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Esqueça o dólar: Brasil, China, Rússia e Índia aceleram testes de sistema do BRICS para desafiar o SWIFT, diminuir a influência dos EUA e ampliar transações em moedas nacionais, que já representam 67% do comércio do bloco

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 17/06/2026 às 18:45
Atualizado em 17/06/2026 às 18:51
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BRICS testa plataformas de pagamento para reduzir dependência do dólar e ampliar transações em moedas nacionais fora do SWIFT até 2028.
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Disputa por pagamentos internacionais ganha força no BRICS, com testes de plataformas próprias, pressão dos Estados Unidos e busca por mais transações em moedas nacionais entre países que tentam reduzir riscos ligados ao dólar e à infraestrutura financeira ocidental.

Os países do BRICS avançaram em testes bilaterais de novas plataformas de pagamento enquanto ampliam as discussões para reduzir a dependência do dólar em transações internacionais, em um movimento que ganhou força com a busca por alternativas à infraestrutura financeira ocidental.

A articulação envolve propostas como o BRICS Bridge, voltado a pagamentos entre países, e o BRICS Clear, pensado para liquidação e compensação de ativos financeiros, segundo declarações do vice-ministro das Finanças da Rússia, Ivan Chebeskov, ao jornal russo Izvestia.

Em meio a esse processo, o bloco tenta ampliar o uso de moedas nacionais no comércio entre seus integrantes, com a intenção de tornar operações internacionais menos caras, mais rápidas e menos expostas a bloqueios financeiros.

Em julho de 2025, a Agência Brasil informou que o comunicado final de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do BRICS reconheceu avanços na busca por interoperabilidade entre sistemas de pagamento dos países-membros.

Novos testes do BRICS miram pagamentos fora da estrutura ocidental

Durante a presidência russa do bloco, em 2024, a proposta do BRICS Bridge ganhou destaque porque Moscou passou a defender mecanismos de liquidação internacional menos dependentes da infraestrutura bancária dos Estados Unidos e de países europeus.

Com essa arquitetura, operações entre integrantes do BRICS poderiam ocorrer com menor exposição a sistemas dominados por instituições ocidentais, especialmente em transações consideradas sensíveis por envolverem países sujeitos a sanções ou restrições financeiras.

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Ao Izvestia, Chebeskov afirmou que as discussões sobre as iniciativas propostas pela Rússia continuam e que já existem resultados iniciais em projetos-piloto bilaterais, embora as plataformas definitivas ainda não tenham sido criadas.

Na avaliação apresentada pelo representante russo, esses testes indicam que parte dos integrantes do BRICS já aceita discutir caminhos práticos para uma infraestrutura financeira alternativa, mesmo quando evita tratar publicamente do tema por razões geopolíticas.

Além do BRICS Bridge, Moscou trabalha na ideia do BRICS Clear, estrutura voltada à circulação de títulos entre países do bloco e apresentada como uma possível alternativa a sistemas de custódia e compensação concentrados no Ocidente.

Desde as sanções impostas após a guerra na Ucrânia, a Rússia passou a enfrentar restrições em parte dessa infraestrutura financeira global, o que ajudou a transformar propostas antes nacionais em uma agenda mais ampla dentro do BRICS.

Moedas nacionais ganham espaço nas negociações do BRICS

O uso de moedas nacionais ocupa posição central na agenda financeira do BRICS, principalmente porque permite reduzir custos de conversão e diminuir a exposição das transações à infraestrutura vinculada ao dólar.

Segundo a Agência Brasil, o comunicado dos ministros de finanças do grupo destacou avanços para impulsionar operações em moedas locais e reduzir custos, mas não detalhou quais etapas já foram concluídas pelos países participantes.

Na prática, a proposta discutida pelo bloco não equivale à criação imediata de uma moeda única do BRICS, tema que aparece com frequência no debate público, mas ainda sem decisão concreta de lançamento.

Até agora, o foco oficial está em ampliar a compatibilidade entre sistemas de pagamento nacionais, diminuir custos de conversão e criar instrumentos capazes de reduzir riscos de bloqueio em operações internacionais.

Essa distinção é relevante porque o debate sobre o tema costuma misturar três frentes diferentes: pagamentos em moedas nacionais, criação de infraestrutura financeira própria e eventual moeda comum.

Nos documentos e comunicados recentes do grupo, a ênfase recai principalmente sobre os dois primeiros pontos, sem indicação de que haja uma decisão formal para substituir moedas nacionais por uma unidade comum.

Pressão dos EUA aumenta peso político da agenda financeira

A tentativa de reduzir a dependência do dólar ganhou dimensão política após novas ameaças de tarifas feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra países que buscassem alternativas à moeda norte-americana.

Em janeiro de 2025, Trump voltou a ameaçar países do BRICS com tarifa de 100% caso tentassem substituir o dólar como moeda de reserva, segundo a Reuters, o que elevou o peso diplomático da discussão.

Essa declaração reforçou a percepção de que o uso do dólar e da infraestrutura financeira ocidental pode se tornar instrumento de pressão geopolítica, especialmente em um cenário de disputas comerciais e sanções internacionais.

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Ao mesmo tempo, a própria Reuters registrou que o dólar segue como principal moeda de reserva do mundo, apesar do esforço de países do BRICS para ampliar o uso de outras moedas em operações internacionais.

Por causa desse equilíbrio delicado, os projetos do bloco avançam de forma cautelosa, já que muitos integrantes mantêm relações comerciais relevantes com Estados Unidos e União Europeia.

Qualquer adesão pública a sistemas financeiros alternativos pode ser interpretada como desafio direto à ordem atual, o que ajuda a explicar a preferência de alguns países por testes bilaterais e discussões técnicas menos expostas.

Implementação do BRICS Bridge ainda depende de acordo político

Mesmo com os testes em andamento, especialistas citados pelo Izvestia avaliam que os projetos ainda estão em fase conceitual e podem levar anos até alcançar uma implementação parcial.

A estimativa mencionada por Alisa Kazelko, especialista ligada ao Clube Valdai e à Associação Russa de Controle de Exportações, aponta 2027 ou 2028 como prazo mais realista para uma primeira etapa operacional.

Para que esse cronograma avance, será necessária vontade política dos principais participantes, além de compatibilidade regulatória e tecnológica entre sistemas financeiros nacionais que funcionam sob regras próprias.

O desafio não se limita à parte técnica, porque o BRICS não tem uma estrutura supranacional como a União Europeia, capaz de impor regras comuns e obrigar todos os integrantes a avançar no mesmo ritmo.

Cada país deverá definir sua própria velocidade de adesão, considerando interesses comerciais, riscos diplomáticos e o grau de integração de seus bancos com sistemas ocidentais já consolidados.

Nesse cenário, a Índia costuma agir com cautela em iniciativas que possam ampliar a influência financeira da China dentro do bloco, enquanto o Brasil apoia o debate sobre maior uso de moedas nacionais.

Ao mesmo tempo, o sistema financeiro brasileiro permanece fortemente conectado a redes internacionais consolidadas, fator que tende a influenciar o ritmo de qualquer adesão a mecanismos alternativos de pagamento.

Infraestrutura financeira entra no centro da estratégia

A discussão sobre pagamentos também se conecta à agenda de investimentos do BRICS, que busca ampliar mecanismos financeiros capazes de atender países em desenvolvimento e reduzir custos em operações internacionais.

Segundo a Agência Brasil, o bloco reúne 11 membros permanentes: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.

Esses países representam 39% da economia mundial, 48,5% da população global e 23% do comércio internacional, números que explicam o interesse em criar instrumentos financeiros compatíveis com a dimensão econômica do grupo.

Sob a presidência brasileira, em 2025, o bloco também discutiu mecanismos para facilitar investimentos e reduzir custos em países em desenvolvimento, além de revisar estruturas financeiras criadas em anos anteriores.

Entre esses mecanismos está o Arranjo Contingente de Reservas, criado em 2014 e mencionado no comunicado de ministros de finanças e bancos centrais como parte do esforço de adaptação institucional do BRICS.

A criação de canais próprios de pagamento, portanto, integra uma agenda mais ampla de autonomia financeira, expansão do uso de moedas locais e fortalecimento de mecanismos internos para investimentos, liquidação de ativos e cooperação entre bancos centrais.

Ainda há, porém, uma distância significativa entre testes-piloto e operação plena, porque BRICS Bridge e BRICS Clear terão de superar diferenças internas, pressão externa, exigências regulatórias e riscos de sanções.

Até que essas barreiras sejam superadas, o cenário mais provável é a formação gradual de uma rede paralela de pagamentos, sem substituição imediata do dólar nas transações globais.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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