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Com 39 anos de obra parada e R$ 1 bilhão saindo por ano sem gerar um único watt, Angra 3 virou uma bomba-relógio para a Eletronuclear — enquanto a China colocou 20 reatores novos em operação no mesmo período

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 06/05/2026 às 09:30
Atualizado em 06/05/2026 às 09:33
Usina nuclear Angra 3 em construção no litoral do Rio de Janeiro — 66% concluída e parada há décadas
Angra 3: 66% concluída e parada há 39 anos. A usina consome R$ 1 bilhão por ano sem gerar energia — Eletronuclear/Divulgação
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Com 39 anos de obra parada e R$ 1 bilhão saindo por ano sem gerar um único watt, Angra 3 virou uma bomba-relógio para a Eletronuclear — enquanto a China colocou 20 reatores novos em operação no mesmo período.

Segundo a Câmara dos Deputados e o Governo Federal, Angra 3 está com 66% das obras concluídas e parada há 39 anos, consumindo R$ 1 bilhão anuais apenas em manutenção.

Portanto, a usina nuclear que deveria ser um marco da soberania energética brasileira virou um impasse bilionário sem data de resolução.

A Eletronuclear, estatal responsável pela obra, enfrenta risco de insolvência.

Além disso, a empresa solicitou um waiver ao BNDES e à Caixa Econômica Federal — suspensão temporária do pagamento de dívidas.

A medida visa dar fôlego à estatal enquanto aguarda a decisão do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) sobre o destino da central.

Contudo, enquanto o Brasil debate o que fazer com uma usina paralisada, a China está construindo mais de 20 reatores nucleares simultaneamente.

Conforme o El Español, em abril de 2026 a China aprovou 4 novos reatores com design nacional e já opera 6 usinas AP1000 com recordes mundiais de disponibilidade.

A história: 39 anos de promessa não cumprida

Usina nuclear Angra 3 em construção na costa brasileira parada há 39 anos
A usina nuclear: 66% concluída, parada desde 1987, e ainda sem decisão sobre seu futuro — Eletronuclear/Divulgação

As obras da usina começaram em 1984. Em 1987, o governo as interrompeu pela primeira vez por falta de recursos. Portanto, a usina nasceu sob o signo da indefinição orçamentária.

Em 2010, o governo retomou as obras com promessa de entrega para 2015. No entanto, novos atrasos, disputas contratuais e problemas técnicos foram empurrando a data de conclusão para frente.

Em abril de 2023, a Prefeitura de Angra dos Reis publicou um embargo ao canteiro de obras por irregularidades no licenciamento ambiental.

Dessa forma, as obras pararam mais uma vez — e até hoje não foram retomadas.

O resultado, conforme a Gazeta do Povo, é que a estatal acumulou R$ 26 bilhões em dívidas.

A estatal corre o risco de não ter caixa suficiente nem para operar as usinas Angra 1 e Angra 2, que já estão em funcionamento.

O dilema de R$ 24 bilhões: concluir ou abandonar Angra 3?

A decisão que o governo Lula precisava tomar em 2025 foi adiada para 2026. Segundo a Gazeta do Povo, tanto concluir a obra quanto abandoná-la custa valores semelhantes.

  • Concluir a obra: ~R$ 24 bilhões em investimentos adicionais
  • Abandonar: entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões em rescisões, desmontagem, devoluções de incentivos fiscais e multas
  • Manutenção parada: R$ 1 bilhão por ano — sem gerar um único watt
  • Progresso físico atual: 66% concluída após 39 anos

Em outras palavras, o Brasil está num impasse onde não fazer nada é a opção mais cara no longo prazo.

Conforme especialistas ouvidos pela Câmara dos Deputados, a retomada seria estratégica para a matriz elétrica do país.

Por outro lado, a área econômica do governo avalia que o custo de geração pode não compensar o investimento necessário. Assim, a decisão permanece travada entre lógica energética e lógica fiscal.

A China do outro lado: 20 reatores em construção ao mesmo tempo

Usina nuclear AP1000 da China com reatores modernos em operação com recordes mundiais
A China opera 6 reatores AP1000 com recordes mundiais de disponibilidade e mais 14 em construção — CNNC, 2026

Enquanto o Brasil debate Angra 3, a China está numa corrida nuclear sem precedentes.

Segundo o El Español, em abril de 2026 o país tem mais de 20 reatores em construção simultânea — o maior programa nuclear ativo do mundo.

Além disso, a China aprovou 4 novos reatores com design 100% nacional, reduzindo a dependência de tecnologia estrangeira.

Da mesma forma, o projeto CiADS (China Initiative Accelerator Driven System) promete um reator 100 vezes mais eficiente que os modelos convencionais, com operação prevista para 2027.

Consequentemente, a China está a caminho de se tornar o maior mercado de energia nuclear do planeta — superando os Estados Unidos e a França em capacidade instalada antes do fim desta década.

O AP1000 que a China dominou — e que o Brasil ainda discute

O reator AP1000, desenvolvido pela Westinghouse, foi o design escolhido pela China para liderar sua expansão nuclear.

A China foi o primeiro país do mundo a conectar um AP1000 à rede elétrica — e hoje opera 6 unidades com recordes de rendimento operativo.

Portanto, 14 reatores AP1000 adicionais já estão em construção na China. Na prática, isso significa que o país vai operar 20 unidades desse modelo antes do fim da década.

Em comparação, o Brasil chegou a discutir a adoção do AP1000 para um programa de reatores modulares — mas a indefinição congela qualquer avanço nesse debate.

Afinal, como expandir um programa nuclear sem resolver o passivo que já existe?.

O que a usina parada diz sobre as escolhas energéticas do Brasil

Usinas nucleares de Angra dos Reis no litoral do Rio de Janeiro com Angra 1 e Angra 2 em operação
O Brasil opera Angra 1 e Angra 2 com sucesso — mas a usina permanece parada, representando 39 anos de oportunidade perdida em geração limpa

A energia nuclear é limpa, de baixo carbono e baseload — funciona 24 horas por dia, diferente de solar e eólica, que dependem do tempo.

No entanto, o Brasil tem tratado a central como um problema político, não como um ativo estratégico.

Conforme a Agência Brasil, em março de 2026 a indústria nuclear defendeu a energia atômica como essencial para a soberania energética do país.

Sobretudo, porque a matriz elétrica brasileira depende muito das hidrelétricas — vulneráveis a secas como as de 2001 e 2021.

Dessa forma, A usina deixou de ser uma obra e virou um símbolo. Como comparação, nos EUA, o governo gastou US$ 15 bilhões escavando o depósito nuclear de Yucca Mountain — que nunca foi usado.

O Brasil pode estar caminhando para um desfecho parecido.

Bomba-relógio ou oportunidade histórica? A decisão que 2026 não pode adiar

A Eletronuclear tem até fins de 2026 para receber uma decisão do governo.

Sem ela, a estatal pode entrar em colapso financeiro — arrastando junto as operações de Angra 1 e Angra 2, que já geram 2% de toda a eletricidade do Brasil.

Porém, se o governo optar pela conclusão da obra, o Brasil adicionaria mais 1.405 MW de capacidade limpa à matriz — o equivalente ao consumo de cerca de 2 milhões de residências.

Ainda assim, uma pergunta persiste: o Brasil vai resolver em 2026 o que não resolveu em 39 anos?.

E enquanto isso, como o país que tem uma das maiores reservas de urânio do mundo pode ter a maior usina nuclear em construção paralisada por falta de decisão política?.

Veja também como a corrida global por energia limpa está acelerando a demanda por nuclear — e o Brasil corre o risco de ficar para trás.

Nota: os dados sobre Angra 3 são baseados em relatórios da Câmara dos Deputados, Gazeta do Povo e Eletronuclear disponíveis até maio de 2026.

A decisão final do CNPE pode alterar o cenário descrito neste artigo.

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Moisés
Moisés
06/05/2026 10:18

Decisão errada a construção da Usina, o nosso país tem potencial incrível de geração de outras energias renováveis, solar, aeolica, hidrelétricas etc, más falta investir na transmissão e em tecnologias de armazenamento. Ciência, educação e tecnologia falta colocar isso como prioridades!

Última edição em 1 mês atrás por Moisés
Magno
Magno
Em resposta a  Moisés
06/05/2026 11:56

Sinto discordar, mas não temos mais espaço para hidrelétricas no Brasil. Solar e eólicas são bem vindas, mas temos que lembrar que a solar não gera energia á noite, quando os consumidores residenciais mais precisam. E as eólicas só geram quando tem vento, não o tempo todo. Além disso, tanto solar quanto eólicas necessitam vasto espaço para gerar pouca energia, enquanto que nuclear gera muita energia em pouquíssimo espaço. Em resumo: atualmente nenhuma fonte de energia pode ser descartada,

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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