Em 2025, a carne bovina nos EUA atinge preços recordes com seca extrema, menor rebanho em 75 anos, frigoríficos concentrados, tarifas de Trump, importações travadas e demanda resiliente, cenário que segundo a CNBC só deve aliviar de forma consistente depois de 2027, em definitivo, para consumidores, produtores e supermercados pressionados
Em início de 2025, a carne bovina nos EUA chega aos supermercados com aumentos próximos de 15 por cento em um ano, enquanto a inflação geral dos alimentos gira em torno de 3 por cento, segundo a reportagem da CNBC Originals. Ao mesmo tempo, os rebanhos bovinos nacionais recuam aos menores níveis em quase 75 anos, reflexo direto de seca severa nos estados produtores e de uma escalada de custos de produção que teria subido cerca de 50 por cento em cinco anos para muitos pecuaristas.
Essa combinação de oferta comprimida e demanda resiliente por carne bovina nos EUA pressiona toda a cadeia, dos criadores de gado aos frigoríficos, passando por empresas como a Omaha Steaks e chegando ao consumidor final. A própria CNBC destaca que, diante do ciclo lento do gado e de decisões políticas sobre tarifas e importações, qualquer alívio consistente nos preços só é projetado de forma mais clara depois de 2027, mesmo com programas públicos em discussão para fortalecer o setor até 2030.
Preços recordes, margem apertada e rebanho no menor nível em 75 anos
Os dados apresentados pela CNBC mostram que os preços da carne bovina nos EUA subiram cerca de 15 por cento em um ano, um movimento muito mais forte do que a inflação média de alimentos.
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Para o produtor, o quadro é ainda mais duro: custos de ração, equipamentos e mão de obra avançaram cerca de 50 por cento em cinco anos, tornando comum a necessidade de renda suplementar para manter a atividade.
Na prática, apenas famílias com terra e equipamentos já pagos ao longo de gerações conseguem operar sem outra fonte de renda, segundo depoimentos colhidos pela reportagem.
Ao mesmo tempo, o país registra o menor rebanho bovino em quase 75 anos, resultado de anos de seca e de decisões forçadas de venda de animais que, em condições normais, seriam para reprodução.
Mesmo assim, a produção de carne não cai na mesma proporção, porque o peso médio dos animais vem aumentando.
Seca, custos de ração e o dilema de vender ou reter fêmeas
A CNBC visitou o estado de Nebraska, um dos principais polos de gado dos Estados Unidos, para entender como a seca muda o cálculo econômico da carne bovina nos EUA.
No rancho familiar Linetic X Ranch, o coproprietário Lin Tayen Lineman explica que cerca de 30 por cento do rebanho vai para a cadeia de carne e 70 por cento é reservado para reprodução, num trabalho focado em genética, escolhendo “a melhor mãe e o melhor pai” para produzir animais superiores.
Em anos de seca severa, porém, a falta de pastagens verdes e de umidade adequada torna a alimentação natural insuficiente, obrigando os produtores a recorrer a suplementos de grãos.
Mesmo com alguma queda recente no preço dos grãos, esse custo extra pesa no caixa.
Segundo especialistas ouvidos pela CNBC, a pergunta central do pecuarista em 2025 é praticamente um lançamento de moeda: “vendemos esse gado para o sistema de abastecimento ou retemos para reconstruir o rebanho?”.
A lógica de curto prazo empurra para a venda, mas a reconstrução do rebanho é indispensável para qualquer estabilização futura de preços.
Ciclo do gado, oferta restrita e horizonte de alívio só depois de 2027
O chamado ciclo do gado ajuda a explicar por que a carne bovina nos EUA não deve baratear tão cedo.
Trata se da flutuação natural do rebanho nacional ao longo de períodos de 8 a 12 anos, em resposta à lei de oferta e demanda.
Quando os preços do gado sobem, produtores tendem a reter mais fêmeas para reprodução, o que aumenta a oferta futura e, em algum momento, derruba os preços.
Na sequência, com preços mais baixos, os rebanhos voltam a se contrair.
Em teoria, a alta recente nos preços já deveria ter incentivado a retenção de fêmeas, mas a seca nos principais estados produtores inverteu a lógica: sem pasto e com ração cara, muitos venderam animais que seriam usados para reprodução.
A avaliação ouvida pela CNBC é que, só perto do fim de 2027, a reconstrução do rebanho deve ser suficiente para produzir um movimento consistente de queda de preços da carne bovina nos EUA. Até lá, a tendência é de mercado apertado e volatilidade.
Estrutura fragmentada, margens pequenas e risco operacional elevado
O setor de carne bovina nos EUA tem menos integração vertical que o de frango, em que uma mesma empresa costuma controlar todas as etapas de produção.
No caso dos suínos e das aves, o modelo de confinamento total, com sistemas alimentares baseados em grãos, permite ciclos rápidos de abate, muitas vezes em cerca de seis semanas, algo impossível de replicar na bovinocultura de corte.
Para levar um bezerro ao ponto de abate, o ciclo leva entre 18 e 22 meses, o que torna muito mais difícil controlar todas as fases.
As margens relatadas são estreitas: muitos produtores trabalham com expectativa de lucro de 100 a 200 dólares por cabeça, sujeito a riscos imprevisíveis como doenças, acidentes ou até descargas elétricas em campo aberto.
Um evento isolado pode consumir todo o lucro de uma temporada, reforçando a fragilidade financeira do produtor mesmo em ambiente de preços altos.
Frigoríficos concentrados, investigações e acusações de conluio
Na etapa industrial, a carne bovina nos EUA é processada em um mercado altamente concentrado.
Segundo a reportagem, quatro grandes frigoríficos controlam cerca de 85 por cento do abate no país.
Em 7 de novembro, o então presidente Donald Trump acusou publicamente esses grupos de conspirar para elevar preços, e o procurador geral anunciou a abertura de uma investigação.
A CNBC lembra, porém, que essas suspeitas não são novas. Empresas como Tyson, Cargill e JBS já haviam pago dezenas de milhões de dólares em 2025 para encerrar processos de 2019 que alegavam conluio na elevação de preços da carne bovina nos Estados Unidos.
As companhias negaram irregularidades e, segundo a emissora, não responderam aos pedidos de comentário para a nova reportagem.
Para intermediários como a Omaha Steaks, que compra carne bovina de empacotadores, a concentração significa negociar insumos mais caros em um mercado com poucos vendedores.
Omaha Steaks, congelamento rápido e a pressão do varejo
A reportagem da CNBC Originals mostra os bastidores da Omaha Steaks, que atende principalmente o mercado de festas de fim de ano.
A empresa relata que o custo de uma caixa de filé mignon aumentou entre 25 e 30 por cento em apenas dois ou três anos, mesmo sem repassar totalmente esse aumento ao consumidor.
O executivo ouvido afirma que os preços de venda ficaram congelados por cerca de três anos e quatro meses, mas a pressão atual tornou essa estratégia cada vez menos sustentável.
Para se proteger, a Omaha Steaks usa túneis de congelamento rápido e gigantescos freezers para estocar carne bovina por até três anos, acumulando milhões em produtos à espera da alta demanda de dezembro.
Essa estratégia permite comprar acima do preço de mercado à vista e ainda assim manter competitividade, porque o congelamento rápido preserva qualidade e sabor.
No entanto, o próprio executivo admite que o mercado se aproxima de máximas históricas, e se os custos continuarem subindo, parte dessa pressão terá de ser repassada definitivamente aos consumidores.
Importações, tarifas de Trump e efeitos sobre a carne moída
A carne bovina importada representa parcela relevante do abastecimento de carne bovina nos EUA, sobretudo na forma de carne moída.
Em outubro de 2025, numa tentativa declarada de reduzir preços nos supermercados, Trump anunciou que quadruplicaria as importações com tarifas mais baixas da Argentina.
Especialistas ouvidos pela CNBC ponderam, porém, que a maior parte do que chega de fora é carne moída, o que limita o impacto sobre outros cortes.
Na prática, quando o governo promete reduzir os preços da carne bovina nos EUA via importação, o principal efeito se concentra na carne moída, que serve de referência para todo o mercado.
Ao mesmo tempo, a política comercial recente foi marcada por idas e vindas: em julho de 2025, o Brasil, responsável por cerca de 15 por cento da carne bovina importada pelos Estados Unidos, sofreu tarifa de 40 por cento, medida descrita por fontes da Reuters como punição política ligada a um processo contra o ex presidente brasileiro aliado de Trump.
Essas tarifas foram posteriormente revertidas, mas o período de flutuação derrubou o preço recebido pelos exportadores sem se traduzir em queda consistente para o consumidor americano, segundo relatos.
Parasita no México, vetos e papel crítico da carne moída
Outro fator de pressão sobre a carne bovina nos EUA veio do lado sanitário. Em 2024, o México respondeu por 13 por cento das importações de carne bovina dos Estados Unidos.
Um surto de um parasita conhecido como “screwworm”, que se alimenta de tecido animal, levou as autoridades americanas a vetar a importação de gado mexicano a partir de maio, afetando diretamente o fluxo de animais usados para a produção de carne moída.
Apesar dessas restrições, as importações totais de carne bovina devem crescer cerca de 16 por cento em 2025, segundo projeções citadas pela CNBC.
O ponto central, porém, é que a carne bovina moída “dá o tom” para todo o mercado de carne bovina nos EUA, influenciando a percepção de preço do consumidor médio.
Quando a oferta de carne moída é comprimida por tarifas, vetos sanitários ou choques de rebanho, toda a estrutura de preços tende a subir, mesmo em segmentos de cortes nobres.
Demanda resiliente, qualidade superior e mudança de hábito pós pandemia
Em teoria, preços altos deveriam desestimular o consumo. No caso da carne bovina nos EUA, ocorreu o contrário na última década.
A reportagem mostra que a demanda por carne bovina aumentou, em parte porque a qualidade média dos cortes melhorou.
Alguns anos atrás, apenas 2 a 3 por cento da carne bovina no mercado era classificada como “prime”, o nível mais alto do USDA, determinado principalmente pelo marmoreio.
Hoje, esse patamar teria chegado a 10 a 12 por cento, elevando o padrão de consumo.
A pandemia de coronavírus reforçou essa tendência.
Com mais tempo em casa, os consumidores passaram a preparar bifes e cortes especiais na própria cozinha e, segundo a Omaha Steaks, esse hábito se manteve mesmo após a reabertura de restaurantes.
A empresa afirma que quase 50 por cento de seu faturamento anual se concentra no último trimestre, com envio de cerca de 90 mil caixas refrigeradas por dia em dezembro, o que mostra como as festas de fim de ano cristalizaram a carne bovina como produto de desejo, apesar dos preços recordes.
Políticas públicas, resiliência do rebanho e a janela até 2030
O governo americano discute medidas de longo prazo para tornar a carne bovina nos EUA menos vulnerável a choques climáticos e de mercado.
A proposta do USDA citada pela CNBC inclui expansão de pastagens, controle de predadores e prevenção de desastres, com a meta de construir um abastecimento mais resiliente até 2030.
A avaliação dos especialistas é que essas iniciativas podem reforçar a segurança da oferta em três anos ou mais, mas pouco têm impacto imediato sobre os preços atuais.
Enquanto isso, produtores alertam para o risco de repetir o ciclo.
Sem uma visão de longo prazo, há chance de que o país enfrente uma situação ainda mais complicada em dois anos, com rebanho insuficiente para atender a uma demanda que não cede.
A mensagem central da reportagem da CNBC é que a solução para a carne bovina nos EUA passa por reconstruir o rebanho, estabilizar regras comerciais e apoiar o produtor, e não apenas por intervenções de curto prazo no varejo ou por anúncios pontuais de importação.
Diante desse cenário de seca prolongada, rebanho apertado, tarifas oscilando e demanda forte, você acredita que a carne bovina nos EUA vai realmente começar a ficar mais barata depois de 2027 ou o consumidor ainda vai conviver com preços recordes por muito mais tempo?


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