1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Açude Orós: barragem de 670 metros, capacidade de 2 bilhões de m³ e uma trajetória iniciada no Império que levou mais de 80 anos até a conclusão e voltou a sangrar em 2025 após 14 anos
Tempo de leitura 7 min de leitura Comentários 0 comentários

Açude Orós: barragem de 670 metros, capacidade de 2 bilhões de m³ e uma trajetória iniciada no Império que levou mais de 80 anos até a conclusão e voltou a sangrar em 2025 após 14 anos

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 15/01/2026 às 12:05
Açude Orós volta a sangrar em 2025 após 14 anos, retomando papel central na segurança hídrica e no abastecimento do Ceará.
Açude Orós volta a sangrar em 2025 após 14 anos, retomando papel central na segurança hídrica e no abastecimento do Ceará.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Após mais de oito décadas entre estudos, interrupções, colapsos e retomadas, o Açude Orós consolidou-se como infraestrutura central da segurança hídrica do Ceará, com barragem de 670 metros, capacidade de 2 bilhões de metros cúbicos e papel decisivo na perenização do Rio Jaguaribe, irrigação agrícola e abastecimento regional, culminando na sangria registrada em abril de 2025 após 14 anos

O Açude Orós, segundo maior reservatório hídrico do Ceará, voltou a sangrar em 26 de abril de 2025, após 14 anos, encerrando um ciclo histórico iniciado no Império, marcado por estudos, interrupções e obras que resultaram em uma barragem de 670 metros, 54 metros de altura e capacidade de 2.000.000.000 m³.

A retomada da sangria, registrada após chuvas que elevaram o volume ao nível máximo, recoloca o reservatório no centro da segurança hídrica estadual, reforçando funções estruturais como perenização do Rio Jaguaribe, irrigação, abastecimento humano e atividades produtivas.

A história do Açude Orós começa no período imperial, quando as secas do Nordeste já figuravam como preocupação recorrente dos governantes, diante dos impactos sociais, econômicos e demográficos provocados pela escassez prolongada de chuvas.

Em 1878, o imperador Dom Pedro II reuniu uma comissão de estudiosos para discutir as consequências da seca no Ceará, em um contexto de calamidade que afetava populações inteiras e comprometia a permanência no território.

Entre os integrantes, o Barão de Capanema defendeu soluções estruturais, como a construção de barragens em boqueirões estratégicos, perfuração de poços e arborização do interior do estado, com foco na criação de abastecimentos permanentes de água.

Nesse conjunto de propostas, a barragem de Orós passou a ser citada entre os projetos de canalização das águas, ainda de forma incipiente, mas já inserida em uma visão técnica voltada à convivência com o semiárido.

Da omissão inicial ao agravamento das secas no início do século XX

Apesar das discussões no Império, entre aquele período e 1909 não houve registros de avanços concretos sobre a barragem de Orós, já que as prioridades governamentais se voltaram para obras em outras regiões.

A ênfase recaiu sobre a abertura de estradas, com o objetivo de facilitar a circulação de pessoas e materiais empregados em diferentes frentes de construção pelo Nordeste, deixando projetos hídricos em segundo plano.

Com isso, as secas se sucederam de forma ininterrupta, provocando um êxodo rural crescente e considerado assustador, à medida que populações abandonavam o campo em busca de sobrevivência.

O homem, fugindo da seca, da peste e da fome que atingiam plantas, rebanhos e comunidades inteiras, contribuiu para um processo de despovoamento progressivo do Ceará, ampliando a crise social.

Diante da iminência de um despovoamento total, o Governo voltou a planejar ações voltadas ao enfrentamento das consequências das secas, reorientando políticas públicas para obras emergenciais.

Criação da IFOCS e os primeiros estudos técnicos em Orós

Nesse contexto, foi criada a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, a IFOCS, antiga denominação do atual Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, com a missão de programar obras de emergência.

O engenheiro Miguel Arrojado Lisboa organizou observações geológicas em diferentes bacias hidrográficas, e, a partir de 1911, a região do Boqueirão do Orós passou a ser estudada de forma mais detalhada.

O primeiro levantamento topográfico foi conduzido pelo engenheiro José Gomes Parente, auxiliado por Louis Philipps, resultando em desenhos da região enviados à IFOCS, em Fortaleza.

Esses levantamentos permitiram que a direção do órgão conhecesse a realidade do local onde se pretendia erguer a barragem, fornecendo dados inéditos sobre a viabilidade da obra.

Nas sondagens preliminares, os técnicos descobriram um poço com profundidade superior a quarenta metros no centro do boqueirão, exatamente onde a barragem deveria ser construída.

O relatório completo com esses dados foi destruído em um incêndio ocorrido em dezembro de 1912, restando apenas um esboço do Boqueirão do Orós e uma redução topográfica da bacia hidráulica do rio Jaguaribe.

Somente em 1919, o então presidente Epitácio Pessoa sancionou a Lei nº 3925, que fixava planos para a construção de grandes barragens no Nordeste.

Com a nova legislação, o projeto do Orós voltou a ser objeto de estudos, agora inserido em um plano mais amplo de infraestrutura hídrica regional.

Em 1921, a firma norte-americana Dwight Robinson & C° Incorporated chegou à região do Sítio Orós, realizando levantamentos topográficos detalhados e traçando os primeiros projetos completos da barragem.

Esses projetos incluíam a instalação de casas, estradas de rodagem, eletrificação e outras obras consideradas urgentes, representando o primeiro conjunto preciso de documentos técnicos do açude.

Em 1924, chuvas intensas atingiram a região, ocasionando a paralisação da obra, interrompendo novamente o avanço do empreendimento.

No ano seguinte, em 1925, uma lei decretada pelo Governo suspendeu todas as obras públicas, fazendo com que Orós, mais uma vez, fosse deixado de lado e praticamente esquecido.

Novos projetos, limites técnicos e estudos definitivos

Em 1930, por portaria do engenheiro Palhano de Jesus, novos estudos e projetos foram realizados sob a direção do engenheiro Luís Augusto Vieira.

De sua autoria constaram dois projetos para a barragem do Orós, mas relatórios indicaram que ambos não se adaptavam à realidade local nem ofereciam garantias frente à impetuosidade do rio Jaguaribe.

A ausência de soluções técnicas adequadas prolongou o atraso da obra, mantendo o projeto em estado de espera por mais de duas décadas.

Somente em 1957 o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas concluiu os estudos definitivos para a construção do açude, consolidando parâmetros técnicos viáveis.

A execução da obra foi entregue à equipe liderada pelo engenheiro Anastácio Honório Maia, marcando o início da fase final de implantação.

Construção, colapso parcial e conclusão em 1961

As escavações da fundação da parede da barragem tiveram início em 1958, avançando conforme o cronograma estabelecido pelos estudos definitivos.

Em 1960, chuvas intensas se anteciparam e atingiram a construção, gerando dias de pânico em todo o Ceará, diante do risco iminente associado ao volume do rio Jaguaribe.

No dia 26 de março daquele ano, um alarme anunciou que as águas do Jaguaribe transbordavam sobre a parede ainda inacabada, levando consigo as esperanças da população.

Apesar do impacto, a obra não foi abandonada. Em 15 de julho de 1960, a construção foi retomada com a mobilização de 1.600 homens.

Em apenas 80 dias úteis, a equipe conseguiu recuperar a posição da barragem anterior ao transbordamento, restabelecendo as condições para a conclusão do empreendimento, mesmo após o episóido crítico.

Em 5 de janeiro de 1961, a construção do Açude Orós foi oficialmente concluída, com uma barragem de 670 metros de comprimento, 54 metros de altura e capacidade para armazenar 2.000.000.000 m³ de água.

Inauguração presidencial e funções estratégicas do reservatório

O então presidente Juscelino Kubitschek inaugurou o Açude Orós ao se despedir do Ceará como chefe do Executivo federal.

Em discurso, destacou que o vasto mar formado não se destinava apenas a refletir a luz das estrelas, mas a regularizar o regime do maior rio seco do mundo.

Localizado a 450 km de Fortaleza, o Açude Orós passou a desempenhar funções estratégicas, como a perenização do Rio Jaguaribe e a irrigação do Médio e Baixo Jaguaribe.

O reservatório também foi destinado à piscicultura, às culturas agrícolas de áreas de montante, ao turismo e ao aproveitamento hidrelétrico, ampliando seu papel econômico.

Até 2002, o Orós ocupou o posto de maior reservatório do Ceará, posição perdida com a construção do Castanhão, mas sem reduzir sua relevância estrutural.

Sangria histórica em 2025 e impactos atuais

Em 2022, o reservatório mais que dobrou de volume e atingiu um patamar não registrado desde 2014, ultrapassando 49% de volume hídrico acumulado, segundo dados do Diário do Nordeste e da Cogerh.

Em 26 de abril de 2025, após 14 anos, o Açude Orós voltou a sangrar, atingindo seu nível máximo, com a última ocorrência registrada em 27 de abril de 2011.

O secretário dos Recursos Hídricos, Fernando Santana, visitou o açude em 27 de abril e destacou o momento como histórico para o Estado, a agricultura e a segurança hídrica.

Segundo o diretor de Operações da Cogerh, Tércio Tavares, o Orós representa a segurança hídrica de mais de 70 mil cearenses, além de atender produtores e piscicultores do Médio e Baixo Jaguaribe.

A sangria reforça o papel do açude como estrutura central no abastecimento humano e no fortalecimento da economia regional, consolidando uma trajetória iniciada ainda no Império e marcada por décadas de desafios, atrasos e realizações.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x