O governo federal assinou na sexta-feira (10) um acordo de cooperação entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Serpro e a empresa chinesa iFlytek para desenvolver inteligência artificial aplicada ao setor público brasileiro. O acordo prevê criação de modelos de linguagem em português, sistemas de tradução e acessibilidade, aplicações em cibersegurança e construção de data centers e nuvens seguras. O Serpro, que opera os sistemas estruturantes do governo e gerencia a infraestrutura de dados de serviços públicos digitais, será o executor técnico.
Na prática, isso significa que a IA desenvolvida com tecnologia chinesa poderá processar dados que hoje passam pelo Serpro: declarações de imposto de renda, registros do INSS, informações do SUS, dados de identificação civil e documentos de comércio exterior. O ministro interino do MCTI, Luis Fernandes, foi direto ao justificar o acordo: “Os países que não desenvolverem capacidade própria ficarão dependentes de tecnologias externas, em um contexto em que o acesso pode ser limitado.” A frase é uma referência direta às restrições que os Estados Unidos impõem à exportação de chips e tecnologias de IA para determinados países.
A iFlytek é uma das maiores empresas de inteligência artificial da China, especializada em reconhecimento de voz, tradução automática e processamento de linguagem natural. A empresa já foi alvo de sanções americanas por suposta ligação com o aparato de vigilância do governo chinês, o que torna o acordo com o Brasil politicamente sensível num momento em que as relações entre Washington e Pequim continuam tensas.
O que o acordo prevê e por que o Serpro é a peça central?
O protocolo tem seis eixos: pesquisa conjunta, desenvolvimento de modelos de linguagem adaptados ao português brasileiro, aplicações em cibersegurança, infraestrutura de IA (data centers e nuvem segura), capacitação de pesquisadores e intercâmbio técnico com bolsas de estudo.
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O Serpro já possui mais de 300 soluções baseadas em IA em seu portfólio e será responsável por integrar a tecnologia chinesa aos sistemas que sustentam a máquina pública.
O presidente do Serpro, Wilton Mota, explicou que a empresa atua como ponte entre pesquisa, política pública e entrega ao cidadão. Carlos Rodrigo Lima, responsável pelo Centro de Excelência em Ciência de Dados e IA do Serpro, reforçou que o objetivo não é usar modelos prontos, mas dominar todo o ciclo de desenvolvimento, da curadoria de dados ao treinamento e operação em produção.
“É isso que garante que a inteligência artificial esteja, de fato, a serviço do Estado”, afirmou.
A Casa Civil participou da articulação entre os órgãos e o Ministério das Relações Exteriores acompanha o acordo.
O embaixador Eugênio Vargas Garcia, do Departamento de Ciência, Tecnologia e Propriedade Intelectual do Itamaraty, destacou que o Brasil precisa desenvolver capacidades em toda a cadeia de IA, não apenas em aplicações prontas.
O que isso significa para o cidadão?
A questão que ninguém está fazendo em voz alta é sobre privacidade e soberania de dados.
Se o Serpro processa informações fiscais, previdenciárias e de saúde de 220 milhões de brasileiros, e a tecnologia de IA usada nesse processamento é desenvolvida em parceria com uma empresa chinesa, quem garante que os dados ficam no Brasil?
O acordo menciona “tecnologias sob controle público” e “soberania digital”, mas os instrumentos específicos de governança de dados ainda dependem de formalização futura.
O governo argumenta que o domínio do ciclo completo de desenvolvimento é exatamente o que evita dependência.
Em vez de comprar IA pronta dos Estados Unidos ou da China, o Brasil desenvolveria seus próprios modelos com transferência de conhecimento.
Mas a execução dependerá de como os contratos específicos serão estruturados, e esses detalhes ainda não foram divulgados.
O acordo também prevê programas de capacitação com intercâmbio de pesquisadores, cursos, visitas técnicas e bolsas de estudo, com foco em formar especialistas brasileiros capazes de operar e evoluir os sistemas sem depender permanentemente do parceiro chinês.
O governo vai usar IA chinesa pra processar seus dados de imposto de renda, INSS e SUS. Comenta aí: você confia?

O Brasil precisa dominar tecnologia estratégica isso não é mais uma opção, é uma condição de soberania no século XXI. Parceria verdadeira não é comprar produto pronto; é compartilhar conhecimento, código, engenharia e capacidade de desenvolvimento. O parceiro ideal é aquele que abre a caixa‑preta, transfere tecnologia e permite que o país aprenda, evolua e produza.
O próprio caso dos caças Gripen é frequentemente citado em análises sobre política industrial, além da compra, houve repasse tecnológico, treinamento e participação no desenvolvimento. Esse tipo de acordo mostra que o Brasil não precisa se limitar ao papel de consumidor; pode ser coprodutor, cocriador e, com o tempo, autônomo.
Se fizermos o mesmo com IA, semicondutores, redes sociais e infraestrutura digital, deixamos de ser dependentes e passamos a ser protagonistas. Sem isso, continuaremos apenas importando soluções e exportando dados.