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Areia do deserto, antes descartada pela construção, vira tijolo ecológico nos Emirados Árabes, usa escória e cinzas industriais, reduz dependência do cimento Portland e levanta aposta ousada para cortar carbono sem fornos nem cura térmica em escala ainda experimental

Escrito por Carla Teles
Publicado em 17/06/2026 às 15:15
Atualizado em 17/06/2026 às 15:17
Com areia do deserto, tijolos ecológicos usam cinzas industriais, reduzem cimento Portland e miram produção industrial.
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Pesquisa da Universidade de Sharjah transforma areia do deserto em tijolos ecológicos com cinzas industriais, escória e cura em temperatura ambiente. Estudo mira reduzir cimento Portland, testar resistência a sulfatos e avaliar produção industrial, mas tecnologia ainda depende de escala piloto antes da adoção ampla na construção civil regional sustentável.

A areia do deserto virou base para tijolos ecológicos desenvolvidos por cientistas da Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos. A pesquisa foi publicada em 17 de novembro de 2025 no Journal of Materials in Civil Engineering e divulgada em 10 de fevereiro de 2026 pela universidade.

O estudo mostra uma tentativa de transformar um material abundante em regiões áridas em alternativa para a construção civil. A proposta usa areia local, escória e cinzas industriais em uma formulação que reduz a dependência do cimento Portland, enquanto a produção industrial ainda exige testes de escala.

Um material abundante que a construção nem sempre conseguiu usar

Com areia do deserto, tijolos ecológicos usam cinzas industriais, reduzem cimento Portland e miram produção industrial.
Imagem: Divulgação.

A areia do deserto parece, à primeira vista, um recurso óbvio para países cercados por dunas. Porém, na prática, ela costuma ser pouco aproveitada pela construção convencional, porque suas características nem sempre atendem às exigências de materiais usados em concreto, argamassa ou tijolos comuns.

Esse é o paradoxo que motivou os pesquisadores dos Emirados Árabes. A região tem grandes volumes de areia, mas nem toda essa matéria-prima entra de forma simples na cadeia produtiva da construção. Sem tratamento adequado, o material pode exigir processos caros, o que reduz seu interesse industrial.

Como a areia do deserto virou tijolo ecológico em laboratório

No estudo, os cientistas combinaram areia do deserto coletada na região de Sharjah com ligantes ativados por álcalis. Essa tecnologia usa soluções alcalinas para provocar reações químicas capazes de formar uma estrutura rígida, semelhante a uma matriz mineral resistente.

A formulação também incorpora subprodutos industriais, como escória de alto-forno e cinzas industriais. Em vez de depender apenas do cimento Portland, a proposta aproveita materiais que podem ganhar novo valor dentro da construção civil, reduzindo a necessidade de insumos de maior impacto ambiental.

Tijolo endurece em temperatura ambiente, sem cura térmica

Com areia do deserto, tijolos ecológicos usam cinzas industriais, reduzem cimento Portland e miram produção industrial.
Imagem: Reprodução/IA.

Um dos pontos centrais da pesquisa é que os tijolos foram curados em temperatura ambiente. Isso significa que o processo testado não precisou de forno nem de cura térmica, etapa que poderia aumentar o consumo de energia e elevar os custos de fabricação.

Esse detalhe torna a tecnologia mais interessante para regiões áridas. Se a produção industrial for confirmada no futuro, a areia do deserto poderia ser usada perto da própria origem, diminuindo transporte, aproveitando materiais locais e reduzindo parte da energia ligada à fabricação de tijolos convencionais.

Cimento Portland entra na mira por causa das emissões

O cimento Portland continua sendo um dos materiais mais usados do mundo porque combina resistência, durabilidade e ampla disponibilidade. O problema é que sua produção tem alto impacto climático. Segundo o comunicado da Universidade de Sharjah, ele está associado a até 10% das emissões globais de dióxido de carbono.

A pesquisa não afirma que o novo tijolo já substituirá o cimento em todas as obras. O que o estudo indica é uma rota alternativa para reduzir a dependência do cimento Portland em unidades de alvenaria, especialmente em locais onde a areia do deserto é abundante e materiais industriais reaproveitáveis estão disponíveis.

Resistência a sulfatos chamou atenção dos pesquisadores

Os tijolos passaram por testes de durabilidade, incluindo absorção de água, ciclos de umedecimento e secagem, eflorescência e exposição a sulfatos. De acordo com os pesquisadores, o desempenho atendeu aos padrões ASTM citados no estudo, usados como referência internacional para qualidade e segurança de materiais.

A resistência a sulfatos é importante porque esse tipo de agressão química pode prejudicar materiais de construção em áreas costeiras, marinhas ou com solos e águas subterrâneas ricos nesse composto. Nos testes relatados, os tijolos de areia do deserto mantiveram integridade e, em alguns casos, superaram tijolos à base de cimento.

Menor absorção de água reforça a promessa de durabilidade

Com areia do deserto, tijolos ecológicos usam cinzas industriais, reduzem cimento Portland e miram produção industrial.
Imagem: Reprodução/IA.

Outro ponto observado pelos pesquisadores foi a menor absorção de água. Esse indicador é relevante porque a entrada excessiva de água pode comprometer a durabilidade de materiais de alvenaria ao longo do tempo, principalmente em ambientes agressivos.

Segundo a equipe, os tijolos ecológicos demonstraram desempenho mecânico superior aos tijolos convencionais à base de cimento em parte dos testes. Esse resultado reforça a hipótese de que a areia do deserto pode deixar de ser vista apenas como material problemático e passar a compor soluções técnicas mais resistentes.

Escória e cinzas industriais mudam a lógica do desperdício

O uso de escória e cinzas industriais amplia o interesse ambiental da pesquisa. Esses subprodutos, quando reaproveitados em materiais de construção, podem reduzir descarte e diminuir a pressão por matérias-primas convencionais.

Na prática, a proposta cria uma combinação entre abundância local e reaproveitamento industrial. A areia do deserto entra como recurso regional, enquanto os subprodutos industriais ajudam a formar a ligação necessária para transformar a mistura em tijolo. Essa lógica conversa diretamente com a busca por materiais de menor pegada de carbono.

Produção industrial ainda é o grande obstáculo

Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda está em etapa experimental. O estudo mostra viabilidade em laboratório, mas a adoção real depende de testes em unidades maiores, produção piloto, padronização de qualidade e análise de custos.

Os pesquisadores também planejam quantificar melhor os benefícios ambientais e avaliar a logística de fabricação. A produção industrial será o teste decisivo para saber se o tijolo de areia do deserto pode competir com alternativas já consolidadas no mercado da construção.

Construção em regiões áridas pode ganhar nova alternativa

Para países com grandes áreas desérticas, a possibilidade de usar matéria-prima local é estratégica. Obras em regiões áridas podem depender de transporte de materiais, consumo elevado de energia e cadeias de fornecimento mais caras, o que torna qualquer alternativa localmente viável mais relevante.

Se a pesquisa avançar para escala comercial, a areia do deserto pode virar parte de uma nova geração de materiais de construção. Ainda assim, o caminho exige cautela, porque resistência em laboratório, custo industrial e aplicação em obra real precisam convergir antes de qualquer uso amplo.

Promessa forte, mas ainda longe da obra comum

A transformação da areia do deserto em tijolo ecológico mostra como a engenharia pode reavaliar materiais antes considerados pouco úteis. O estudo da Universidade de Sharjah combina areia local, escória, cinzas industriais e cura em temperatura ambiente para buscar uma construção menos dependente do cimento Portland.

O avanço chama atenção porque une sustentabilidade, reaproveitamento e adaptação a regiões áridas. Mas a pergunta principal continua aberta: essa tecnologia conseguirá sair do laboratório e competir com os tijolos convencionais em preço, escala e confiança técnica? Você acredita que a areia do deserto pode virar material comum nas obras do futuro ou ainda parece uma aposta distante? Comente sua opinião.

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Carla Teles

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