Dona Floripes Malheiros Garrido sobe 18 degraus sozinha, recusa restrições alimentares, costura sem óculos e defende que velha é o que não presta e se joga fora. Aos 103 anos, a baiana vive para provar o contrário.
Dona Floripes não avisa que vai chegar. Ela aparece de vestido novo, brincos grandes, maquiagem feita e sorriso de quem tem o tempo no bolso. Quem a vê pela primeira vez na Rua Miguel Burnier, no bairro da Barra, em Salvador, dificilmente chuta mais de 70 anos. A conta real bate forte: 103. Nascida em Valência, na Bahia, dona Floripes Malheiros Garrido completa 103 anos tendo a rua como companheira fiel, a dança como remédio diário e a Coca-Cola como ritual sagrado que nenhuma cartilha médica conseguiu tirar dela.
O número parece impossível quando se observa a rotina. Ela sobe e desce, por conta própria, os 18 degraus que ligam o térreo ao apartamento onde mora. Até dez anos atrás, o desafio era ainda maior: morava no terceiro andar e encarava o triplo de escadas várias vezes por dia. Não é exagero dizer que dona Flor envergonha muita gente com menos da metade da sua idade.
“Não sou velha. Velha é o que não presta, se joga fora”

Ela rejeita o termo com firmeza e sem rodeios. “Acho uma palavra muito feia. Velho é o que não presta, o que se joga fora. Não gosto não”, sentencia. Para ela, a definição de existência é outra. “Não me sinto velha, me sinto ótima. Costuro muito, faço crochê. Sou uma pessoa que não é de se jogar fora”, reforça.
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Essa recusa não é pose. É um jeito de viver que se traduz em gestos concretos. Dona Flor ainda enfia a linha na agulha sem precisar de óculos. Costurou calças, vestidos de casamento e roupas de baile ao longo de décadas. O filho caçula, Vitor Garrido, psicoterapeuta, tem uma teoria bem-humorada para a vitalidade da mãe: “Tenho uma tese de que o crossfit dela foi a máquina de costura.”
A Coca-Cola que nenhum médico conseguiu proibir
A alimentação de dona Floripes é um capítulo à parte. Ela toma Coca-Cola todos os dias, às vezes em mais de uma rodada. Consome salgadinhos, doces e, se o filho deixar, come uma barra de chocolate por dia. A mesa dela passa longe de qualquer cardápio restritivo: acarajé, abará, feijoada e moqueca de peixe entram sem cerimônia. “Como de tudo, mas um feijãozinho de leite com peixe tem o seu lugar”, conta.
Não há nenhuma restrição alimentar prescrita para a idosa ativa que chegou aos 103 anos desafiando toda lógica do envelhecimento. A pressão arterial está ótima. A glicose, maravilhosa, nas palavras dela. “Às vezes as costas me dói, mas aí me deito ou me sento e a dor passa”, explica, com a leveza de quem fala de um inconveniente menor. O cardiologista, conta ela, vai até a sua casa quando chamado. “Ele vem logo. Diz que sou muito nova para ter médico de idade.” A piada é dela, e a risada, também.
A dança, o palco e o violão que chegou de surpresa
Dentro de casa, dona Floripes não precisa de parceiro para dançar. Ela liga a televisão, espera uma música boa e vai. Cresceu frequentando o recreativo do bairro com o pai e nunca abandonou esse costume. Sonhou em ser cantora, mas o caminho foi outro. Hoje, o palco voltou pela porta dos Encontros da Cultura, evento que mistura música e palestra na Associação Baiana de Medicina. Ela sobe, solta o vozeirão afinado e colhe os aplausos com quem sabe exatamente o que merece.
Mais recentemente, brotou um desejo novo: aprender a tocar violão. O instrumento já chegou em casa, ganho de presente. Ninguém sabe ao certo quando as aulas vão começar, mas quem conhece dona Flor sabe que, quando ela decide, acontece. A filha conta que ela passa horas olhando fotos toda vez que vai visitar, não sai enquanto não vê todas. É a mesma concentração com que encarou cada fase da vida.
Amor na janela, marido espanhol e a saudade que não tem pressa
A história do amor da vida de dona Floripes começou numa janela. O marido, o espanhol Vitorino, foi conquistado naquele cenário simples, e os dois ficaram juntos por 49 anos. Ela o descreve como alto, bonito e certeiro. “Esse é meu. Esse ninguém toma”, brinca, com o mesmo brilho de quem ainda sente a cena. Tiveram cinco filhos. Um deles, Roberto, morreu com pouco mais de um ano de vida, vítima de meningite. “Ficou uma lembrança triste”, diz ela, sem esconder a dor.
Vitorino partiu aos 79 anos. Dona Flor acha que ele foi cedo demais. Mas não carrega pressa em reencontrá-lo. Quando o filho Vitor sonhou que o pai vinha buscá-la numa praça e ficou em dúvida se deveria contar, ela foi direta: “Diz a ele que não estou com pressa. Estou gostando de ficar aqui.” Quem tem 103 anos, quer aprender violão e ainda cobiça uma Coca-Cola gelada no shopping não está de saída.
Salvador tem 516 centenários. Dona Flor parece não saber disso
Segundo o último Censo do IBGE, Salvador abriga 516 pessoas com mais de 100 anos, e a Bahia reúne 5.536 centenários. Dona Floripes integra esse grupo, mas claramente não se enxerga como estatística. Ela quer passear no Shopping Barra, rever a Avenida Sete, ir à praia, tomar sol, entrar no mar e voltar. Não abre mão da maquiagem. Não sai sem os brincos grandes. “A mulher que não se enfeita, se rejeita”, é um dos ditados que carrega.
O filho resume com precisão o que muita gente percebe ao lado dela: “Ela é uma idosa ativa e disruptiva. Dá um tapa no etarismo.” A ansiedade, diz Vitor, é cruel com os idosos porque os convida a esperar a morte em silêncio. Dona Floripes faz exatamente o contrário. E não parece disposta a mudar isso tão cedo.
O segredo que ela entrega de graça
Quando perguntam qual é a fórmula para chegar onde ela chegou, dona Floripes não recua em busca de uma resposta elaborada. Sai rápido e simples: “O segredo da longevidade é ser de coração, pensar só no que é bom. E quem não tem com quem dançar, dançar sozinho.”
Nenhuma suplementação, nenhum protocolo. A longevidade de dona Floripes parece construída sobre presença, afeto, movimento e uma teimosia saudável de não aceitar que o tempo manda nela. Ela própria resume o contrato que fez com a vida: “Me sinto com uns 40, 50 anos. Graças a Deus tenho vitalidade. Minha vida toda é dirigida por mim.”
A matéria foi publicada originalmente pelo Jornal Correio (correio24horas.com.br) em 9 de maio de 2026, com reportagem de Perla Ribeiro.
Você chegou aos 103 anos desta matéria. Agora a pergunta é sua: você acredita que o segredo da longevidade está mais no que a gente come, no que a gente sente ou em simplesmente recusar ser velho? Deixa nos comentários.


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