Poucas contas no Brasil são tão desconfortáveis quanto a de Angra 3. A usina nuclear está 66% pronta, mas terminá-la custa cerca de R$ 24 bilhões, praticamente o mesmo que seria gasto para abandoná-la de vez. E a decisão precisa sair bem no momento em que o mundo redescobre a energia nuclear por causa da inteligência artificial.
A obra começou em 1984. De lá para cá, foi interrompida em 1986, retomada em 2010 e paralisada de novo em 2015, virando o símbolo mais caro da indecisão energética brasileira. Enquanto o país empurra a definição com a barriga, a usina parada consome cerca de R$ 1 bilhão por ano, sendo aproximadamente R$ 800 milhões só de serviço da dívida, mais a conservação dos equipamentos e os salários. É dinheiro queimado para manter de pé algo que ainda não gerou um único watt.
A matemática que não deixa saída fácil
O que torna Angra 3 um pesadelo de gestão é a simetria dos números. Concluir a usina exige por volta de R$ 24 bilhões em investimento adicional. Abandonar não sai barato: entre rescisões de contrato, quitação de empréstimos, multas e desmobilização do canteiro, a conta fica na faixa de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões. Ou seja, o Brasil já está numa posição em que gastar mais parece tão inevitável quanto perder o que já foi gasto, cerca de R$ 12 bilhões afundados até aqui.
“Não é simples parar, porque tem custos em não continuar”, reconheceu a ministra Esther Dweck, resumindo o beco em que o governo se meteu. O Tribunal de Contas da União calcula que só a demora dos últimos anos já desperdiçou cerca de R$ 2 bilhões. Terminada, a usina teria potência de 1.405 megawatts e geraria mais de 12 milhões de MWh por ano, energia firme suficiente para abastecer milhões de residências sem depender de chuva ou vento.
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Como a decisão está sendo estruturada
Para sair do impasse, a Eletronuclear entregou ao BNDES a modelagem técnica, financeira e jurídica do projeto. O banco contratou o consórcio Angra Eurobras NES para desenhar cronograma, orçamento e o formato de contratação das construtoras, com a obra estruturada no modelo de engenharia, compra e construção. Em paralelo, a estatal já abriu a consulta pública do edital das obras civis e lançou uma licitação de cerca de R$ 1,93 bilhão para a montagem eletromecânica.
Enquanto a conta não fecha, a Eletronuclear pediu um novo waiver, a suspensão do pagamento da dívida com BNDES e Caixa até dezembro de 2026, para segurar o caixa. A decisão final, que cabe ao Conselho Nacional de Política Energética, acabou adiada para depois do período eleitoral. Confesso que adiar uma escolha que sangra R$ 1 bilhão por ano soa como o pior dos dois mundos. Se a usina fosse concluída no cronograma atual, entraria em operação por volta de 2030 ou 2031, quase meio século depois de a primeira pedra ser assentada.

Por que a IA mudou a conversa sobre nuclear
Aqui entra o fator novo. A explosão dos data centers de inteligência artificial disparou a demanda mundial por energia limpa, estável e disponível 24 horas, exatamente o perfil da geração nuclear. “Uma pesquisa feita com inteligência artificial consome dez vezes mais energia do que uma pesquisa em buscador”, ilustrou o presidente da Eletronuclear. No Brasil, os projetos de data centers em análise no Ministério de Minas e Energia saltaram de 19,8 para 26,2 gigawatts em poucos meses, e o consumo global desses centros deve mais que dobrar até o fim da década.
Não é um fenômeno passageiro. A Empresa de Pesquisa Energética projeta elevar a capacidade nuclear brasileira dos atuais 2 gigawatts para 8 a 10 gigawatts até 2050, o que exigiria de seis a oito novas usinas. Nesse cenário, Angra 3 seria apenas o começo. Nos Estados Unidos, gigantes como Amazon, Google e Microsoft já assinam contratos para alimentar seus servidores com pequenos reatores modulares, a nova fronteira da tecnologia nuclear.
O contraste com o resto do mundo é o que dói. No mesmo período em que Angra 3 passou quatro décadas parada, a China colocou cerca de 20 reatores em operação e mantém mais de 20 em construção simultânea. A energia de base voltou a ser ativo estratégico, e o Brasil está sentado sobre uma usina quase pronta sem saber se a liga ou a desliga.
Há ainda um risco menos visível na conta. A Eletronuclear alertou que, se a indecisão persistir, a estatal pode caminhar para um aperto financeiro grave, com o serviço da dívida corroendo o caixa ano após ano. Boa parte dos equipamentos pesados da usina já foi comprada e está estocada, envelhecendo enquanto a obra não anda. Cada ano parado não só queima dinheiro como deprecia o que já foi pago, tornando a fatura final ainda mais salgada e a decisão, mais urgente do que o calendário eleitoral sugere. Técnicos que acompanham o caso comparam o impasse a uma bomba-relógio orçamentária, que fica mais cara a cada mês de adiamento e transfere o custo da inércia para o consumidor de energia.
No fim, Angra 3 deixou de ser só uma obra de engenharia para virar um teste de decisão. A gente pode discutir se valeu a pena começar em 1984, e não valeu, do jeito que foi tocada. Mas o país que hesita agora é o mesmo que pode precisar desesperadamente dessa energia firme na próxima década, quando cada gigawatt limpo virar disputa entre indústria, cidades e servidores de IA.
Terminar Angra 3 é jogar dinheiro fora ou garantir energia firme para a era da IA?
