A decisão do presidente brasileiro de não comparecer à assinatura do acordo Mercosul-União Europeia em Assunção provocou reação dura do governo argentino, que acusou Lula de enfraquecer o bloco regional, ampliou o desgaste diplomático com Buenos Aires e expôs divisões políticas internas no Mercosul às vésperas de um pacto considerado histórico
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva será o único líder dos países do Mercosul a não participar da assinatura do acordo de livre comércio com a União Europeia, marcada para este sábado (17), em Assunção, no Paraguai, com a presença da Argentina de Milei.
O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, enquanto o governo brasileiro prioriza encontros políticos no Rio de Janeiro com lideranças europeias.
A cerimônia contará com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, além dos presidentes da Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai, país que exerce a presidência temporária do bloco e sedia o evento.
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Reunião no Rio é tratada como prioritária pela diplomacia brasileira
Na véspera da assinatura, Lula recebeu Ursula von der Leyen no Rio de Janeiro, encontro visto pela diplomacia brasileira como estrategicamente mais relevante do que a cerimônia em Assunção.
A avaliação interna é de que a reunião reforça o papel do Brasil como principal articulador político do acordo entre Mercosul e União Europeia.
Segundo fontes, líderes europeus buscaram uma agenda direta com Lula para atribuir protagonismo ao presidente brasileiro na fase final das negociações.
O objetivo seria consolidar a imagem do Brasil como fiador político do pacto, ainda que a presidência temporária do Mercosul esteja sob comando paraguaio.
Para o Itamaraty, o peso político da reunião no Brasil supera o simbolismo da assinatura formal no Paraguai. A avaliação é de que a assinatura deveria ocorrer em nível ministerial, justificando a presença do chanceler Mauro Vieira, e não do chefe de Estado brasileiro.
Tentativa de elevar cerimônia a cúpula presidencial gera divergência
Autoridades brasileiras afirmam que o governo paraguaio tentou elevar, de última hora, o nível do encontro em Assunção para uma reunião de chefes de Estado. A iniciativa não foi bem recebida pelo Itamaraty, que manteve a posição de tratar a assinatura como um ato de chanceleres.
Hoje, segundo fontes diplomáticas, Lula buscava uma “foto da vitória” ao lado das principais autoridades da União Europeia. A leitura é de que a construção simbólica desse encontro teria maior impacto político do que a presença protocolar na assinatura formal do acordo.
A estratégia brasileira também considera o contexto de relações bilaterais dentro do Mercosul, especialmente com a Argentina, cujo presidente participará do evento em Assunção.
Acordo é apresentado como conquista histórica por líderes
Durante o encontro no Rio de Janeiro, Lula classificou a demora na conclusão do acordo como resultado de “25 anos de sofrimento e tentativa de acordo”. O presidente afirmou que o pacto ultrapassa a dimensão econômica ao reunir dois blocos que compartilham valores ligados à democracia, ao Estado de Direito e aos direitos humanos.
Em sua fala, Ursula von der Leyen definiu o acordo como uma conquista de “uma geração inteira” e agradeceu a Lula por liderar as tratativas políticas que permitiram o avanço final das negociações. O reconhecimento público reforçou a estratégia brasileira de centralizar o protagonismo político do acordo em Brasília.
A leitura do governo é de que o encontro bilateral fortalece a narrativa de liderança do Brasil no processo, mesmo sem a presença física do presidente na assinatura.
Ausência evita divisão de palanque com Javier Milei
Outro fator considerado na decisão de Lula foi evitar dividir o palco com o presidente argentino Javier Milei, com quem mantém uma relação protocolar e distante. A ausência do líder brasileiro na cerimônia gerou desconforto na Casa Rosada, que interpretou o gesto como desdém ao bloco regional.
Um alto funcionário do governo argentino declarou ao MDZ que a decisão de Lula demonstraria desprezo pelo Mercosul e por seus membros. A crítica ocorre em um momento de tensão crescente entre os dois governos, marcada por divergências políticas e diplomáticas recentes.
A relação entre Lula e Milei é descrita como uma das mais frias desde o início do atual governo argentino, com trocas indiretas de críticas e posições opostas em temas regionais sensíveis.
Dimensão econômica do acordo e alcance global
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia pretende criar o maior mercado de livre comércio do mundo. O pacto abrange mais de 700 milhões de pessoas, representa cerca de 35% do comércio global e mais de 30% do PIB mundial, segundo os termos apresentados.
Entre os principais pontos estão a eliminação da maioria das tarifas comerciais entre os dois blocos e o acesso preferencial de produtos do Mercosul ao mercado europeu. O texto prevê cotas específicas para exportações de carne, milho e etanol, além de regras para serviços e compras governamentais.
O acordo também regula o acesso mútuo a mercados públicos e estabelece parâmetros comuns para setores estratégicos. Esses dispositivos são apontados como centrais para a integração econômica de longo prazo entre os blocos.
Contexto político aprofunda divisões internas no Mercosul
Inicialmente, a participação dos presidentes na assinatura não estava prevista. A decisão de comparecimento ocorreu após o presidente paraguaio Santiago Peña optar por participar, seguido por Yamandú Orsi e Javier Milei.
Fontes em Brasília informaram à AFP que os convites aos chefes de Estado foram enviados no último minuto, o que inviabilizou a presença de Lula. A justificativa oficial reforça que o evento foi concebido como ministerial desde sua origem.
Para além das explicações formais, a ausência brasileira reflete divisões políticas mais profundas dentro do Mercosul e da região sul-americana. Essas tensões se intensificaram após a intervenção de tropas americanas na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro.
Crise regional e impacto nas relações Brasil-Argentina
Enquanto Brasil, Uruguai, Colômbia e Chile condenaram a violação do direito internacional, setores da centro-direita regional liderados por Milei comemoraram a queda do regime venezuelano. O episódio agravou uma relação já tensa entre Brasília e Buenos Aires.
Postagens de grupos libertários associando Lula ao regime venezuelano e declarações públicas de Milei em apoio à família Bolsonaro ampliaram o desgaste diplomático. O governo brasileiro reagiu suspendendo funções administrativas que exercia na Embaixada da Argentina na Venezuela desde agosto de 2024.
A decisão foi comunicada ao Ministério das Relações Exteriores argentino, comandado por Pablo Quirno, e gerou nova controvérsia entre os dois países. O gesto foi interpretado como mais um sinal de afastamento político.
Visita de líderes europeus amplia desconforto argentino
O anúncio de que António Costa e Ursula von der Leyen seriam recebidos por Lula no Rio de Janeiro, às vésperas da cúpula em Assunção, não foi bem recebido pelo governo argentino. O comunicado oficial da União Europeia destacou o Brasil como parceiro fundamental em comércio, investimento, clima e democracia.
O texto ressaltou que a recente presidência brasileira do Mercosul foi crucial para o avanço das negociações, abrindo caminho para a assinatura do acordo no Paraguai. A declaração intensificou o descontentamento dentro do governo libertário argentino.
Para diplomatas brasileiros, a visita reforça a centralidade do Brasil no processo, mesmo diante das fricções regionais e da ausencia presidencial na cerimônia formal.
Assinatura ministerial e próximos passos até 2026
Na cerimônia de Assunção, o Brasil será representado por Mauro Vieira, que assinará o acordo ao lado de seus homólogos do Mercosul, incluindo Pablo Quirno, Rubén Ramírez Lezcano e Mario Lubetkin.
Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais dos países do Mercosul. Caso não haja contratempos significativos, a expectativa é de que o pacto passe a valer até o final de 2026.
O processo de ratificação será decisivo para transformar o acordo em realidade jurídica, encerrando um ciclo de negociações que se estende por mais de duas décadas e definindo os rumos comerciais entre dois dos maiores blocos econômicos do mundo.

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