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Começou com 20 motoristas de Uber num grupo de WhatsApp e virou um ecossistema de 8 mil pessoas com descontos, rede de socorro nas ruas e uma sede cedida por político na orla de Salvador

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 15/06/2026 às 18:06
Atualizado em 15/06/2026 às 18:09
Assista o vídeoRatos da Pista nasceu com 20 motoristas de Uber em Salvador e chegou a 8 mil membros em 4 estados, com rede de socorro, descontos por volume e sede na orla cedida por político.
Ratos da Pista nasceu com 20 motoristas de Uber em Salvador e chegou a 8 mil membros em 4 estados, com rede de socorro, descontos por volume e sede na orla cedida por político.
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Os Ratos da Pista nasceram em maio de 2025 como um grupo de WhatsApp de motoristas de Uber em Salvador. Em menos de um ano, chegaram a quase 8 mil membros, espalharam-se por quatro estados, criaram uma rede de socorro nas ruas, fecharam parcerias comerciais com desconto por volume e ganharam uma sede à beira da orla baiana cedida por um político da cidade.

Em maio de 2025, um grupo de motoristas de Uber em Salvador tinha menos de 20 pessoas e funcionava como um espaço de resenha no WhatsApp. Hoje, os Ratos da Pista são quase 8 mil membros distribuídos em oito grupos de conversa e oito grupos de socorro, com presença confirmada na Bahia, Sergipe, Rio de Janeiro e São Paulo. O nome veio de um dos membros fundadores, Igor Barreto, que usou a palavra rato no sentido de quem circula por qualquer lugar sem preconceito. “No começo a gente ficou meio receoso, porque rato configura na mente de muita gente algo negativo”, admite um dos organizadores no vídeo do Jornal Correio. A ressignificação colou.

O que começou como espaço de resenha entre amigos que rodavam a cidade se transformou num ecossistema que os próprios motoristas de Uber definem com essa palavra: barbearia do rato, salão de beleza para as ratona, ótica com óculos por R$ 200 para os membros, lava-jato parceiro em Castelo Branco que foi o primeiro a fechar negócio com o grupo. A lógica é simples e poderosa: volume por desconto. Com quase 8 mil motoristas como audiência garantida, o coletivo consegue sentar com empresas e pedir condições que um motorista individualmente jamais obteria. A reportagem do Correio mostrou os bastidores dessa construção.

A origem: motoristas de Uber, WhatsApp e a busca por desconto

Ratos da Pista nasceu com 20 motoristas de Uber em Salvador e chegou a 8 mil membros em 4 estados, com rede de socorro, descontos por volume e sede na orla cedida por político.
O primeiro parceiro comercial dos Ratos da Pista foi um lava-jato em Castelo Branco, bairro de Salvador.

A proposta que os motoristas de Uber fizeram ao dono foi direta: se ele oferecesse desconto, eles levariam pelo menos 20 carros. Quando a mobilização aconteceu e os carros apareceram, o proprietário ficou “maravilhado com tantos carros”, segundo o relato do próprio grupo ao Correio. A partir daí, o modelo de barganha por volume virou a espinha dorsal do coletivo.

A escalada de membros foi rápida e não planejada. Os motoristas de Uber foram compartilhando o grupo, as utilidades foram se multiplicando, as parcerias foram chegando e o número de pessoas foi crescendo junto. Hoje, com quase 8 mil participantes, o ecossistema tem capacidade de lotar de carros qualquer estabelecimento que feche parceria com o coletivo. Nenhuma empresa de médio porte em Salvador ignora facilmente uma clientela potencial de 8 mil motoristas de Uber que rodam a cidade o dia todo. Isso é o que dá ao coletivo sua força de negociação.

Os grupos de socorro: assistência nas ruas de Salvador

Ratos da Pista nasceu com 20 motoristas de Uber em Salvador e chegou a 8 mil membros em 4 estados, com rede de socorro, descontos por volume e sede na orla cedida por político.
Além dos grupos de resenha e dos grupos focados em descontos comerciais, os Ratos da Pista mantêm oito grupos específicos de socorro.

A função é prática: quando um motorista de Uber tem um problema na rua, seja pane, acidente ou qualquer emergência, ele posta no grupo e outros membros que estejam na região se mobilizam para ajudar. Guincheiros parceiros do coletivo respondem a esses chamados com preço diferenciado para os membros.

A rede de socorro funciona porque os motoristas de Uber cobrem a cidade de forma contínua e capilar. São profissionais que ficam horas na rua, conhecem os bairros, sabem quem está próximo e conseguem responder rápido a um pedido de ajuda. Quem não tem parceiro de guincho no grupo, já tem um número de contato disponível poucas mensagens depois de postar a emergência. Esse tipo de assistência mútua informal é o que fideliza membros que entram pelo desconto e ficam pela rede de apoio.

A estrutura dos grupos e como funcionam os administradores

Com quase 8 mil motoristas de Uber em oito grupos de resenha e oito grupos de socorro, além dos grupos regionais de Feira de Santana e das Jatonas, a gestão dos Ratos da Pista exige uma estrutura de administradores. O papel não tem remuneração. Todos os ADMs são voluntários, escolhidos por votação entre os próprios administradores com base em quem demonstra mais proatividade e disposição para ajudar os outros membros.

A principal diferença prática entre ser ADM e ser membro comum é o acesso: administradores podem acessar todos os grupos ao mesmo tempo, o que é fundamental para coordenar situações de socorro que atravessam diferentes grupos. A lógica de seleção reflete a cultura do coletivo: “São os membros que se destacam e fazem pelos outros que são mais proativos”, explica um dos organizadores no vídeo do Correio. Já passaram várias pessoas pelo cargo de ADM. Quem para de contribuir ativamente pode ser removido da função pela mesma votação que o colocou lá.

O financiamento: adesivos, chaveiros e bonés de rato

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Vídeo do YouTube

Manter um coletivo de quase 8 mil motoristas de Uber organizados em dezenas de grupos de WhatsApp, com sede, parcerias e eventos, tem um custo operacional. A solução que os Ratos da Pista encontraram é a venda de produtos de identificação: adesivos, chaveiros e, em breve, bonés. O adesivo custa R$ 10 e serve tanto como fonte de receita quanto como símbolo de pertencimento ao grupo.

Carros cheios de adesivos do coletivo viraram cenas comuns nas ruas de Salvador. Cada motorista de Uber com o símbolo do rato na janela ou na mala do carro funciona como publicidade ambulante para o grupo. Novos membros entram porque viram o adesivo, perguntaram para o motorista e foram convidados. É um modelo de expansão orgânico que não custou nenhuma verba de marketing, apenas a identidade visual colada nos carros de quem já sente orgulho de fazer parte.

A sede: terreno na orla cedido por político por um ano

O passo mais ambicioso dos Ratos da Pista foi a conquista de um terreno à beira da orla de Salvador, próximo à Arena Multiuso e ao Centro de Convenções da cidade, cedido por um político local por um período de um ano. O projeto para o espaço é detalhado: restaurante ou lanchonete, duas baias de lavagem para carro, ponto de banho para os motoristas de Uber, barbearia, dois pontos de carregamento para carro elétrico e espaço de convivência.

Um dos organizadores reconhece abertamente no vídeo do Correio que o terreno pode ter sido cedido com intenções políticas. A posição do coletivo é pragmática: “Ser usado não é problema. O problema é ser usado sem ter feito nada.” A sede está sendo tratada como infraestrutura real para os motoristas de Uber, independente da motivação do doador. Quando e se as obras avançarem, será o primeiro espaço físico permanente do coletivo e o maior salto de uma rede online para uma presença física na cidade.

Quem são os ratões: aposentado, microempreendedor, trabalhador formal

O perfil dos membros dos Ratos da Pista revela a composição real da categoria de motoristas de Uber em Salvador. Um dos entrevistados pela reportagem do Correio é servidor público aposentado que foi para a pista para complementar a renda. Sai de casa às 4 horas da manhã, roda até umas 10, 11 horas da noite com intervalo para atividades paralelas, como a venda de perfumes importados que faz dentro do próprio carro. Outro tem emprego formal com horário até as 4 da tarde e usa o tempo livre na pista para ganhar uma renda extra.

O que une perfis tão diferentes é a necessidade de monetizar o tempo disponível e a percepção de que a pista, sozinha, não é suficiente. Os Ratos da Pista existem porque um motorista de Uber individualmente tem pouco poder de negociação com empresas, pouca rede de suporte quando tem uma pane e pouca visibilidade quando quer organizar algo coletivo. O coletivo entrega as três coisas: poder de compra coletivo, rede de socorro nas ruas e identidade compartilhada que transforma um grupo de estranhos que dirigem carros iguais em algo que parece uma comunidade real.

Quatro estados e a questão política que todos evitam

Com presença em Bahia, Sergipe, Rio de Janeiro e São Paulo, os Ratos da Pista cruzaram a fronteira do regional e entraram em território nacional. A expansão foi orgânica: motoristas de Uber de outros estados conheceram o coletivo, pediram para entrar e grupos específicos foram criados para acomodar a demanda. O modelo é replicável porque não depende de infraestrutura física, apenas de grupos de WhatsApp e da disposição de membros locais para organizar as parcerias comerciais na sua própria cidade.

A pergunta sobre pretensões políticas aparece duas vezes no vídeo do Correio. A resposta dos organizadores é consistente em negar qualquer intenção de candidatura ou atuação partidária. “A nossa intenção, nós administradores dos Ratos da Pista, não pretendemos de forma alguma sair como políticos”, diz um dos fundadores. A posição é declarada, mas o coletivo já demonstrou que mobiliza motoristas de Uber em escala suficiente para lotar estabelecimentos comerciais. Uma base de 8 mil motoristas de Uber organizados, com sede na orla e presença em quatro estados, é um ativo político mesmo para quem não quer ser político, e os organizadores parecem estar cientes disso.

Um coletivo de motoristas de Uber que negocia descontos por volume, mantém rede de socorro nas ruas e ganhou uma sede de político na orla de Salvador é um exemplo de organização popular que deveria existir em mais cidades, ou é um movimento que inevitavelmente vai se transformar em instrumento político? Você conhece algo parecido na sua cidade? Deixe sua opinião nos comentários.

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Bruno Teles

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