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Empresa americana perfura um buraco de 1.830 metros no Kansas com tecnologia de poço de petróleo, coloca um reator nuclear lá dentro e diz que vai gerar energia elétrica sem nenhuma torre de resfriamento

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 08/06/2026 às 20:15
Atualizado em 08/06/2026 às 20:34
Empresa americana perfura um buraco de 1.830 metros no Kansas com tecnologia de poço de petróleo, coloca um reator nuclear lá dentro e diz que vai gerar energia elétrica sem nenhuma torre de resfriamento
Um reator nuclear de 9 metros de altura inserido num tubo de 75 centímetros de diâmetro a quase 2 km de profundidade: a aposta que pode mudar para sempre o custo e o tamanho de uma usina nuclear.
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Um reator nuclear de 9 metros de altura inserido num tubo de 75 centímetros de diâmetro a quase 2 km de profundidade: a aposta que pode mudar para sempre o custo e o tamanho de uma usina nuclear.

No coração do Kansas, a menos de um ano da meta mais ousada do setor energético global, operários perfuram o solo com equipamentos que o mundo do petróleo conhece de cor. Mas desta vez, o que vai descer pelo poço não é uma broca em busca de óleo — é um reator nuclear de última geração, destinado a operar a 1.830 metros abaixo da superfície da Terra.

A empresa por trás do projeto chama-se Deep Fission, tem sede em Berkeley, na Califórnia, e foi fundada em 2023 pelo físico Richard Muller e sua filha, a CEO Liz Muller. O que eles propõem não existe em nenhum outro lugar do planeta: uma usina nuclear que funciona dentro de um buraco no chão.

O Reator “Gravity”: pequeno, profundo e sem precedente

No Kansas, a perfuração de poços profundos marca a fase inicial do projeto da Deep Fission, que pretende instalar um pequeno reator nuclear modular a 1.830 metros de profundidade. A proposta combina técnicas da indústria do petróleo com energia nuclear avançada e pode mudar a lógica das usinas subterrâneas.
No Kansas, a perfuração de poços profundos marca a fase inicial do projeto da Deep Fission, que pretende instalar um pequeno reator nuclear modular a 1.830 metros de profundidade. A proposta combina técnicas da indústria do petróleo com energia nuclear avançada e pode mudar a lógica das usinas subterrâneas.

Segundo a IEEE Spectrum, o SMR (pequeno reator modular) da Deep Fission se chama Gravity — e o nome não é por acaso. Com 9 metros de altura e largura suficiente para caber em um poço de apenas 75 centímetros de diâmetro, o reator é inserido no subsolo por cabos permanentes e lá opera de forma autônoma.

A profundidade não é apenas uma escolha logística. A coluna d’água de 1,6 km gera naturalmente cerca de 160 atmosferas de pressão — exatamente a mesma condição interna de um reator nuclear convencional. Isso elimina a necessidade das caríssimas e monumentais estruturas de contenção que encarecem qualquer usina nuclear de superfície.

Cada reator Gravity gera 15 megawatts elétricos (MWe). Parecem poucos, mas a lógica é de escala: 10 reatores em um mesmo terreno produzem 150 MWe, e 100 unidades chegam a 1,5 gigawatt — tudo isso ocupando uma fração mínima do espaço de uma usina convencional, conforme divulgado pela Power Magazine.

A engenharia do petróleo a serviço do átomo

Aqui está o detalhe que nenhuma outra empresa de energia nuclear no mundo conseguiu combinar: a Deep Fission não inventou nada do zero. Ela pegou três tecnologias maduras e já dominadas pelo setor industrial e as uniu de forma inédita.

A primeira é a perfuração de poços profundos, técnica desenvolvida e aperfeiçoada por décadas pela indústria de petróleo e gás. A segunda é a transferência de calor geotérmico, que leva a energia produzida no subsolo até as turbinas na superfície. A terceira é o próprio reator de água pressurizada (PWR), o design nuclear mais testado e regulamentado do mundo.

“Somos únicos por termos combinado três tecnologias maduras de uma forma que ninguém havia pensado antes”, afirmou Liz Muller, CEO e cofundadora da empresa, em entrevista à IEEE Spectrum.

O resultado prático: a empresa estima que sua abordagem pode reduzir os custos de construção em até 80% em relação a projetos nucleares tradicionais — um número que, se confirmado, redefine completamente a economia da energia nuclear.

Esquema simplificado mostra como o conceito da Deep Fission pretende levar um pequeno reator nuclear modular para dentro de um poço profundo, usando água, pressão natural do subsolo e circulação térmica para gerar vapor e produzir energia na superfície.
Esquema simplificado mostra como o conceito da Deep Fission pretende levar um pequeno reator nuclear modular para dentro de um poço profundo, usando água, pressão natural do subsolo e circulação térmica para gerar vapor e produzir energia na superfície.

Kansas, julho de 2026 e uma corrida contra o relógio

Em 9 de dezembro de 2025, a Deep Fission realizou a cerimônia de inauguração do projeto piloto no Great Plains Industrial Park, em Parsons, Kansas, conforme anunciado pela World Nuclear News. Desde março de 2026, as perfurações dos poços de aquisição de dados estão em andamento — três no total, cada um com 1.830 metros de profundidade e 20 centímetros de diâmetro, para coletar dados geológicos, hidrológicos e térmicos antes da instalação real do reator.

A meta oficial, condicionada à autorização do Departamento de Energia dos EUA (DOE), é atingir a criticidade nuclear até 4 de julho de 2026 — o dia da Independência americana. O projeto integra o Programa Piloto de Reatores do DOE, iniciativa do governo americano para acelerar o licenciamento de tecnologias nucleares avançadas, segundo a ANS Nuclear Newswire.

O recuo discreto que ninguém notou

Em março de 2026, a própria CEO Liz Muller admitiu em entrevista à rádio pública KCUR que a empresa ainda não se comprometeu com o tamanho do projeto comercial, e que o foco atual é a fase de aquisição de dados — um recuo considerável em relação ao anúncio bombástico de dezembro. A meta de criticidade em julho permanece, mas agora carregada de um “sujeito à autorização do DOE” bem mais pesado do que antes.

US$ 80 milhões, urânio garantido e 12,5 GW em contratos

Apesar da cautela operacional, os números financeiros são robustos. Em fevereiro de 2026, a Deep Fission captou US$ 80 milhões em nova rodada de financiamento, conforme comunicado oficial publicado pela Business Wire. No mesmo mês, assinou um acordo de fornecimento de urânio levemente enriquecido (LEU) com a Urenco USA, gigante global do enriquecimento de urânio, com fornecimento a partir da planta no Novo México.

A carteira de clientes em cartas de intenção já soma 12,5 gigawatts de capacidade nuclear planejada — uma demanda alimentada pela explosão dos data centers de inteligência artificial nos EUA, que buscam fontes de energia limpa e confiável de forma urgente.

O vazio regulatório que preocupa especialistas

Nenhum país do mundo possui hoje um marco regulatório específico para reatores em poços profundos. Segundo análise da IEEE Spectrum, a Comissão Reguladora Nuclear dos EUA (NRC) precisará desenvolver orientações suplementares para avaliar um reator instalado no subsolo, dependente da geologia como contenção e monitorado remotamente — áreas que a legislação atual simplesmente não cobre.

No Kansas, há ainda um bloqueio legal extra: a lei estadual proíbe a venda direta de energia para grandes consumidores como data centers. Segundo a KCUR, a Deep Fission negocia com a concessionária Evergy uma solução para esse impasse, sem prazo definido.

A resistência da comunidade local é real. Um morador de Parsons declarou abertamente: “Meu medo é que o projeto fracasse e decidam tampar o poço com resíduos nucleares.” Líderes comunitários sequer votaram sobre o projeto — sua única participação foi assinar uma carta de apoio.

O que está em jogo além do Kansas

Se a Deep Fission provar que seu conceito funciona, o impacto vai muito além de uma cidade no interior americano. A combinação de tecnologia de petróleo com energia nuclear pode abrir caminho para que países com grande expertise em perfuração — como o Brasil, com seu histórico do pré-sal — entrem na corrida do nuclear modular de uma forma completamente inesperada.

O reator Gravity representa, no fundo, uma aposta radical: a de que a próxima revolução energética não virá de gigantes instalações na superfície, mas de poços silenciosos perfurados quilômetros abaixo dos nossos pés.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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