Como a soja engoliu o Cerrado

O avanço foi rápido e pesado. O Matopiba já tem mais de 4,8 milhões de hectares plantados com soja, e nos últimos anos a maior parte da expansão dessa fronteira aconteceu sobre vegetação nativa do Cerrado. Em 2024, dados oficiais de monitoramento apontaram que a maior fatia do desmatamento do bioma se concentrou justamente nessa região, o que mostra o tamanho da pressão sobre a terra.

A lógica da ocupação atinge em cheio quem já estava lá. A formação de uma grande fazenda de soja costuma mirar as chapadas, áreas planas e altas ideais para a mecanização e para a pulverização de agrotóxico, e muitas vezes envolve denúncias de grilagem. O problema é que essas mesmas chapadas são as áreas de recarga de água do Cerrado. Cercados pela monocultura, geraizeiros, quilombolas e outras comunidades tradicionais ficam ilhados, sem espaço para plantar e sem a fartura que o bioma oferecia.

A água que chega envenenada

Se a terra encolheu, a água piorou. Comunidades tradicionais do Matopiba relatam que as nascentes que abastecem suas roças nascem agora dentro de fazendas de soja, e chegam comprometidas. Um agricultor que tenta manter produção orgânica descreveu o drama de irrigar sua área com água que vem dessas fontes, já contaminada antes de alcançar a plantação dele.

O veneno tem caminhos conhecidos. O uso intenso de agrotóxico nas grandes lavouras, em alguns casos pulverizado por avião de forma irregular, espalha resíduos pelo ar e pela água, atingindo roças vizinhas e mata ciliar. Some-se a isso o rebaixamento do lençol pelos pivôs de irrigação, e o quadro se fecha: menos água, água pior e agrotóxico onde antes havia nascente limpa. Para essas comunidades tradicionais, o Cerrado deixou de ser fonte de vida farta e virou território cercado de risco.

O outro lado: a potência do agro

É preciso reconhecer o peso econômico da região, e os defensores do modelo o fazem com dados. O Matopiba é tratado como a última grande fronteira agrícola do planeta, responsável por uma fatia relevante da produção nacional de grãos e por sustentar exportações que trazem divisas ao Brasil. Projeções oficiais apontam que a produção de soja e outros grãos deve crescer ainda mais na próxima década, transformando cidades do interior e gerando empregos.

A defesa do agronegócio sustenta que tecnologia, manejo e regras ambientais permitem produzir sem destruir, e que boa parte da expansão ocorre em áreas legalmente aptas. O ponto da disputa, no entanto, não é negar a força da soja, e sim discutir quem arca com a conta. Entre o Cerrado que vira lavoura e as comunidades tradicionais que perdem comida e água, o desafio é encaixar a potência do agro sem apagar quem vive no Matopiba há muito mais tempo que o agrotóxico.

A história do Matopiba é a do Brasil que alimenta o mundo, mas às vezes esquece quem está ao lado da lavoura. De um lado, a soja, a exportação e o dinheiro que movem o Cerrado. De outro, comunidades tradicionais que trocaram a fartura da roça pela fila do mercado e convivem com agrotóxico nas nascentes.

Será que dá para produzir tanto sem tirar o prato de quem sempre plantou? E você, já tinha parado para pensar de onde vem, e a que custo, a comida que chega à sua mesa? Conta nos comentários a sua opinião.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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