Em meio a tarifas, pressões diplomáticas e tensões no Ártico, Pequim contesta o discurso americano, defende a Carta da ONU e alerta que a retórica de segurança pode aprofundar divisões entre EUA, Europa e aliados ocidentais
A China reagiu oficialmente nesta segunda-feira (19) às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envolvendo a Groenlândia, e pediu que Washington abandone o que classificou como narrativa de “ameaça chinesa”, usada, segundo Pequim, para justificar interesses estratégicos próprios na região do Ártico. A manifestação ocorre em um momento de escalada diplomática, marcado pelo anúncio de tarifas progressivas contra países europeus e pelo aumento das tensões geopolíticas no entorno da ilha.
A informação foi divulgada pelo R7.com, conforme reportagem publicada pelo portal, que acompanha os desdobramentos do impasse envolvendo Estados Unidos, Europa e o território autônomo da Dinamarca, considerado estratégico tanto do ponto de vista militar quanto econômico e energético.
China cobra respeito à Carta da ONU e ao direito internacional
Questionado sobre o anúncio de tarifas americanas aplicadas a oito países europeus ligados direta ou indiretamente ao debate sobre a Groenlândia, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que Pequim “já deixou clara várias vezes sua posição sobre a questão da Groenlândia”. Segundo ele, a postura chinesa está ancorada no direito internacional e nos princípios estabelecidos pela Carta das Nações Unidas.
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De acordo com o porta-voz, “o direito internacional, baseado nos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, é o fundamento da ordem internacional vigente e deve ser respeitado”. Em seguida, Guo Jiakun foi ainda mais direto ao pedir que os Estados Unidos interrompam o uso da chamada ‘ameaça chinesa’ como pretexto para obter ganhos privados, sejam eles econômicos, políticos ou militares.
Nesse contexto, Pequim busca reforçar a ideia de que a governança internacional do Ártico deve seguir normas multilaterais, evitando que discursos de segurança sejam instrumentalizados para pressões unilaterais, especialmente sobre aliados europeus dos EUA.
Tarifas, Groenlândia e pressão econômica ampliam o conflito
A reação chinesa ocorre logo após Donald Trump anunciar tarifas progressivas sobre produtos de oito países europeus, condicionando a suspensão dessas medidas a um acordo que envolveria a chamada “aquisição completa e total” da Groenlândia. A ilha, embora autônoma, faz parte do Reino da Dinamarca e ocupa posição estratégica no Atlântico Norte e no Ártico.
Trump justificou a pressão econômica afirmando que a Groenlândia é essencial para a segurança internacional, citando, em diversas ocasiões, supostas atividades militares da China e da Rússia na região. Segundo o presidente americano, exercícios conduzidos por esses países no Ártico representariam uma ameaça direta aos interesses dos Estados Unidos e de seus aliados.
No entanto, Pequim tem rebatido sistematicamente essas acusações. Em manifestações anteriores, o governo chinês declarou que suas atividades no Ártico “visam promover a paz, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável” e que “os direitos e liberdades de todos os países para conduzir atividades na região, de acordo com a lei, devem ser plenamente respeitados”.
Tensão no Ártico preocupa Europa e pode beneficiar China e Rússia
Enquanto isso, a escalada retórica sobre a Groenlândia ampliou as tensões entre os Estados Unidos e aliados europeus, gerando reações dentro da União Europeia (UE). Líderes do bloco alertaram que o tema pode aprofundar divisões internas no Ocidente, enfraquecendo a coordenação política e estratégica entre países historicamente alinhados a Washington.
Além disso, autoridades europeias avaliam que o endurecimento do discurso americano pode, paradoxalmente, beneficiar China e Rússia, ao abrir espaço para maior influência dessas potências em debates sobre governança do Ártico, comércio internacional e segurança regional. Para analistas, a insistência na narrativa de “ameaça chinesa” pode desgastar alianças e produzir efeitos contrários aos pretendidos pelos Estados Unidos.
Nesse cenário, a Groenlândia deixa de ser apenas um território remoto e passa a ocupar o centro de uma disputa geopolítica global, envolvendo tarifas, segurança, direito internacional e o futuro da ordem no Ártico.

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