Cinthia Lin é moradora de Guangzhou e youtuber. Sem ser jornalista nem trabalhar para a Shein, ela e o irmão entraram na vila de Nanyin, no distrito de Panyu, onde ficam mais de 500 fornecedores da marca, e documentaram o que nenhuma câmera havia mostrado antes.
O nome oficial é Nanyin, no distrito de Panyu, em Guangzhou, sul da China. Mas quem mora na região chama de outro jeito: Vila Shein. É ali que se concentram mais de 500 fabricantes, grandes e pequenos, que compõem a cadeia de suprimentos da gigante do fast fashion. A moradora de Guangzhou Cinthia Lin decidiu entrar nessa vila com o irmão e uma câmera, disfarçada de candidata a emprego, para ver por conta própria o que os relatórios externos descrevem de longe.
A motivação veio de comentários que ela leu na plataforma chinesa Red, onde trabalhadores e fornecedores descreviam experiências desagradáveis dentro da cadeia da Shein. Depois, encontrou uma reportagem do Wall Street Journal sobre exploração trabalhista nos fornecedores da marca. Em vez de só ler, foi verificar. A visita resultou num vídeo que mostrou o que raramente aparece: o dia a dia das fábricas que transformam um design em roupa em poucas horas.
500 fornecedores, lotes pequenos e um processo que pode levar horas
O modelo da cadeia de suprimentos da Shein é o que explica a velocidade da empresa. Do design e da seleção de tecido à produção e embalagem, todo o processo pode ser concluído em poucas horas. Isso é possível porque os mais de 500 fabricantes da vila estão fisicamente próximos uns dos outros e de todos os insumos necessários. Quando um pedido chega, a engrenagem já está montada ao redor dele.
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Esse modelo de produção em lotes pequenos e sob demanda elimina estoques e reduz desperdício. É também o que permite à Shein lançar milhares de novos produtos por dia e abandonar aqueles que não vendem antes de produzi-los em escala. Para os fornecedores, a agilidade exigida tem um preço: velocidade de resposta constante, prazos apertados e pressão para aceitar os valores que a marca propõe.
Quadros de vagas, entrevistas disfarçadas e o que os salários revelam
Caminhando pela vila, Cinthia encontrou quadros de vagas repletos de oportunidades na área de produção de vestuário. Analisou os anúncios, observou candidatos se apresentando e conversou com profissionais do setor sobre os valores praticados. Um especialista apontou que os salários reais podem ser menores do que os anunciados, uma distância comum entre o que aparece nos quadros e o que entra na conta no fim do mês.
Para ir além dos anúncios, ela se passou por candidata a emprego e conseguiu conversar diretamente com trabalhadores. Um deles relatou que o turno vai das 8h às 22h, com pausas para almoço e jantar. Esse horário, segundo Cinthia, parece ser o padrão da vila. Para ganhar mais de 10 mil yuans por mês, um trabalhador disse que é preciso fazer mais de dez horas diárias. A remuneração é por peça produzida, não por hora. Horas extras obrigatórias em pedidos urgentes não geram adicional, apenas mais peças entregues.
O dono de fábrica que já foi contactado pela Shein e falou sobre os preços
Para entender a perspectiva dos fornecedores, Cinthia entrevistou o dono de uma fábrica em Dongguan, um contato pessoal que já havia sido abordado pela Shein anteriormente. O que ele descreveu confirmou o que ela observou na vila: a Shein busca os preços mais baixos possíveis em cada negociação para manter sua vantagem competitiva. Os fornecedores têm pouca margem para recusar.
A lógica é simples e dura: a concorrência entre os fabricantes da região é intensa. Quem não aceitar o preço proposto pode ser substituído pelo vizinho que aceita. Essa estrutura coloca os donos de fábrica numa posição em que ceder às condições da Shein não é uma escolha voluntária, é uma condição de sobrevivência no mercado. O resultado é uma cadeia que funciona com eficiência impressionante para a marca e com margens apertadas para quem produz.
Fábricas abertas à noite e a ambiguidade que Cinthia não conseguiu resolver
Ao retornar à vila à noite, depois de um jantar rápido, Cinthia e o irmão encontraram muitas fábricas ainda em funcionamento, pequenas e grandes. As luzes acesas, as máquinas ligadas e os trabalhadores dentro eram o registro visual do que os números de produção da Shein exigem em tempo real. Nenhuma câmera de relações públicas mostraria isso. Ela mostrou.
Mas foi ali que o conflito que ela descreve ficou mais nítido. Os trabalhadores e os donos de fábrica são gratos pelos pedidos. Dependem desse trabalho para sustentar as famílias numa economia urbana competitiva. Muitos não têm alternativas melhores. A Shein oferece renda onde outras oportunidades não existem. E ao mesmo tempo, a escala e o poder de barganha da marca são exatamente o que comprime os salários e alonga os turnos. Os dois fatos coexistem sem que um cancele o outro.
O que a moradora de Guangzhou concluiu depois de ver tudo isso
Cinthia não saiu da vila com uma sentença simples. Ela concluiu que a remuneração na cadeia de suprimentos da Shein está aproximadamente na média do setor, não significativamente acima. Para ganhar acima da média, o trabalhador precisa de horas extras e, às vezes, de alta pressão. As condições físicas das fábricas variam, mas refletem o padrão da indústria de confecção na China, não uma exceção negativa dentro dela.
O que ela identificou como estrutural é a combinação de três forças que se reforçam: a demanda do consumidor global por moda barata e rápida, a necessidade da Shein de manter vantagem na cadeia de suprimentos e a pressão dos governos locais por crescimento econômico. Essas três forças criam o ambiente no qual os turnos de 14 horas e os preços por peça que não sobem persistem. A moradora de Guangzhou que entrou na vila como candidata a emprego saiu sem saber de quem cobrar a conta. Mas registrou quem a paga.
Em 2022, a Shein foi questionada sobre violações trabalhistas e prometeu investir 15 milhões de dólares ao longo de três a quatro anos para modernizar sua cadeia de suprimentos. O vídeo é do canal de Cinthia Lin no YouTube.
Você continua comprando na Shein sabendo de como funciona a cadeia de produção, ou mudou de hábito depois de ver reportagens assim? Deixa nos comentários o que você pensa.


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