Caminhões de mineração autônomos, gigantes do tamanho de uma casa que rodam sem ninguém na cabine, já moveram mais de 8,6 bilhões de toneladas de rocha e minério em minas pelo mundo, e a fabricante por trás deles garante que toda essa montanha foi transportada sem uma única lesão registrada.
O número vem do sistema de comando que pilota a maior frota de caminhões autônomos de mineração do planeta, operada por uma das gigantes americanas de máquinas pesadas. Hoje são centenas desses veículos trabalhando em dezenas de minas espalhadas por três continentes, todos guiados por software, radares e satélite, sem motorista dentro. E o que mais impressiona não é só a quantidade movida, mas o fato de ela ter sido alcançada sem acidente com vítima.
8,6 bilhões de toneladas, mais de mil pirâmides
É difícil sentir o tamanho desse número, então vale uma comparação. A Grande Pirâmide de Gizé pesa cerca de 5,9 milhões de toneladas. As 8,6 bilhões de toneladas já movidas por esses caminhões equivalem a transportar mais de 1.400 Grandes Pirâmides inteiras de um lugar para outro. E cada veículo é colossal: os maiores caminhões de mineração carregam quase 400 toneladas por viagem, com pneus mais altos que uma pessoa adulta.
Por dentro, os caminhões autônomos se viram com uma combinação de GPS de altíssima precisão, radares, sensores a laser e um controle central que conversa com cada veículo em tempo real. Eles enxergam obstáculos, desviam uns dos outros e param sozinhos se alguém ou algo cruza a frente, tudo sem volante girando. A tecnologia começou a ser testada ainda na década passada e foi escalando mina a mina, e já se prepara para chegar a modelos menores e a operações de porte médio. Na prática, uma mina inteira pode rodar no escuro, porque a máquina não precisa enxergar como a gente.
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A inteligência artificial que ninguém vê funcionar
A gente passa o dia falando da inteligência artificial que escreve texto e desenha imagem, mas é nesse tipo de aplicação industrial pesada que a automação já virou rotina silenciosa. Esses caminhões trabalham de madrugada, em tempestade de poeira, sem pausa para almoço e sem cansaço no fim do turno. Não é a primeira vez que a indústria pesada tira o humano do lugar mais perigoso: robôs já operam sondas de petróleo sem ninguém na plataforma, e a lógica é a mesma, máquina onde o risco é alto demais para gente.

Por que as minas trocaram o motorista pela máquina
A conta que convence as mineradoras é direta. Um caminhão autônomo não dorme, não faz hora de almoço, não troca de turno e não tira férias, então roda perto de 24 horas por dia, todos os dias. Estimativas do setor falam em ganhos de produtividade de 15% a 30% por veículo, somados a freadas e acelerações mais suaves que economizam combustível e pneu. Num equipamento que custa milhões de dólares e calça pneus de centenas de milhares de reais cada, esse desgaste menor vira uma montanha de dinheiro no fim do ano.
Não por acaso, as gigantes do setor entraram nessa corrida de cabeça. Na região de Pilbara, na Austrália, mineradoras gigantes operam algumas das maiores frotas autônomas do planeta para arrancar minério de ferro, e a tecnologia já se espalhou para minas de cobre no Chile e de carvão na América do Norte. Duas fabricantes, uma americana e uma japonesa, disputam ponto a ponto o controle dessas minas sem gente, e a queda de braço entre elas só acelera o ritmo das encomendas. Quem domina o caminhão sem motorista domina o custo da tonelada.
O que sobra para o motorista
Aí vem a parte que mexe com a gente. Dirigir um caminhão desses numa mina é um trabalho duro, perigoso e isolado, em lugares como a mina mais profunda do mundo, na África do Sul, onde o calor e o risco são constantes. Tirar o humano dali salva vidas, e o histórico de zero lesão da frota é a prova disso. Só que esse mesmo avanço apaga uma profissão inteira, e a conta social de quem perde o emprego raramente entra no comunicado de imprensa.
A indústria gosta de dizer que ninguém fica para trás, que o motorista vira operador remoto numa sala refrigerada, monitorando dezenas de caminhões por telas em vez de encarar a poeira. Em parte é verdade, surgem vagas de técnico, de analista de dados de frota, de quem supervisiona o sistema. O problema é a matemática. Uma central com poucos operadores controla o que antes exigia centenas de motoristas, então a conta não fecha um para um. Para cada vaga nova e qualificada que aparece, várias vagas antigas de volante desaparecem, muitas vezes em cidades que nasceram e vivem em torno da mina.
Confesso que é um sentimento dividido. Fico aliviado de imaginar menos gente arriscando a vida em rampa de mina a 50 graus, e ao mesmo tempo penso nos milhares de motoristas que esse software dispensa sem fazer barulho. A inteligência artificial que move montanhas chegou primeiro e mais fundo que a que faz poema, só que ninguém postou foto dela trabalhando.
Quando a máquina faz o trabalho perigoso melhor e sem se machucar, o que a gente faz com quem vivia daquele volante?

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