No coração do deserto australiano, uma comunidade de 2,5 mil habitantes transformou rochas em abrigo permanente contra temperaturas extremas e pode antecipar soluções diante do avanço das mudanças climáticas
Na longa estrada rumo ao centro da Austrália, a 848 km ao norte das planícies costeiras de Adelaide, surgem pirâmides de areia que parecem monumentos esquecidos. À primeira vista, o cenário impressiona pela aridez: uma extensão infinita de poeira rosa-salmão e arbustos resistentes.
No entanto, à medida que você se aproxima, percebe que aqueles montes não são naturais. Eles indicam algo muito maior: uma cidade que decidiu viver sob o solo.
Estamos falando de Coober Pedy, uma cidade de mineradores de opala com cerca de 2,5 mil habitantes. Ali, aproximadamente 60% da população mora em casas subterrâneas escavadas em rochas de arenito e siltito ricas em ferro. E não se trata de excentricidade. Trata-se de sobrevivência.
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52°C no verão: quando viver acima do solo se torna inviável
Durante o verão, Coober Pedy atinge impressionantes 52°C. O calor é tão extremo que pássaros chegam a cair do céu e aparelhos eletrônicos precisam ser guardados no refrigerador para continuar funcionando. Diante disso, morar debaixo da terra deixa de parecer estranho. Na verdade, torna-se lógico.
Enquanto na superfície as temperaturas variam entre noites de 2-3°C no inverno e dias escaldantes no verão, as casas subterrâneas mantêm estabilidade térmica constante. Em muitos casos, o interior permanece em torno de 23°C durante todo o ano, funcionando como um sistema natural de refrigeração passiva. Além disso, a temperatura pode ficar estável 24 horas por dia, eliminando a necessidade de ar-condicionado constante.
Economia, energia renovável e custo imobiliário surpreendente
Outro fator decisivo envolve o custo. Coober Pedy gera 100% da eletricidade que consome, sendo que 70% vêm de fontes eólica e solar. Ainda assim, utilizar ar-condicionado na superfície custaria uma verdadeira fortuna. Por isso, o modelo subterrâneo reduz drasticamente despesas energéticas.
No mercado imobiliário, a diferença também chama atenção. Em leilão recente, casas de três quartos custaram cerca de 40 mil dólares australianos (aproximadamente R$ 126 mil).
Enquanto isso, na cidade grande mais próxima, Adelaide, o preço médio das residências chega a 700 mil dólares australianos (cerca de R$ 2,25 milhões).
Viver sob a Terra: conforto térmico e qualidade de vida
Além da economia, existem benefícios adicionais. Primeiramente, não há insetos no subsolo. Segundo moradores locais, as moscas simplesmente não entram no ambiente escuro e fresco. Além disso, não há poluição sonora nem luminosa.
Curiosamente, o modelo também pode oferecer alguma proteção contra terremotos, embora a segurança dependa do tamanho e profundidade da escavação.
A história mostra que o subterrâneo sempre foi refúgio humano
Apesar de parecer futurista, viver em cavernas é prática antiga. Há dois milhões de anos, ancestrais humanos já utilizavam cavernas na África do Sul. Posteriormente, há 176 mil anos, neandertais criaram estruturas subterrâneas na França.
Na Capadócia, na Turquia, a cidade subterrânea de Derinkuyu, construída por volta do século 8º a.C., abrigava até 20 mil pessoas. Enquanto a temperatura externa variava de vários graus abaixo de zero até mais de 30°C, o interior permanecia estável em 13°C.
Quando o clima e a geologia permitem a construção subterrânea
Entretanto, nem todos os lugares oferecem condições ideais. Em Coober Pedy, a cidade está assentada sobre cerca de 50 metros de arenito poroso extremamente seco. Já em regiões úmidas, como Londres, túneis subterrâneos enfrentam problemas constantes de mofo.Em cavernas de Hazan, em Israel, a apenas 66 metros da entrada, a umidade dobra em relação aos 40% registrados na entrada.
Em Kandovan, no Irã, onde ainda existem moradias escavadas, a região recebe apenas 11 mm de chuva por mês no verão, favorecendo o modelo.
O subterrâneo pode ser o futuro diante do aquecimento global?
Diante do avanço das mudanças climáticas, a pergunta se impõe. Se o planeta continuar registrando ondas de calor extremas, talvez modelos como o de Coober Pedy deixem de ser curiosidade turística e passem a representar estratégia urbana.
Hoje, as pirâmides de areia no deserto australiano parecem excêntricas. No entanto, amanhã, podem se tornar símbolo de adaptação climática inteligente.
Você teria coragem de morar debaixo da Terra para escapar do calor extremo ou ainda prefere enfrentar temperaturas cada vez mais altas acima do solo?

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