João José de Carvalho, o seu Janjão, aos 75, ex-aluno da EJA estadual em Patos do Piauí, comemora a segunda aprovação em Ciências Biológicas na UFPI, após interromper o sonho por distância e limitações físicas. O caso destaca a escola pública e as 311 aprovações do EJA no Sisu 2026.
Aos 75 anos, o ex-aluno da EJA João José de Carvalho, conhecido como seu Janjão, celebrou a segunda aprovação no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Piauí (UFPI), após ter precisado interromper a primeira tentativa. A notícia, registrada na UFPI em 02/03/2026, expõe um detalhe que costuma ficar fora do radar: quando a oportunidade finalmente chega, permanecer nela pode ser tão desafiador quanto conquistar a vaga.
Morador de outro município e egresso da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na rede estadual, ele relata que a distância e limitações físicas pesaram na primeira aprovação. Agora, a volta reacende um objetivo pessoal e familiar: ser exemplo para cinco netos, mostrar que aprender não tem data de validade e reforçar, na prática, o valor da escola pública num cenário em que o Piauí somou 311 aprovações de estudantes do EJA no Sisu 2026.
Um nome, uma história e o caminho pela Educação de Jovens e Adultos

João José de Carvalho chega à universidade carregando uma trajetória que não cabe num rótulo simples. Ele é chamado de seu Janjão por quem o conhece em Patos do Piauí, onde estudou na modalidade Educação de Jovens e Adultos da rede estadual, no Centro Estadual de Tempo Integral (Ceti) Reunida de Patos.
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O ponto central não é a idade, e sim a persistência em construir um percurso quando o tempo “ideal” já passou no calendário de muita gente.
A EJA existe justamente para acolher quem interrompeu os estudos por motivos diversos e decide recomeçar. Isso inclui jovens, adultos e idosos, cada um com realidades específicas: trabalho, família, deslocamentos, saúde e limitações de rotina que tornam o estudo um encaixe cuidadoso, não um caminho automático.
Nesse cenário, o destaque do ex-aluno da EJA não vem de uma “história bonita”, mas de um fato concreto: ele voltou a disputar uma vaga, foi aprovado e decidiu encarar novamente o desafio de permanecer no curso.
A primeira aprovação, o afastamento e o peso da permanência
A primeira aprovação em Biologia foi o início de um sonho antigo, mas que precisou ser interrompido. Seu Janjão relata dois obstáculos objetivos: a distância, já que mora em outro município, e limitações físicas que o afastaram da universidade.
Há uma diferença enorme entre “entrar” e “conseguir continuar”, e essa diferença costuma ser invisível quando a conversa fica restrita ao momento da lista de aprovados.
Quando ele fala em distância, não se trata apenas de quilômetros. Distância também é custo, tempo, desgaste, dependência de transporte e a necessidade de conciliar deslocamento com tarefas cotidianas.
Já as limitações físicas, citadas por ele sem detalhamento, lembram que o corpo impõe ritmo, pausas e adaptações e que a universidade, para funcionar de verdade como oportunidade, precisa ser um espaço possível de habitar, não só de alcançar.
A segunda aprovação, por isso, tem um peso simbólico e prático. Ele descreve o retorno com emoção e motivação renovada, como quem reconhece a chance e sabe que ela exige energia, planejamento e apoio. Não é uma repetição; é uma retomada com consciência de tudo o que antes atrapalhou.
O que as 311 aprovações no Sisu revelam sobre a escola pública no Piauí
A história individual ganha contexto quando aparece ao lado de um dado maior: em 2026, estudantes do EJA da rede estadual do Piauí somaram 311 aprovações no Sistema de Seleção Unificada (Sisu).
A soma vem de 186 aprovados na primeira chamada e 125 aprovados na segunda chamada. Esse número não é apenas estatística: ele aponta que existe demanda, esforço e resultados concretos quando há portas abertas para recomeçar.
O Sisu, por ser um sistema de seleção para vagas em instituições públicas, amplia visibilidade e acesso, mas também escancara um desafio: quem consegue competir por uma vaga ainda enfrenta, depois, o cotidiano do ensino superior.
Ou seja, o que acontece após a aprovação importa tanto quanto a aprovação em si principalmente para quem vem da EJA, onde a trajetória costuma ser marcada por interrupções, retornos e reconstruções de rotina.
Nesse sentido, o ex-aluno da EJA de 75 anos vira um retrato humano de um fenômeno mais amplo. Ele não “representa” todos, mas ajuda a enxergar melhor o que os 311 aprovados sugerem: há pessoas em diferentes fases da vida buscando universidade, e a escola pública pode funcionar como ponte real para isso quando consegue oferecer condições de acesso, permanência e aprendizagem.
Distância, acessibilidade e rotina: por que estudar pode ser mais difícil do que parece
Quando um estudante diz que a distância atrapalhou, é comum imaginar apenas o deslocamento, mas as camadas são muitas.
Tempo de viagem influencia sono, alimentação, disposição para aulas e estudos. Custos pressionam orçamento, e a logística interfere em compromissos familiares e responsabilidades domésticas. A permanência, na prática, depende de uma engenharia diária de escolhas, energia e suporte.
Com limitações físicas, essa equação fica ainda mais delicada. Em termos gerais, o ensino superior exige leitura, atividades, avaliações e presença em diferentes espaços, além de lidar com prazos e demandas que não se adaptam sozinhas à realidade do estudante.
A ideia de “superar” não deve virar romantização: o ponto é reconhecer que existem barreiras e que elas podem ser reduzidas quando há organização, acolhimento institucional e redes de apoio seja na família, na comunidade escolar ou na própria universidade.
A trajetória do seu Janjão chama atenção porque ele não esconde a dificuldade, mas também não reduz sua identidade a ela. Ele fala em segunda chance, em emoção ao retornar e em motivação maior. É a combinação rara de franqueza sobre os limites e firmeza sobre o objetivo.
De avô a universitário: o exemplo para netos e a ideia de cidadania pelo estudo
Seu Janjão é avô de cinco netos e faz questão de associar o diploma a algo maior do que realização pessoal. Ele deseja ser referência dentro de casa e mostrar, na prática, que estudar pode ser um projeto de vida em qualquer idade.
Em vez de transformar a universidade num troféu, ele a descreve como parte de um caminho de conhecimento que acompanha a pessoa para sempre. Quando um avô volta a estudar, a mensagem que circula na família é poderosa: aprender não é só para “quem tem tempo”, é para quem decide.
Essa visão também reforça o papel social da escola pública, especialmente quando conectada à Educação de Jovens e Adultos. Não se trata apenas de recuperar conteúdos ou “regularizar” estudos interrompidos, mas de reconstruir autonomia, repertório, autoestima e participação social.
A fala do secretário da Educação, Rodrigo Torres, segue essa linha ao apontar a escola pública como espaço de recomeços e oportunidades em qualquer idade, além de destacar a EJA e o programa Alfabetiza Piauí como políticas de acesso, permanência e aprendizagem.
Ao olhar para esse conjunto a história de um ex-aluno da EJA, o dado de 311 aprovações no Sisu e o reconhecimento institucional do papel dessas políticas fica evidente que o debate não é só sobre vaga. É sobre trajetória. A aprovação é um marco; a formação é um processo.
O que essa história ensina sobre recomeços sem romantização
Existe um risco comum quando histórias como essa viralizam: transformar a pessoa em “exceção” e usar isso como prova de que tudo depende apenas de força de vontade. A própria experiência do seu Janjão mostra o contrário.
Ele tentou, entrou, precisou parar por razões concretas e agora retorna. Isso evidencia que determinação importa, mas condições importam também e que recomeçar pode significar ajustar rotas, não insistir no mesmo caminho como se nada tivesse acontecido.
Por isso, o impacto do caso não está em pintar uma realidade perfeita, e sim em iluminar um ponto essencial: há estudantes que precisam de tempo, estrutura e compreensão para permanecer.
Quando a escola pública e a EJA conseguem sustentar o retorno aos estudos, elas não “fazem milagre”; elas cumprem uma função social que, para muita gente, é a diferença entre ficar para trás e seguir adiante.
E, no nível mais humano, fica a pergunta que ele mesmo parece responder com atitudes: o que é “tarde demais” quando o objetivo é aprender, ampliar horizontes e deixar um legado dentro de casa? Para ele, tarde demais não é uma data; é desistir.
A segunda aprovação do ex-aluno da EJA João José de Carvalho em Biologia na UFPI, aos 75 anos, não se resume a um feito individual: ela expõe os desafios reais da permanência, a força de um recomeço possível e o peso da escola pública num estado que registrou 311 aprovações de estudantes do EJA no Sisu 2026.
Mais do que um resultado, é um lembrete de que a educação pode atravessar gerações e não apenas estatísticas.
E você: já viu alguém na sua família ou na sua comunidade voltar a estudar depois de muitos anos? O que ajudou e o que mais atrapalhou nessa caminhada?
Conte nos comentários, porque essas histórias mostram onde a educação funciona e onde ainda precisa melhorar.

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