Estudo mostra que água de degelo pode alterar a circulação oceânica e acelerar o derretimento basal na Antártida.
Um estudo publicado em 15 de maio de 2026 na Nature Geoscience revelou um mecanismo que pode tornar as projeções sobre a Antártida mais preocupantes: a água liberada pelo derretimento das plataformas de gelo não apenas aumenta o nível do mar, mas também altera a circulação oceânica ao redor do continente. Segundo a pesquisa liderada por Madeleine K. Youngs, esse feedback positivo pode responder por dois terços do aumento da taxa de derretimento basal em todas as plataformas de gelo simuladas. A descoberta muda o peso do problema porque mostra que o derretimento não deve ser tratado como uma variável fixa nos modelos climáticos. Quanto mais gelo derrete, mais o oceano pode reorganizar suas camadas de temperatura e salinidade, permitindo que águas mais quentes alcancem a base das plataformas e provoquem ainda mais derretimento.
Derretimento basal da Antártida pode ser acelerado por uma reação em cadeia escondida abaixo das plataformas de gelo
O estudo analisou a interação entre plataformas de gelo e circulação oceânica usando um modelo circumpolar do oceano Antártico com plataformas de gelo interativas. Essa abordagem permitiu observar não apenas o efeito direto do aquecimento climático, mas também como a própria água de degelo muda a circulação que controla o calor sob o gelo.
A conclusão central é que o oceano não reage de forma passiva ao derretimento. Quando a água doce do gelo entra no sistema, ela muda a densidade das massas de água, interfere na formação de camadas frias e altera a capacidade de águas profundas mais quentes entrarem nas cavidades sob as plataformas.
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A água doce do gelo enfraquece barreiras frias e abre caminho para água quente alcançar a base das plataformas
A física do processo depende de temperatura, salinidade e densidade. Em algumas regiões da Antártida, águas frias e densas formam uma barreira próxima ao fundo, dificultando a entrada de águas profundas mais quentes nas cavidades sob as plataformas de gelo.
Quando mais gelo derrete, a água doce liberada pode diluir essa camada fria e salgada. Com a barreira enfraquecida, águas oceânicas relativamente mais quentes conseguem avançar para debaixo das plataformas, intensificando o derretimento basal.
O estudo descreve esse ciclo como um feedback positivo. Mais derretimento produz mais água doce, a água doce enfraquece a estrutura de densidade do oceano e esse enfraquecimento facilita a entrada de calor sob o gelo.
Dois terços do aumento simulado no derretimento vieram do próprio feedback do gelo com o oceano
O número mais forte da pesquisa está no resumo técnico da Nature Geoscience. Os autores afirmam que o feedback positivo do derretimento responde por dois terços do aumento da taxa de derretimento sobre todas as plataformas de gelo nas simulações analisadas.
Esse dado é importante porque mostra que parte expressiva do risco não vem apenas do aquecimento externo imposto ao sistema climático. Ela vem também da resposta interna do oceano ao volume crescente de água de degelo que entra ao redor da Antártida.
Em termos práticos, isso significa que modelos que tratam o derretimento das plataformas como uma entrada fixa podem deixar de capturar uma parcela relevante da aceleração futura. O sistema real pode se comportar como uma máquina dinâmica, em que gelo e oceano se influenciam continuamente.
Plataformas de gelo funcionam como freios naturais que seguram geleiras continentais
As plataformas de gelo são extensões flutuantes de geleiras que avançam do continente sobre o oceano. Elas não elevam diretamente o nível do mar quando derretem, porque já estão flutuando, mas têm papel decisivo ao segurar o gelo continental que está atrás delas.
Esse efeito é conhecido como sustentação ou buttressing. Quando uma plataforma afina, fratura ou perde massa, ela reduz sua capacidade de frear o fluxo das geleiras aterradas, permitindo que mais gelo continental avance para o oceano.
É por isso que o derretimento basal preocupa tanto. A perda por baixo pode enfraquecer estruturas que, visualmente, ainda parecem intactas em imagens de satélite, mas já estão perdendo espessura e resistência mecânica.
O derretimento por baixo já era reconhecido como uma força central na perda de massa da Antártida
O novo estudo não surge do nada. A NASA já havia destacado, com base em pesquisa publicada na revista Science, que o derretimento basal respondeu por 55% de toda a perda de massa das plataformas de gelo antárticas entre 2003 e 2008.
Esse dado anterior consolidou a ideia de que o oceano é um dos grandes motores da instabilidade antártica. A diferença agora é que a pesquisa de 2026 foca no efeito de retorno, mostrando como a água de degelo pode reorganizar a circulação e alterar o derretimento futuro.
Em vez de apenas perguntar “quanto o oceano quente derrete o gelo”, os pesquisadores perguntaram algo mais complexo: como o gelo derretido muda o oceano que vai derreter o próximo gelo. Essa mudança de pergunta é o núcleo científico da pauta.
O efeito não é igual em toda a Antártida e pode até proteger algumas regiões por curto prazo
Um dos pontos mais importantes do estudo é que a retroalimentação não tem o mesmo sinal em todos os setores do continente. Em regiões com águas densas de plataforma, o efeito pode amplificar o derretimento, mas em outras áreas a água doce transportada pode formar camadas frias que dificultam temporariamente a entrada de calor.

A University of Maryland destacou que regiões como o Mar de Weddell podem sofrer amplificação perigosa do ciclo positivo. Já áreas como a Península Antártica Ocidental e o Mar de Amundsen podem receber, em curto prazo, algum efeito protetor por barreiras de água doce fria transportadas de setores a montante.
Essa proteção, porém, não é uma boa notícia simples. Segundo Youngs, ela depende de derretimento intenso em outras regiões primeiro, o que significa que o “escudo” local pode estar ligado a perdas severas de gelo em setores vizinhos.
O estudo mostra que o derretimento pode agir como força regional oposta ou comparável ao aquecimento externo
A Nature Geoscience afirma que o feedback do derretimento tem importância comparável, e em algumas regiões sinal oposto, à resposta forçada diretamente pelo clima. Isso significa que o oceano ao redor da Antártida pode responder de maneiras regionais muito diferentes ao mesmo aquecimento global.
Essa complexidade ajuda a explicar por que projeções sobre a Antártida têm incertezas tão grandes. Não basta saber a temperatura média global, porque o destino das plataformas também depende de salinidade, correntes costeiras, transporte de água doce e entrada de águas profundas em cavidades específicas.
Para modelos climáticos, isso é um desafio enorme. Representar a Antártida exige simular interações finas entre gelo, oceano e atmosfera, em regiões remotas onde observações diretas ainda são difíceis.
Modelos climáticos podem estar deixando de fora uma parte importante do risco
Segundo Madeleine Youngs, muitos modelos climáticos usados em projeções internacionais não incluem esse ciclo de feedback de forma interativa. A pesquisadora afirmou que o IPCC trata o derretimento como uma entrada fixa, em vez de um processo que responde e remodela o oceano ao longo do tempo.
Esse ponto é crucial para o leitor comum. Se o modelo coloca uma quantidade de derretimento como dado de entrada, mas não permite que esse derretimento altere a circulação oceânica e gere novo derretimento, parte da dinâmica real pode ficar subestimada.
A preocupação não é que os modelos estejam “errados” de forma simples, mas que possam estar incompletos justamente em um mecanismo capaz de acelerar a perda de gelo em regiões-chave.
O ponto de inflexão climático pode chegar antes se a retroalimentação for subestimada
Youngs afirmou que, se a humanidade continuar em uma trajetória de emissões sem mudanças relevantes, existe a possibilidade de atingir um ponto de inflexão climático mais cedo, especialmente quando esse feedback positivo é considerado. A declaração aparece no comunicado da University of Maryland sobre o estudo.
Esse tipo de alerta precisa ser entendido com precisão. O estudo não afirma que toda a Antártida entrará em colapso imediato, nem estabelece uma data exata para ruptura de plataformas de gelo. O que ele mostra é que a interação entre derretimento e circulação pode reduzir a margem de segurança usada em projeções atuais.
Em outras palavras, o risco está na aceleração silenciosa. O sistema pode mudar de ritmo antes que os efeitos sejam totalmente visíveis na superfície, porque parte decisiva do processo ocorre escondida sob quilômetros de gelo flutuante.
O impacto global aparece no nível do mar e na vulnerabilidade de cidades costeiras
A ligação entre plataformas de gelo e nível do mar é indireta, mas poderosa. Quando plataformas enfraquecem, geleiras aterradas podem acelerar seu fluxo para o oceano, e esse gelo continental contribui para a elevação global do nível do mar.
A University of Maryland lembra que mais de 680 milhões de pessoas vivem em zonas costeiras baixas vulneráveis à elevação do mar. A instituição também cita estimativas do IPCC segundo as quais a Antártida pode contribuir com 28 a 34 centímetros adicionais de elevação do nível do mar até 2100 em cenários de altas emissões.
Projeções globais do IPCC AR6 indicam que o nível médio do mar pode subir entre 0,63 metro e 1,01 metro até 2100 no cenário de emissões muito altas, em relação a 1995-2014. Essa faixa inclui várias contribuições, como expansão térmica do oceano, geleiras, Groenlândia, Antártida e armazenamento terrestre de água.
A descoberta mostra que o perigo pode estar na engrenagem invisível entre gelo, sal e calor
O novo estudo coloca a Antártida em uma perspectiva mais complexa e mais urgente. O problema não é apenas o gelo derretendo por causa de um oceano mais quente, mas o gelo derretendo e, ao mesmo tempo, modificando o oceano que controla o próximo derretimento.
Essa engrenagem invisível entre água doce, salinidade, densidade e calor pode ser decisiva para o futuro das plataformas antárticas. Se ela for subestimada, parte do risco costeiro global também pode estar sendo subestimada nos cenários usados por governos e cidades.
A pergunta que fica é se os modelos climáticos vão conseguir acompanhar a velocidade dessa reação em cadeia antes que o próprio oceano Antártico comece a empurrar o sistema para um ponto difícil de reverter.


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