Relatório citado pela CNN alerta que o mundo entrou em uma era de falência hídrica, com megacidades como Cabul, Teerã, Karachi e Cidade do México pressionadas por aquíferos em colapso, poços secos, subsidência do solo e crescimento urbano acima da capacidade física de recarga da água subterrânea.
Segundo a CNN, o relatório Global Water Bankruptcy, publicado pela ONU em 20 de janeiro de 2026, documenta que o mundo entrou numa era de falência hídrica. As cidades mais próximas do colapso total não são pequenos municípios rurais isolados, mas megalópoles de milhões de habitantes que cresceram durante décadas ignorando os limites físicos dos aquíferos que as sustentavam.
Cabul, com 7 milhões de pessoas, pode se tornar a primeira capital moderna a ficar completamente sem água até 2030. Seus aquíferos caíram entre 25 e 30 metros nos últimos dez anos, a extração supera a recarga natural em 44 milhões de metros cúbicos por ano, e quase metade dos poços artesianos da cidade já secou.
Teerã segue trajetória semelhante em um país onde o Lago Urmia, antes o maior lago do Oriente Médio, foi reduzido a um deserto salgado. Karachi, megacidade de 15 a 20 milhões de pessoas, foi identificada como uma das quatro megalópoles de altíssima vulnerabilidade hídrica do mundo. “Tudo parece certo até que não está mais”, disse Kaveh Madani, especialista hídrico da ONU. E então é tarde demais.
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O que é um aquífero e por que o colapso da água subterrânea é diferente de uma seca comum
Para entender por que o colapso hídrico de megacidades como Cabul é diferente de uma seca convencional, que pode ser aliviada quando as chuvas voltam, é necessário entender o funcionamento de um aquífero. Um aquífero é uma camada subterrânea porosa de rocha, areia ou cascalho capaz de armazenar água.
Ele funciona como uma esponja gigante. Quando chove, parte da água infiltra pelo solo e percola lentamente até chegar ao aquífero, onde fica armazenada. Esse processo de recarga é lento. Em alguns aquíferos profundos, a água bombeada hoje caiu como chuva há mil, dez mil ou até cem mil anos.
O problema das megacidades da Ásia e do Oriente Médio é que elas bombeiam aquíferos com taxa de recarga medida em décadas ou séculos, enquanto a extração acontece em ritmo de anos. É como consumir uma poupança construída por gerações em velocidade suficiente para zerá-la em uma única geração.
Quando o aquífero esvazia, o solo compacta e perde parte da capacidade de armazenar água para sempre
Existe um segundo problema físico menos intuitivo, mas igualmente grave. Quando um aquífero é esvaziado, o solo que antes era sustentado pela pressão da água começa a compactar. Os poros que armazenavam água colapsam sob o peso das camadas superiores.
Quando esses poros colapsam, não voltam ao estado original. Mesmo que a água retorne, parte do espaço físico que a armazenava desaparece. Esse processo é chamado de subsidência irreversível e já afeta cidades que sobrexploram aquíferos urbanos.
É esse mecanismo que faz a Cidade do México afundar até 25 centímetros por ano e também provoca rachaduras em fundações, ruas e redes de infraestrutura em Teerã e em dezenas de cidades dependentes de água subterrânea.
Cabul pode se tornar a primeira capital moderna a chegar ao Day Zero até 2030
Cabul passou de menos de 1 milhão de habitantes em 1990 para mais de 7 milhões em 2025. Esse crescimento de sete vezes em três décadas foi alimentado por conflito, deslocamento interno e urbanização acelerada, sem infraestrutura hídrica correspondente.
A cidade depende de água subterrânea para quase todo o abastecimento e desenvolveu um sistema de extração fora de controle. Existem cerca de 120 mil poços não regulamentados em Cabul, segundo dados da Mercy Corps, perfurados por residências, fazendas hidropônicas, fábricas e empresas sem monitoramento adequado de profundidade, vazão ou impacto acumulado.
A conta chegou. Os aquíferos caíram entre 25 e 30 metros em dez anos, e 49% dos poços artesianos já estão secos, segundo relatório da ONU de 2023. Os poços restantes precisam ir cada vez mais fundo, elevando o custo de perfuração e bombeamento além da capacidade dos moradores mais pobres.
Extração supera a recarga em 44 milhões de metros cúbicos por ano e coloca Cabul no limite físico
A extração atual em Cabul supera a recarga natural em 44 milhões de metros cúbicos por ano. Isso significa que o aquífero está sendo consumido como capital, não como renda. A água retirada não está sendo reposta no mesmo ritmo.
Se a tendência continuar sem intervenção, a ONU projeta que os aquíferos de Cabul podem secar completamente até 2030. O ACNUR estima que entre 2 e 3 milhões de pessoas poderiam ser forçadas a deixar a cidade em busca de água, enquanto a FAO projeta queda de 40% nas colheitas na província de Cabul até 2035.
Obaidullah Rahimi, pesquisador de gestão hídrica urbana da Universidade de Kaiserslautern-Landau, resumiu o limite físico: a água subterrânea da cidade cobre apenas 44 milhões de metros cúbicos, suficiente para 2 milhões de pessoas com consumo modesto de 50 litros por dia. Cabul tem 7 milhões de habitantes. A conta não fecha.
Pipeline do Rio Panjshir existe no papel, mas financiamento congelado travou a saída técnica
A solução técnica para Cabul existe: o pipeline do Rio Panjshir, projetado para levar água de superfície a cerca de 2 milhões de moradores. O projeto chegou à fase de design, mas nunca foi construído.
O bloqueio veio da política e do financiamento. Mais de US$ 3 bilhões em recursos internacionais foram congelados desde o retorno do Talibã ao poder em 2021, e os cortes de 80% no financiamento americano via USAID eliminaram qualquer perspectiva de execução no prazo necessário.
O problema, portanto, não é apenas geológico. É também institucional. A cidade tem uma solução desenhada, mas não tem recursos, governança e estabilidade suficientes para executá-la antes que o aquífero chegue ao limite.
Teerã mostra como o colapso hídrico atinge cidades, lagos e infraestrutura ao mesmo tempo
O Irã oferece uma das demonstrações mais visíveis do colapso hídrico regional. O Lago Urmia, no noroeste do país, era o segundo maior lago salgado do mundo, com 5.200 quilômetros quadrados nos anos 1970. Hoje, tem menos de 500 quilômetros quadrados e continua encolhendo.
A causa combina extração de água subterrânea acima da recarga, represas que interromperam fluxos naturais, irrigação agrícola intensiva e aquecimento climático que acelera a evaporação. É exatamente o mecanismo que a ONU identifica como centro da falência hídrica: retirar mais água do que o sistema consegue repor.
Teerã, cidade de 17 milhões de pessoas em região árida, depende de aquíferos e reservatórios de montanha alimentados por neve e chuva. O aquecimento regional reduziu a cobertura de neve nas montanhas Alborz, principal fonte de recarga dos reservatórios, enquanto a extração subterrânea avançou além do limite sustentável.
Subsidência em Teerã expõe o custo físico de crescer acima da capacidade hídrica
Kaveh Madani citou Teerã ao descrever cidades onde expansão e desenvolvimento foram incentivados apesar de suprimentos limitados de água. O resultado aparece no solo, nas fundações e nas redes urbanas.
Partes de Teerã já afundam até 25 centímetros por ano em áreas periféricas onde a extração dos aquíferos é mais intensa. As fissuras no asfalto, os desalinhamentos em fundações e os problemas em redes de distribuição de água já são visíveis em setores da cidade.
A subsidência mostra que a crise hídrica não termina quando o poço seca. Ela se transforma em dano urbano permanente, deformando a infraestrutura que depende de um solo estável para funcionar.
Karachi depende do Rio Indo e de chuvas geradas por paisagens distantes
Karachi é um caso diferente, mas igualmente revelador. A megacidade paquistanesa, com 15 a 20 milhões de habitantes, não enfrenta apenas esgotamento de aquífero local. Ela depende de uma paisagem hídrica distante, de onde vem parte da chuva e do fluxo que abastece a cidade.
Um estudo publicado na Nature Communications identificou Karachi como uma das quatro megalópoles de altíssima vulnerabilidade hídrica do mundo, ao lado de Xangai, Wuhan e Chongqing. A vulnerabilidade vem da combinação entre estresse hídrico alto, capacidade econômica limitada para investir em alternativas e dependência crítica do Rio Indo.
O Indo nasce no Tibete, atravessa o Punjab paquistanês e chega à planície de Sindh, onde fica Karachi. O que chega à cidade é uma fração cada vez menor do fluxo original. A megacidade depende de uma cadeia hídrica longa, climática e politicamente vulnerável.
Derretimento dos glaciares do Himalaia pode criar abundância temporária antes da escassez permanente
O aquecimento dos glaciares do Hindu Kush e do Himalaia cria um risco em duas etapas para o sistema do Indo. No primeiro momento, o derretimento pode aumentar o fluxo dos rios, dando a sensação de disponibilidade maior.

Depois, quando os glaciares perdem massa suficiente, a tendência se inverte. O fluxo diminui, e a escassez estrutural se torna mais difícil de compensar. A janela de abundância glacial é temporária; a redução posterior tende a ser permanente em escala humana.
Karachi está no fim dessa cadeia. Quando a água chega em menor volume, a cidade sente o efeito acumulado de mudanças climáticas, crescimento populacional, infraestrutura insuficiente e pressão regional sobre o mesmo sistema fluvial.
Cidade do México mostra o que acontece depois que um aquífero urbano entra em colapso
Para entender o que acontece depois que um aquífero urbano colapsa, a Cidade do México é o estudo de caso mais documentado e perturbador. A cidade foi construída sobre o antigo Lago Texcoco, drenado pelos colonizadores espanhóis no século XVII.
O solo sobre o qual a cidade cresceu é formado por argila lacustre, altamente porosa quando saturada de água, mas compressível quando seca. Quando a cidade passou a bombear intensamente os aquíferos sob ela no século XX, o solo começou a afundar.
Hoje, partes da Cidade do México afundam até 25 centímetros por ano, acumulando metros de subsidência desde o início do bombeamento intensivo. O colapso do aquífero virou colapso do solo.
Afundamento rompe redes de água, inclina prédios e transforma enchente e escassez em crises simultâneas
O afundamento da Cidade do México produziu consequências em cascata. Redes de água se rompem porque as tubulações não acompanham o afundamento diferencial do solo. Edifícios históricos inclinam, ruas ondulam e sistemas de esgoto mudam de comportamento quando as cotas de altitude se alteram.

A ONU estima que até 60% da água tratada na Cidade do México se perde em vazamentos antes de chegar ao consumidor. Ou seja, a cidade bombeia água, perde água e precisa bombear ainda mais para compensar uma infraestrutura que se quebra sobre um solo em movimento.
Ao mesmo tempo, a cidade ainda enfrenta enchentes severas na estação chuvosa. Não porque haja água disponível em excesso, mas porque o sistema de drenagem foi projetado para uma altitude que já não existe. A mesma cidade que raciona água durante meses pode ser inundada durante dias.
Falência hídrica funciona como falência financeira, mas a física não renegocia prazos
Kaveh Madani usa a metáfora da falência financeira de forma deliberada, e ela é mais precisa do que parece. Na falência financeira, chega um ponto em que as dívidas superam a capacidade de pagamento e a recuperação exige intervenção, reestruturação e tempo.
Na falência hídrica, o mecanismo é parecido: a extração acumulada excede a capacidade de recarga do sistema, e a recuperação, quando possível, exige décadas de redução de consumo, fontes alternativas e investimentos que muitas populações não têm tempo para esperar.
A diferença é que, na falência financeira, existe um credor que pode renegociar a dívida. Na falência hídrica, o credor é a geologia. Quando o aquífero seca, seca. Quando a argila compacta, compacta. Quando o poço perde 30 metros, não há banco central capaz de imprimir água.
Relatório da ONU mostra que aquíferos foram tratados como renováveis até a conta física chegar
O relatório da ONU de janeiro de 2026 documenta décadas de extração de água subterrânea como se aquíferos fossem plenamente renováveis. Cidades cresceram no deserto, indústrias se expandiram e sistemas urbanos passaram a depender de estoques subterrâneos sem respeitar o ritmo de recarga.
O déficit hídrico anual de 44 milhões de metros cúbicos em Cabul não é um problema contábil. É uma conta física que chegará até 2030 se a trajetória não mudar. Nenhuma agência internacional, governo ou ONG consegue alterar esse limite apenas por decisão administrativa.
Quatro anos é o prazo de Cabul. Cabul é apenas a primeira. A pergunta que fica é quantas megacidades ainda vão tratar água subterrânea como se fosse renda anual, quando, na prática, estão gastando o capital hídrico que sustentava sua sobrevivência.


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