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Angra 3 vira o dilema de R$ 24 bilhões do Brasil: terminar a usina 66% pronta custa quase o mesmo que abandoná-la, bem na corrida por energia para a era da IA

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 07/07/2026 às 15:37
Angra 3 vira o dilema de R$ 24 bilhões do Brasil: terminar a usina 66% pronta custa quase o mesmo que abandoná-la, bem n
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Poucas contas no Brasil são tão desconfortáveis quanto a de Angra 3. A usina nuclear está 66% pronta, mas terminá-la custa cerca de R$ 24 bilhões, praticamente o mesmo que seria gasto para abandoná-la de vez. E a decisão precisa sair bem no momento em que o mundo redescobre a energia nuclear por causa da inteligência artificial.

A obra começou em 1984. De lá para cá, foi interrompida em 1986, retomada em 2010 e paralisada de novo em 2015, virando o símbolo mais caro da indecisão energética brasileira. Enquanto o país empurra a definição com a barriga, a usina parada consome cerca de R$ 1 bilhão por ano, sendo aproximadamente R$ 800 milhões só de serviço da dívida, mais a conservação dos equipamentos e os salários. É dinheiro queimado para manter de pé algo que ainda não gerou um único watt.

A matemática que não deixa saída fácil

O que torna Angra 3 um pesadelo de gestão é a simetria dos números. Concluir a usina exige por volta de R$ 24 bilhões em investimento adicional. Abandonar não sai barato: entre rescisões de contrato, quitação de empréstimos, multas e desmobilização do canteiro, a conta fica na faixa de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões. Ou seja, o Brasil já está numa posição em que gastar mais parece tão inevitável quanto perder o que já foi gasto, cerca de R$ 12 bilhões afundados até aqui.

“Não é simples parar, porque tem custos em não continuar”, reconheceu a ministra Esther Dweck, resumindo o beco em que o governo se meteu. O Tribunal de Contas da União calcula que só a demora dos últimos anos já desperdiçou cerca de R$ 2 bilhões. Terminada, a usina teria potência de 1.405 megawatts e geraria mais de 12 milhões de MWh por ano, energia firme suficiente para abastecer milhões de residências sem depender de chuva ou vento.

Obras da usina nuclear Angra 3, com guindaste no canteiro
Com 66% de avanço físico, Angra 3 tem potência prevista de 1.405 megawatts.

Como a decisão está sendo estruturada

Para sair do impasse, a Eletronuclear entregou ao BNDES a modelagem técnica, financeira e jurídica do projeto. O banco contratou o consórcio Angra Eurobras NES para desenhar cronograma, orçamento e o formato de contratação das construtoras, com a obra estruturada no modelo de engenharia, compra e construção. Em paralelo, a estatal já abriu a consulta pública do edital das obras civis e lançou uma licitação de cerca de R$ 1,93 bilhão para a montagem eletromecânica.

Enquanto a conta não fecha, a Eletronuclear pediu um novo waiver, a suspensão do pagamento da dívida com BNDES e Caixa até dezembro de 2026, para segurar o caixa. A decisão final, que cabe ao Conselho Nacional de Política Energética, acabou adiada para depois do período eleitoral. Confesso que adiar uma escolha que sangra R$ 1 bilhão por ano soa como o pior dos dois mundos. Se a usina fosse concluída no cronograma atual, entraria em operação por volta de 2030 ou 2031, quase meio século depois de a primeira pedra ser assentada.

Domo de contenção do reator de Angra 3
A demanda de energia dos data centers de IA recolocou a nuclear no centro do debate.

Por que a IA mudou a conversa sobre nuclear

Aqui entra o fator novo. A explosão dos data centers de inteligência artificial disparou a demanda mundial por energia limpa, estável e disponível 24 horas, exatamente o perfil da geração nuclear. “Uma pesquisa feita com inteligência artificial consome dez vezes mais energia do que uma pesquisa em buscador”, ilustrou o presidente da Eletronuclear. No Brasil, os projetos de data centers em análise no Ministério de Minas e Energia saltaram de 19,8 para 26,2 gigawatts em poucos meses, e o consumo global desses centros deve mais que dobrar até o fim da década.

Não é um fenômeno passageiro. A Empresa de Pesquisa Energética projeta elevar a capacidade nuclear brasileira dos atuais 2 gigawatts para 8 a 10 gigawatts até 2050, o que exigiria de seis a oito novas usinas. Nesse cenário, Angra 3 seria apenas o começo. Nos Estados Unidos, gigantes como Amazon, Google e Microsoft já assinam contratos para alimentar seus servidores com pequenos reatores modulares, a nova fronteira da tecnologia nuclear.

O contraste com o resto do mundo é o que dói. No mesmo período em que Angra 3 passou quatro décadas parada, a China colocou cerca de 20 reatores em operação e mantém mais de 20 em construção simultânea. A energia de base voltou a ser ativo estratégico, e o Brasil está sentado sobre uma usina quase pronta sem saber se a liga ou a desliga.

Há ainda um risco menos visível na conta. A Eletronuclear alertou que, se a indecisão persistir, a estatal pode caminhar para um aperto financeiro grave, com o serviço da dívida corroendo o caixa ano após ano. Boa parte dos equipamentos pesados da usina já foi comprada e está estocada, envelhecendo enquanto a obra não anda. Cada ano parado não só queima dinheiro como deprecia o que já foi pago, tornando a fatura final ainda mais salgada e a decisão, mais urgente do que o calendário eleitoral sugere. Técnicos que acompanham o caso comparam o impasse a uma bomba-relógio orçamentária, que fica mais cara a cada mês de adiamento e transfere o custo da inércia para o consumidor de energia.

No fim, Angra 3 deixou de ser só uma obra de engenharia para virar um teste de decisão. A gente pode discutir se valeu a pena começar em 1984, e não valeu, do jeito que foi tocada. Mas o país que hesita agora é o mesmo que pode precisar desesperadamente dessa energia firme na próxima década, quando cada gigawatt limpo virar disputa entre indústria, cidades e servidores de IA.

Terminar Angra 3 é jogar dinheiro fora ou garantir energia firme para a era da IA?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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