Documentos assinados pelo chanceler Mauro Vieira e enviados à Câmara dos Deputados apontam risco de uso de força militar americana no Brasil após a classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas pelos Estados Unidos
A crise diplomática entre Brasília e Washington ganhou um novo capítulo nesta terça-feira, 7 de julho de 2026. Conforme apurou a revista VEJA, em nota enviada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos à reportagem, o governo de Donald Trump classificou como “absurda” a avaliação feita pelo Itamaraty sobre o risco de o país norte-americano realizar operações militares em território brasileiro.
A tensão surgiu depois que Washington decidiu, em maio, classificar as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Desde então, o tema passou a dominar a pauta das relações entre os dois países, somando-se a outros pontos de atrito que já vinham marcando o segundo mandato de Trump à frente da Casa Branca.
O que diz o documento assinado pelo chanceler Mauro Vieira
De acordo com os registros oficiais, a avaliação de que os Estados Unidos poderiam empregar força militar no Brasil não partiu de uma declaração isolada. Pelo contrário: ela está formalmente registrada em, pelo menos, duas respostas do Itamaraty a requerimentos de informação apresentados por deputados federais.
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Ambos os documentos foram assinados pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que integra a equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O mais recente deles, enviado em 1º de julho, é direto ao afirmar a possibilidade de o governo americano recorrer à força militar em solo brasileiro.
Na prática, o alerta reflete uma preocupação institucional do Itamaraty diante do enquadramento das duas facções na legislação antiterrorismo dos Estados Unidos. Afinal, esse tipo de classificação amplia significativamente o leque de instrumentos jurídicos e operacionais à disposição de Washington — incluindo, ao menos hipoteticamente, ações de caráter militar.
A reação do Departamento de Estado americano e o que diz a nota enviada a VEJA
Contudo, a resposta americana não demorou a chegar. Em nota enviada à reportagem, o Departamento de Estado classificou o alerta brasileiro como um exagero e reafirmou que suas ações contra as facções seguem exclusivamente critérios de soberania nacional dos Estados Unidos.
“Há a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro” — esse é o trecho do documento mais recente do Itamaraty que motivou a reação mais dura de Washington.
Segundo a nota americana, o país está adotando medidas com base em suas prerrogativas soberanas para combater o que classifica como narcoterrorismo. O texto ainda argumenta que as próprias facções brasileiras já operariam dentro dos Estados Unidos e que o governo americano se comprometeria a proteger sua população dessas organizações. Além disso, o Departamento de Estado sugeriu que alertas genéricos sobre uma eventual intervenção podem, na verdade, funcionar como pretexto para beneficiar grupos criminosos violentos — uma leitura que inverte o sentido original da preocupação manifestada pelo Itamaraty.
Sanções, classificação como grupo terrorista e o pano de fundo da tensão bilateral
Enquanto isso, a disputa diplomática já produz efeitos concretos. Na semana anterior à repercussão do caso, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos aplicou sanções contra duas pessoas físicas e três empresas brasileiras, sob a acusação de manterem vínculos com o PCC.
Vale lembrar que a designação de CV e PCC como organizações terroristas, oficializada pelos Estados Unidos em maio, foi o estopim de toda a controvérsia atual. Na época, a medida já havia sido recebida com cautela pelo governo brasileiro, que reconhece a gravidade da atuação das facções, mas questiona os efeitos jurídicos e diplomáticos de uma classificação unilateral.
Portanto, o episódio desta terça-feira reforça um padrão que já se desenha há meses. De um lado, o governo Trump endurece o discurso e as medidas contra o crime organizado com raízes brasileiras. Do outro, o Itamaraty tenta equilibrar a cooperação bilateral no combate ao crime com a defesa da soberania nacional. Ainda não há sinais de que a controvérsia será resolvida em curto prazo, e o tema deve continuar no centro da relação entre Brasília e Washington nas próximas semanas.
