Um ex-banqueiro pagou US$ 2 milhões por uma velha mina de carvão em Wyoming e encontrou terras raras que podem valer bilhões. A descoberta virou peça na disputa dos Estados Unidos contra a China, mas geólogos e investidores já questionam se o tesouro de minerais críticos é tão grande quanto se diz.
Em 2011, o americano Randall Atkins comprou por cerca de US$ 2 milhões uma estrutura esquecida no nordeste de Wyoming, perto de Sheridan, achando que levava apenas mais uma mina de carvão. Mais de uma década depois, virou notícia mundial: o subsolo daquela mina de carvão guardava terras raras e outros minerais críticos potencialmente avaliados em até US$ 37 bilhões, segundo a empresa dona do projeto. Foi um salto e tanto para quem pagou o preço de um apartamento de luxo pela propriedade.
A reviravolta colocou a chamada Brook Mine no centro de uma corrida estratégica. Em julho de 2025, uma cerimônia marcou o início da operação, anunciada como a primeira nova mina de terras raras dos Estados Unidos em cerca de 70 anos. Num momento em que a China domina o fornecimento global, encontrar esse tipo de mineral em solo americano, ainda por cima dentro de uma antiga mina de carvão, soou como ouro para Washington. Só que a história tem um segundo capítulo, bem menos glamouroso.
Do carvão às terras raras: a virada da Brook Mine

A trajetória de Atkins é quase de roteiro. Ex-banqueiro de Wall Street, ele apostou numa mina de carvão depreciada quando o setor já vivia em baixa, e só anos mais tarde, por volta de 2023, sua companhia, a Ramaco Resources, anunciou ter identificado depósitos significativos de terras raras magnéticas misturadas ao carvão. O laboratório nacional de tecnologia energética do Departamento de Energia dos Estados Unidos chegou a tratar o local como possivelmente o maior depósito não convencional de terras raras já mapeado no país.
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A diferença de valor explica o entusiasmo. O carvão extraído ali no passado valia pouco diante do que o solo escondia. Estimativas da operação apontam um volume na faixa de 1,4 a 1,7 milhão de toneladas de minerais críticos, e é esse potencial que sustenta a cifra de até US$ 37 bilhões. De repente, uma mina de carvão de Wyoming deixou de ser relíquia do passado para virar promessa do futuro da indústria de alta tecnologia.
Por que terras raras valem mais que carvão
Apesar do nome, terras raras não são exatamente raras na natureza, mas são difíceis e caras de separar e refinar. Esse grupo de elementos, com nomes como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, é o coração dos ímãs permanentes que fazem girar motores de carros elétricos, turbinas eólicas e uma lista enorme de equipamentos. Sem terras raras, boa parte da tecnologia moderna simplesmente para.
A Brook Mine ainda carrega outros minerais críticos cobiçados, como escândio, gálio e germânio, usados em aviação, defesa e eletrônica avançada. É por isso que a descoberta vai muito além de uma curiosidade geológica. Enquanto o carvão alimenta usinas, as terras raras e os minerais críticos alimentam mísseis, radares, smartphones e a transição energética. Trocar carvão por esses elementos é, na prática, trocar o combustível do século passado pelo insumo estratégico do século atual.
A geopolítica: tirar das mãos da China
Aqui entra o motivo de tanto barulho. Hoje a China concentra a maior parte da mineração e, principalmente, do refino mundial de terras raras, o que dá a Pequim um poder enorme sobre cadeias industriais inteiras. Quando a China aperta exportações desses minerais críticos, o Ocidente sente na hora, dos fabricantes de carros às forças armadas. Reduzir essa dependência virou prioridade declarada dos Estados Unidos.
É nesse tabuleiro que uma mina de carvão em Wyoming ganha ares de ativo nacional. Produzir terras raras em casa significa menos vulnerabilidade diante da China e mais segurança para setores sensíveis. Vale lembrar que o Brasil também aparece nesse mapa, sentado sobre grandes reservas de terras raras e minerais críticos, ainda pouco exploradas, o que mostra como essa corrida atravessa o mundo inteiro e não se resume aos Estados Unidos.
A reviravolta: nem todo mundo acredita no tesouro
E chega o segundo capítulo. Por mais sedutora que seja a história, os números da Brook Mine estão longe de ser consenso. Em janeiro de 2026, investidores entraram com uma ação na Justiça de Nova York acusando a Ramaco Resources e seus executivos de exagerar o progresso e o potencial do projeto. A denúncia se apoia em relatórios de um fundo vendido a descoberto, que afirma, com base em imagens de drone, que a operação avançou bem menos do que a festa de inauguração sugeria.
Geólogos independentes também pedem cautela diante da cifra de US$ 37 bilhões, lembrando que estimativa de potencial não é o mesmo que mineral extraído e vendido. Transformar terras raras presas em camadas de carvão em produto refinado e lucrativo é caro, lento e tecnicamente complexo. Ou seja, a mina de carvão pode mesmo guardar um tesouro de minerais críticos, mas entre a promessa de Wyoming e o dinheiro no bolso existe um caminho longo, e a disputa com a China não se vence só com anúncio.
A saga da Brook Mine junta tudo o que move manchete: dinheiro, reviravolta e geopolítica. Uma mina de carvão de US$ 2 milhões que pode esconder até US$ 37 bilhões em terras raras é o tipo de promessa que empolga e desconfia na mesma medida. Se a aposta de Wyoming vingar, os Estados Unidos ganham fôlego contra a China na guerra dos minerais críticos. Se não, vira mais um caso de expectativa inflada.
E você, acha que esse tesouro vai sair do papel ou é grande demais para ser verdade? Deixe sua opinião nos comentários.
FONTES CITADAS
- O Antagonista — matéria original
- MiningIR — How Randall Atkins turned a $2M coal mine into a $37B rare earth bonanza (história, valores, compra)
- WyoFile — Coal company faces shareholder lawsuit over rare earth claims (ação judicial de janeiro de 2026)
- Cowboy State Daily — Ramaco’s rare earth claims draw scrutiny from geologists and short-sellers (ceticismo técnico e do mercado)

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