É a Colômbia, onde a redução da jornada de trabalho se conclui em 15 de julho de 2026, somada à alta do salário mínimo. O emprego cresce e o desemprego está baixo, mas empresários relatam fechar lojas mais cedo e investir em automação, e ainda não há estudo rigoroso de impacto.
A Colômbia, país vizinho do Brasil, conclui em 15 de julho de 2026 a redução da jornada de trabalho para no máximo 42 horas semanais, somada a uma alta de 23,7% no salário mínimo, e, mesmo tendo contratado 787 mil trabalhadores extras para cobrir as horas a menos, registra o desemprego na mínima histórica. As informações são da BBC News Brasil, divulgadas pelo G1, que ouviu economistas e entidades empresariais sobre os efeitos das mudanças.
O caso vira espelho para o debate brasileiro. Enquanto o Brasil discute reduzir a sua semana de 44 para 40 horas e acabar com a escala 6×1, a Colômbia finaliza uma redução de seis horas distribuída ao longo de cinco anos, desde que a lei foi aprovada em 2021. O mercado de trabalho segue aquecido, mas parte dos empresários relata fechar lojas mais cedo e acelerar a automação, em um cenário que ainda carece de um estudo científico de avaliação de impacto.
A redução para 42 horas e o aumento do salário mínimo na Colômbia

A mudança colombiana foi construída em etapas e por governos opostos. A redução da jornada de trabalho de 48 para 42 horas semanais foi aprovada em 2021, no governo de direita de Iván Duque, que comandou o país de 2018 a 2022, e agora se conclui em 15 de julho de 2026, ao fim de cinco anos de transição. A Colômbia, ao contrário do Brasil, não estabeleceu a obrigatoriedade de ao menos duas folgas na semana.
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A diminuição das horas não veio sozinha. Ela se somou à reforma trabalhista de 2025, já no governo de esquerda de Gustavo Petro, que aumentou em 23,7% o salário mínimo do país e ampliou o período considerado para o pagamento de adicional noturno, elevando os ganhos dos trabalhadores. Diante das duas mudanças, entidades empresariais passaram a relatar dificuldades para manter planos de contratação e a necessidade de adaptações, como fechar lojas mais cedo e automatizar serviços.
787 mil contratações e o desemprego na mínima histórica

Apesar das queixas, o mercado de trabalho não desabou. O cenário está longe de ser de terra arrasada, na avaliação do economista Stefano Farné, diretor do Observatório do Mercado de Trabalho e Seguridade Social da Universidade Externado, em Bogotá, que participou das discussões sobre a jornada de trabalho no Congresso colombiano. Para ele, os custos por trabalhador subiram, mas “não houve efeitos negativos sobre o mercado de trabalho”, e o emprego assalariado do setor privado cresce há muitos meses.
Os números de contratação ajudam a explicar o quadro. Uma análise da Corficolombiana, uma das maiores corporações financeiras do país, estima que 787 mil novos trabalhadores foram contratados entre 2022 e 2025 apenas para compensar a queda das horas, com o desemprego em mínima histórica. A mesma análise pondera que a produtividade caiu, porque o mesmo volume de trabalho passou a ser dividido entre mais gente, de modo que “a economia se torna menos eficiente”. Farné ressalva que ainda não há um estudo rigoroso de avaliação de impacto, e que a leitura positiva se baseia na percepção geral do mercado.
O que dizem os empresários: lojas fechando mais cedo e automação
Do lado das empresas, o tom é mais cauteloso. A Fenalco, federação nacional de comerciantes e empresários equivalente a uma CNC no Brasil, ouviu 610 empresários em 25 cidades para medir o efeito da redução da jornada de trabalho e do aumento dos custos trabalhistas. O levantamento aponta que 51% das empresas começaram a fechar mais cedo, reduzindo operações noturnas, 25% aceleraram a automação de serviços e 23% subiram os preços dos produtos.
Os setores de horário estendido foram os mais atingidos. Varejo, bares, restaurantes, hotelaria e vigilância privada concentram o impacto, e a federação afirma que 64% dos entrevistados reduziram o número de empregados e 80% mudaram os planos de contratação futura, enquanto dados preliminares apontam menos empresas sendo abertas em 2026. Para a entidade, “existe um ambiente de incerteza que leva os empresários a agir com prudência”, embora ela avalie que o país mantém forte capacidade empreendedora.
A flexibilidade colombiana e as diferenças para o Brasil
Boa parte do amortecimento veio da flexibilidade nas regras. Diferentemente da proposta brasileira, que une a redução de 44 para 40 horas ao fim da escala 6×1, a jornada de trabalho colombiana não exige duas folgas semanais, permite que empresa e empregado acordem trabalhar mais em um dia e menos em outro, e deixou que o empregador escolha o dia da folga, que não precisa mais ser preferencialmente sábado ou domingo. Segundo Farné, foi essa flexibilização que evitou efeitos maiores na economia.
A Colômbia ainda enxugou outras obrigações. As empresas deixaram de ser obrigadas a conceder uma folga extra por semestre, no chamado dia da família, e as maiores não precisam mais oferecer duas horas semanais de atividades culturais ou de formação.
No Brasil, a redução de 44 para 40 horas entraria em vigor em duas etapas, com 42 horas após 60 dias e 40 horas depois de mais um ano, prazo que o economista Bruno Ottoni, professor da Uerj, considera curto para a adaptação das empresas.
O caso chileno e a lição da gradualidade
O Chile é outra referência citada no debate. No governo de esquerda de Gabriel Boric, uma reforma de 2023 reduziu a jornada de trabalho máxima de 45 para 40 horas semanais, com transição entre 2024 e 2028. Antes disso, o país já havia sido estudado internacionalmente por outra redução, quando, em 2005, após quatro anos de transição, abandonou a semana de 48 horas por um teto de 45.
Os estudos sobre o caso chileno apontam efeitos contidos. A pesquisa do economista Rafael Sánchez, que acompanhou milhares de trabalhadores entre 2002 e 2005, concluiu que a mudança não teve efeitos diretos significativos no mercado de trabalho e que as horas passaram a ser mais bem remuneradas, sem corte de salário, com as empresas usando a transição para redistribuir tarefas e evitar demissões em massa.
De modo geral, os estudos empíricos encontram efeitos pequenos e marginais nessas reduções, e Farné resume que trabalhar menos é uma tendência mundial, mas que deve ser adotada com calma e de forma gradual.
E você, é a favor de reduzir a jornada de trabalho no Brasil, como fizeram a Colômbia e o Chile? Acha que o prazo proposto aqui é suficiente, ou a transição deveria ser mais gradual e flexível, como nos vizinhos? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre o tema, com respeito às diferentes visões.

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