Pesquisadores do Instituto Eurac encontraram a bactéria Streptococcus pyogenes em uma múmia de 700 anos retirada de uma torre funerária nos Andes da Bolívia, e a descoberta publicada na Nature Communications em abril de 2026 representa o primeiro registro arqueológico desse patógeno nas Américas, desafiando a ideia de que doenças como a escarlatina só chegaram ao continente com os europeus.
Uma equipe internacional de pesquisadores que investigava o genoma humano preservado em corpos mumificados nos Andes da Bolívia fez uma descoberta que ninguém esperava. Ao analisar o DNA extraído de uma múmia de um jovem morto há aproximadamente 700 anos, os cientistas identificaram material genético da Streptococcus pyogenes, o microrganismo que provoca a escarlatina e outras infecções graves. O achado, publicado no dia 13 de abril de 2026 na revista Nature Communications, marca a primeira vez que essa bactéria aparece em vestígios arqueológicos de qualquer lugar do mundo. Frank Maixner, que chefia a área de estudos de múmias no Instituto Eurac Research, declarou que a equipe não buscava esse patógeno de forma específica, mas adotou uma abordagem aberta que examinou tanto o material genético humano quanto o DNA dos microrganismos presentes nos restos.
A relevância do achado ultrapassa a microbiologia. Até esta descoberta, o conhecimento científico assumia que a Streptococcus pyogenes havia chegado à América apenas com a colonização europeia, o que fazia das doenças respiratórias bacterianas um fenômeno pós-Colombo no continente. A presença comprovada da bactéria em uma múmia do chamado Período Intermediário Tardio, datada de séculos antes da chegada dos europeus, obriga a comunidade científica a reconsiderar essa cronologia e investigar como o patógeno circulava na América pré-colombiana.
Onde a múmia foi encontrada e por que os Andes preservam corpos tão bem

Os pesquisadores trabalharam com corpos depositados em chullpas, estruturas funerárias em formato de torre erguidas no Planalto Andino da Bolívia. Na cultura andina desse período, a mumificação não era exclusividade de governantes ou membros da elite: pessoas de diferentes posições sociais eram sepultadas dessa forma. Essa prática ampla deixou um acervo extenso de restos humanos preservados pelo clima seco e frio da altitude, oferecendo aos cientistas modernos uma janela rara para examinar a biologia de populações inteiras.
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A múmia que continha a Streptococcus pyogenes pertencia a um jovem que viveu entre os anos 1000 e 1450 d.C., fase conhecida como Período Intermediário Tardio, intervalo que separa o declínio da civilização Tiwanaku da consolidação do Império Inca. Essa era se caracterizou por elevada densidade populacional e movimentos migratórios intensos na região andina, condições que favorecem a transmissão de patógenos entre comunidades. O contexto demográfico sugere que, se a bactéria estava presente nesse indivíduo, é provável que outras pessoas da mesma época também tenham sido expostas ao microrganismo.
O que a múmia revela sobre a saúde do jovem andino

A análise dos ossos trouxe informações complementares importantes. Os indicadores esqueléticos mostram que o rapaz se encontrava abaixo do padrão nutricional típico da sua época, o que pode ter comprometido seu sistema de defesa e o tornado mais vulnerável a infecções. Essa fragilidade imunológica, detalhada no artigo da Nature Communications, ajuda a explicar por que a bactéria conseguiu se instalar no organismo com gravidade suficiente para deixar vestígios detectáveis 700 anos depois.
Os pesquisadores ainda não determinaram se a Streptococcus pyogenes foi a causa direta da morte do jovem preservado na múmia. Porém, o fato de o DNA bacteriano ter sobrevivido por sete séculos em quantidade suficiente para ser identificado sugere que a infecção era ativa no momento do óbito ou pouco antes dele. A combinação de subnutrição, densidade populacional e contato próximo entre comunidades criava um ambiente propício para que doenças bacterianas se espalhassem com facilidade.
Por que a descoberta na múmia muda o que se sabia sobre a escarlatina nas Américas
A Streptococcus pyogenes é hoje um dos patógenos mais disseminados no planeta. Ela causa desde infecções comuns de garganta até quadros potencialmente fatais, e a escarlatina provocada por essa bactéria foi uma das maiores causas de mortalidade infantil antes da chegada dos antibióticos na década de 1940. Apesar da distribuição global atual, não existia até agora nenhum registro de sua presença na América antes do contato europeu, o que tornava a escarlatina uma doença supostamente importada.
A múmia andina altera esse panorama de forma significativa. Os cientistas levantam a hipótese de que a contaminação pode ter ocorrido por meio do contato com animais nativos dos Andes, uma via de transmissão que não envolve viajantes vindos de outros continentes. Se confirmada em estudos futuros, essa rota indicaria que a bactéria já existia nas Américas de forma independente, e não como herança biológica europeia. A implicação é profunda: a história da escarlatina e de outras infecções por Streptococcus pyogenes nos Andes precisaria ser reescrita à luz do que a Nature Communications acaba de publicar.
O que ainda falta descobrir sobre a múmia e a bactéria
A equipe do Instituto Eurac reconhece que a descoberta abre mais perguntas do que oferece respostas definitivas. Para construir conclusões robustas, será necessário examinar outras múmias do mesmo período e da mesma região dos Andes em busca de novos casos de Streptococcus pyogenes. Um único registro, por mais inédito que seja, não basta para redesenhar o mapa epidemiológico de um continente inteiro, e os próprios autores do artigo na Nature Communications alertam que mais pesquisas são indispensáveis.
Também permanece em aberto a questão de como a bactéria chegou ao jovem andino. Se o contágio veio de animais locais, seria preciso identificar quais espécies funcionaram como reservatórios naturais do microrganismo naquela altitude e naquele período climático. Se veio de outras populações humanas por rotas migratórias, o alcance geográfico da bactéria na América pré-colombiana pode ser muito maior do que se imagina. Cada múmia analisada daqui em diante carrega o potencial de acrescentar peças a esse quebra-cabeça que a ciência só agora começou a montar.
E você, imaginava que uma múmia de 700 anos pudesse mudar o que sabemos sobre a história das doenças nas Américas? Acha que a bactéria já existia no continente ou veio de outra forma que ainda não conhecemos? Deixe sua opinião nos comentários.

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