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Depois que a Rússia fechou a torneira, Europa mira a África como nova salvação energética: dois gasodutos gigantes de até 7 mil km podem cruzar o Saara e o Atlântico, custar US$ 25 bilhões e transformar o gás nigeriano em arma geopolítica

Escrito por Ana Alice
Publicado em 17/06/2026 às 23:39
Atualizado em 17/06/2026 às 23:41
Assista o vídeoEntenda como gasodutos africanos podem mudar a rota do gás para a Europa e ampliar a disputa energética entre Argélia e Marrocos. (Imagem: Ilustrativa)
Entenda como gasodutos africanos podem mudar a rota do gás para a Europa e ampliar a disputa energética entre Argélia e Marrocos. (Imagem: Ilustrativa)
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Dois megaprojetos africanos disputam espaço em uma nova rota global do gás, em meio à redução da dependência europeia da Rússia e aos desafios de financiamento, segurança e transição energética.

A busca da Europa por novas rotas de gás avançou com dois megaprojetos africanos que preveem ligar reservas da Nigéria ao mercado europeu.

A movimentação ganhou força após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, quando a União Europeia acelerou medidas para reduzir a dependência energética de Moscou e ampliou o interesse por corredores vindos do norte e do oeste da África.

Antes da guerra, o gás russo tinha peso relevante no abastecimento europeu.

Segundo a Comissão Europeia, a participação da Rússia nas importações de gás da União Europeia caiu de 45% em 2021 para 12% em 2025, enquanto o volume importado recuou de 152 bilhões para 36 bilhões de metros cúbicos no mesmo período.

O bloco europeu também estabeleceu a eliminação gradual do gás natural liquefeito russo até o fim de 2026 e do gás por gasoduto até, no máximo, 30 de novembro de 2027.

Essa mudança abriu espaço para que governos africanos, empresas estatais de energia e investidores internacionais passassem a disputar rotas alternativas de fornecimento.

Nesse cenário, dois projetos concentram atenção: o Gasoduto Transaariano, liderado por Nigéria, Níger e Argélia, e o Gasoduto Atlântico Africano, associado à Nigéria e ao Marrocos.

Ambos têm potencial de alterar a logística do gás africano, mas ainda dependem de financiamento, segurança regional, acordos políticos e adaptação às metas de transição energética.

Gasoduto Transaariano avança pelo Saara

O Gasoduto Transaariano entrou em nova fase em 04 de junho de 2026, quando a Sonatrach, estatal argelina de petróleo e gás, anunciou o início oficial das obras do trecho argelino em Aoulef, na província de Adrar.

A cerimônia teve participação de representantes da Argélia, da Nigéria e do Níger, além da direção da própria companhia.

O projeto prevê conectar o gás nigeriano ao centro de Hassi R’Mel, na Argélia, um dos principais polos de distribuição do país.

A partir dessa estrutura, o combustível poderá ser integrado à rede argelina de transporte e às rotas de exportação já existentes, com possibilidade de envio a mercados internacionais, incluindo a Europa.

Segundo a Enerdata, o Transaariano foi desenhado para ter 4.128 quilômetros de extensão e capacidade de transportar até 30 bilhões de metros cúbicos de gás por ano da Nigéria, passando pelo Níger, até a costa mediterrânea da Argélia.

O desenvolvimento envolve a Nigerian National Petroleum Company, a Sonatrach e a Nigerien Oil Products Company, conhecida como Sonidep.

O cronograma, no entanto, não avança de forma uniforme entre os países envolvidos.

Enquanto a Argélia iniciou a etapa em seu território, o Níger informou que pretende começar a construção de seu trecho de 720 quilômetros no início de 2027, segundo declaração atribuída ao ministro nigerino do Petróleo, Hamadou Tini, em cobertura da agência Anadolu.

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Gasoduto Atlântico Africano mira rota pelo Marrocos

A alternativa marroquina é mais longa e envolve um número maior de países.

O Gasoduto Atlântico Africano, também chamado de Gasoduto Nigéria-Marrocos, é planejado para seguir pela costa oeste do continente e atravessar 13 países africanos, combinando trechos terrestres e marítimos.

O objetivo declarado do projeto é permitir que o gás produzido em diferentes pontos da África Ocidental abasteça mercados locais e também chegue à Espanha e a outros destinos europeus.

A proposta amplia a dimensão regional da infraestrutura, já que parte do gás poderia ser usada nos próprios países de trânsito.

Segundo a publicação African Business, representantes do Escritório Nacional de Hidrocarbonetos e Minas do Marrocos estiveram em Washington, em maio de 2026, em busca de financiamento para o projeto.

A reportagem afirma que a estrutura teria cerca de 6.900 quilômetros e capacidade anual de 30 bilhões de metros cúbicos, com metade desse volume direcionada a mercados domésticos africanos.

Esse desenho é relevante para os países envolvidos porque a disputa não se limita à exportação de gás para a Europa.

Para governos africanos, a infraestrutura também é apresentada como forma de ampliar eletrificação, abastecer indústrias e reduzir gargalos históricos de acesso à energia.

A Agência Internacional de Energia estima que quase 600 milhões de pessoas na África ainda vivem sem acesso à eletricidade.

O dado ajuda a contextualizar por que gasodutos desse porte são tratados por autoridades e instituições do setor como instrumentos de desenvolvimento regional, além de corredores de exportação.

Financiamento bilionário pesa sobre os gasodutos africanos

O custo dos projetos é um dos principais fatores de incerteza.

O Gasoduto Transaariano costuma ser estimado na casa de dezenas de bilhões de dólares, enquanto o Gasoduto Atlântico Africano aparece em avaliações recentes como um empreendimento de aproximadamente US$ 25 bilhões.

Pela escala das obras, os dois projetos exigem participação de Estados, empresas públicas, investidores privados e instituições financeiras multilaterais.

A necessidade de capital de longo prazo também aumenta a importância de contratos estáveis, garantias políticas e regras claras para distribuição de receitas.

Um estudo publicado no Journal of Geo-Energy and Environment descreve o Gasoduto Atlântico Africano como uma infraestrutura transcontinental voltada a conectar reservas da África Ocidental a redes do norte da África e a mercados europeus.

A pesquisa também aponta parcerias público-privadas e modelos de compartilhamento de receita entre as estratégias avaliadas para viabilizar segurança energética, cooperação regional e sustentabilidade.

A concorrência entre os dois corredores tem impacto geopolítico.

A Argélia já possui infraestrutura de exportação ligada ao Mediterrâneo e busca ampliar seu papel como fornecedora para a Europa.

O Marrocos, por sua vez, aposta em uma rota atlântica capaz de integrar países da África Ocidental e fortalecer sua posição em negociações energéticas regionais.

Segurança no Sahel e transição energética desafiam os projetos

Os obstáculos não estão restritos ao financiamento.

O Gasoduto Transaariano atravessa áreas sujeitas a riscos de segurança no Sahel, instabilidade política e desafios logísticos no deserto.

A região inclui países que passaram por tensões institucionais recentes e áreas afetadas por grupos armados.

No caso da rota atlântica, a complexidade decorre do número de países envolvidos, da necessidade de acordos regulatórios e da combinação de trechos offshore e onshore.

Quanto maior a extensão da infraestrutura, maior tende a ser a exposição a atrasos, mudanças políticas, disputas de governança e dificuldades de financiamento.

A transição energética também influencia a análise sobre a viabilidade de longo prazo.

O gás natural ainda é tratado por muitos governos e empresas como combustível de transição, mas políticas climáticas mais rígidas na Europa podem reduzir a demanda nas próximas décadas.

Essa avaliação é citada por especialistas como um dos riscos para projetos de infraestrutura fóssil de grande porte.

Para reduzir esse risco, pesquisadores e analistas do setor defendem que novos corredores de gás sejam planejados com flexibilidade operacional.

Entre as alternativas discutidas estão futuras adaptações para gases de baixo carbono, como o hidrogênio verde, embora essa possibilidade ainda dependa de tecnologia, financiamento, demanda internacional e marcos regulatórios.

A Agência Internacional de Energia Renovável já identifica no norte da África projetos relevantes de hidrogênio, mas muitos ainda estão em fase inicial de viabilidade.

Por isso, a conversão de gasodutos ou o uso compartilhado de infraestrutura não deve ser tratado como resultado garantido, e sim como possibilidade condicionada a decisões técnicas e econômicas.

África ganha espaço na disputa global por energia

A redução da dependência europeia do gás russo criou uma oportunidade para países africanos produtores e de trânsito.

Ao mesmo tempo, a viabilidade desses corredores dependerá da capacidade dos governos de transformar contratos de exportação em infraestrutura, arrecadação e abastecimento interno.

Para que esses projetos tenham efeito além do comércio internacional, será necessário definir regras de partilha, mecanismos de financiamento, garantias de segurança e compromissos com o fornecimento local.

Sem esses elementos, o impacto nos países atravessados pelas obras poderá ser limitado.

Com acordos consistentes, os gasodutos podem ampliar a margem de negociação de países africanos no mercado global de energia.

Também podem reforçar a integração regional, desde que os benefícios não fiquem concentrados apenas nos pontos de produção e exportação.

A disputa entre as rotas pelo Saara e pelo Atlântico mostra como a crise energética europeia passou a se conectar diretamente com a agenda de desenvolvimento africana.

O resultado dependerá menos do tamanho das tubulações e mais de como governos, empresas e financiadores irão repartir riscos, receitas e acesso à energia.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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