Pesquisa mostra que a casca do café pode substituir até 30% da farinha de trigo em cookies sem aditivos, enquanto o setor aposta em diversificação para gerar renda e valor ao produtor.
O café deixou de ser apenas bebida quente e passou a ganhar novas rotas de consumo e de negócio no Brasil. Além dos diferentes métodos de preparo, o café agora aparece como matéria-prima para cookies, mel e cosméticos, ampliando o uso do grão e até do que antes era tratado como resíduo.
Para produtores e empresas, essa diversificação do café ajuda a criar alternativas em momentos de instabilidade, incluindo cenários de crise econômica. A lógica é simples: quanto mais aplicações viáveis, mais chances de agregar valor e reduzir dependência de um único mercado.
Casca do café deixa de ser resíduo e vira ingrediente de cookie
Um dos exemplos mais claros dessa virada veio de uma pesquisa apresentada na Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte. Cookies feitos a partir da casca do café de robustas amazônicos finos foram mostrados ao público como resultado de um estudo conduzido pela engenheira de alimentos Lívia Lacerda de Oliveira, professora na Universidade de Brasília (UnB).
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O ponto que chama atenção é o percentual alcançado no teste: segundo a pesquisadora, a casca do café substituiu até 30% da farinha de trigo em cookies, sem nenhum aditivo, superando referências anteriores que costumavam ficar em níveis menores. A patente do estudo foi registrada.
Embrapa entra no caminho do chá e amplia o uso do café
A ideia de usar a casca do café nos estudos, segundo o relato da pesquisa, foi estimulada pelo pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia. Além dos cookies, também foi apresentada uma infusão feita a partir da casca, tratada como um produto com diversidade sensorial e que ainda passa por etapas de desenvolvimento.
A proposta é estudar quimicamente e sensorialmente, avaliando critérios antes de expandir a aplicação para além de nichos em cafeterias.
Mel, cosméticos e o valor do café fora do consumo tradicional
Durante a SIC, a diversificação apareceu em várias frentes. Méis obtidos em lavouras cafeeiras foram degustados, e itens de beleza derivados do café chamaram atenção de produtoras que já enxergam novas possibilidades de renda.
Um exemplo citado é o da farmacêutica e bioquímica Vanessa Vilela, que criou em 2007 a Kapeh, com produtos como perfumes que levam café na composição. Para quem está no campo, a mensagem é direta: o café pode render mais quando vira mais do que bebida.
Por que a diversificação virou tendência no setor
Na avaliação de Celírio Inácio da Silva, diretor-executivo da Abic, a diversificação do café ganhou força nos últimos anos. A conta do valor agregado muda quando o produtor pode direcionar o café para diferentes indústrias, como bebidas, cosméticos, aromatizantes e outros formatos.
Essa tendência também aparece em exemplos internacionais citados no debate, como a China, que tem registrado aumento no consumo ao adotar formas diferentes de uso. O café gelado e combinações fora do padrão tradicional mostram como novos hábitos abrem mercados, especialmente entre os mais jovens.
Marcas e números mostram como o café vira portfólio
Na SIC, marcas brasileiras apresentaram produtos alinhados a essa mudança, como opções para consumo gelado. No mercado nacional, a Três Corações, principal player do setor, informou que 70% do faturamento do grupo está no café torrado e moído, enquanto o restante vem de outros produtos, como cappuccinos, cafés com leite e solúveis.
Dentro do segmento de torrados e moídos, a empresa aponta que 3% já são cafés especiais, com crescimento anual acima de 20% no portfólio.
Canéfora ganha espaço e entra na estratégia do café
Para diversificar aplicações, os canéforas, como conilon e robusta, aparecem como opção por terem perfil diferente do arábica. A discussão mistura preço, qualidade, posicionamento e até adaptação climática, colocando o café em uma equação mais ampla do que apenas “vender saca”.
A própria feira reforça esse cenário. A SIC reuniu 27 mil pessoas de 33 países e gerou cerca de R$ 150 milhões em negócios, sinalizando que o café, quando diversificado, movimenta cadeias além da torra e da xícara.
Se a casca do café virasse um produto comum no mercado, você experimentaria um cookie ou um chá feito a partir dela?

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