A americana Holtec International e a francesa EDF submeteram ao governo do Reino Unido proposta conjunta para a construção de até quatro reatores nucleares de pequeno porte SMR-300 no site da antiga usina termelétrica de Cottam, em Nottinghamshire, norte da Inglaterra, em projeto que totaliza capacidade combinada de 1,3 gigawatts elétricos e integra o programa britânico de expansão nuclear.
O SMR-300 e as especificações técnicas do projeto

O SMR-300 é o reator modular de pequeno porte desenvolvido pela Holtec International, com capacidade nominal de aproximadamente 300 megawatts elétricos por unidade. O design utiliza tecnologia de reator de água pressurizada com módulo compacto, projetado para fabricação em fábrica e montagem no local, com o objetivo de reduzir custos e prazos de construção em comparação com usinas nucleares convencionais.
Quatro reatores no site de Cottam totalizariam 1,3 GW de capacidade instalada — equivalente à demanda elétrica de aproximadamente 1 milhão de residências britânicas. O site de Cottam possui infraestrutura de conexão à rede elétrica existente, vantagem significativa que reduz custos e o tempo necessário para licenciamento ambiental e de rede.
A parceria com a EDF, que já opera oito usinas nucleares no Reino Unido e é responsável pela construção da usina de Hinkley Point C, confere ao projeto experiência operacional nuclear no país e acesso à cadeia de suprimentos licenciada pelo regulador nuclear britânico (ONR).
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O programa nuclear britânico e a demanda do setor elétrico
O Reino Unido fixou meta de descarbonização total do setor elétrico até 2030 e incluiu a energia nuclear como pilar da transição, ao lado de eólica offshore e solar. O governo britânico criou a Great British Nuclear (GBN) para coordenar o desenvolvimento de novos projetos nucleares, com foco em SMRs como alternativa mais rápida de implantar do que grandes reatores convencionais.
A demanda por eletricidade no Reino Unido é crescente devido à eletrificação do transporte e do aquecimento residencial, além da expansão de data centers. As usinas nucleares existentes no país estão em processo gradual de desativação, com os reatores da Hinkley Point C representando a única nova grande usina em construção até 2026.
A proposta de Cottam compete com outros projetos de SMR submetidos ao processo britânico de seleção, incluindo o Rolls-Royce SMR (470 MW por unidade), que anunciou parceria com a Videberg Kraft para três reatores na Suécia e planejou a abertura de centro de manufatura em Derby no quarto trimestre de 2026.
Processo de aprovação e próximos passos

A aprovação do projeto de Cottam depende da avaliação do governo britânico no âmbito do processo da GBN, seguida de licenciamento técnico pelo ONR e pela Environment Agency. O processo de aprovação regulatória de novos projetos nucleares no Reino Unido pode levar entre cinco e dez anos.
A Holtec International também desenvolve o reator SMR-300 para outros mercados, com projetos em avaliação no Canadá, Polônia e República Checa. Nos Estados Unidos, a Kairos Power iniciou em 2025 a construção do reator de demonstração Hermes em Oak Ridge, Tennessee — o primeiro reator nuclear de demonstração licenciado pela NRC americana em mais de 50 anos.
O mercado global de SMRs atraiu investimentos crescentes em 2025 e 2026, impulsionado pela demanda de data centers de inteligência artificial e pela busca por geração de energia de base sem emissões de carbono.
Posição do Brasil no contexto nuclear internacional
O Brasil opera as usinas de Angra 1 e Angra 2 e mantém Angra 3 em construção no estado do Rio de Janeiro. A Eletronuclear acompanha o desenvolvimento de SMRs internacionais e avaliou propostas de diferentes fabricantes, incluindo a GE Vernova Hitachi com o BWRX-300, como alternativa a novos grandes reatores convencionais. O setor energético brasileiro debate o papel do nuclear na expansão da capacidade instalada prevista para a próxima década.
A demanda crescente por eletricidade de base, decorrente da eletrificação da indústria e do avanço dos data centers de inteligência artificial no Brasil, reforça o interesse estratégico no nuclear como complemento às fontes intermitentes, como solar e eólica, que já representam parcela relevante da matriz elétrica brasileira.
