A Islândia, que já tira boa parte da sua energia do calor da própria terra, decidiu ir muito mais fundo e vai descer uma broca a cerca de cinco quilômetros para tocar rocha a 400 graus, na esperança de arrancar de um único poço uma quantidade de energia limpa que um furo comum jamais conseguiria.
Pouco lugares no mundo têm uma relação tão íntima com o calor do subsolo quanto a Islândia. A ilha vive sobre um dos pontos mais vulcânicos do planeta, e há décadas aproveita esse calor para aquecer casas e gerar eletricidade. Mas o que está em jogo agora é um salto de escala, um projeto chamado IDDP-3 que pretende perfurar muito mais fundo do que qualquer poço geotérmico comum.
O alvo é ambicioso, alcançar rochas a cerca de 400 graus a uma profundidade de quatro a cinco mil metros. Nessa faixa extrema, a água deixa de ser simplesmente água quente ou vapor e entra num estado chamado supercrítico, em que carrega muito mais energia do que o vapor comum usado nas usinas geotérmicas tradicionais. É essa energia concentrada que torna o projeto tão promissor.
O que é a água supercrítica
Vale a pena entender esse fenômeno, porque é nele que mora a mágica. Quando a água é submetida a temperatura e pressão altíssimas, ela atinge um estado em que não é nem líquido nem gás, é algo intermediário, denso e cheio de energia. Um fluido supercrítico desses, trazido à superfície, pode girar turbinas com uma eficiência muito maior. As estimativas dos cientistas são animadoras, um único poço supercrítico renderia muito mais que vários poços convencionais juntos.
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Isso muda a economia da geotermia de forma radical. Se um furo entrega a energia de muitos, cai o número de poços necessários, cai o custo e cai o impacto da operação na paisagem. Confesso que é o tipo de promessa que faz qualquer entusiasta de energia limpa prestar atenção, a de extrair muito mais de muito menos, indo buscar lá no fundo um combustível que não polui e não acaba.

Furar perto do inferno
O desafio técnico é assustador. Perfurar até rochas a 400 graus significa levar equipamento para perto do limite do que os materiais aguentam. A broca, os revestimentos e os sensores precisam suportar um calor que destrói ferramentas comuns, além de pressões enormes e de fluidos corrosivos que sobem das profundezas. É como tentar perfurar nas bordas de uma caldeira vulcânica e ainda controlar o que vem de lá.
A própria Islândia já viveu uma prévia disso. Numa tentativa anterior, em 2017, um poço chegou perto de quatro mil e setecentos metros e encontrou fluido a mais de 420 graus em condições supercríticas, provando que o conceito funciona, embora seja brutalmente difícil de domar. O IDDP-3 é a continuação dessa busca, agora com mais experiência e a ambição de transformar a façanha em algo aproveitável de verdade.

Energia que não depende do sol nem do vento
Há uma vantagem da geotermia que costuma passar despercebida no meio do entusiasmo com solar e eólica. O calor da Terra está sempre lá, dia e noite, faça sol ou chuva, sopre vento ou não. Enquanto painéis e turbinas dependem do clima e oscilam, um poço geotérmico entrega energia constante, o tempo todo, o que a torna uma base firme e confiável para um sistema elétrico. É justamente essa estabilidade que falta a outras fontes limpas.
A própria Islândia é a prova viva desse potencial. O país gera praticamente toda a sua eletricidade a partir de fontes renováveis, combinando o calor do subsolo com a força das suas águas, e virou uma espécie de laboratório mundial de energia limpa. Justamente por já ter ido tão longe com a geotermia convencional, faz sentido que seja ali que se tente o próximo grande passo, o da perfuração supercrítica profunda. É o tipo de avanço que só um país com essa intimidade com o calor da Terra teria coragem e conhecimento para tentar primeiro, abrindo um caminho que o resto do mundo observa com atenção.
Se a perfuração profunda como a do IDDP-3 der certo e se mostrar viável em escala, ela pode abrir caminho para que a geotermia profunda seja levada a outros cantos do mundo, e não só a lugares vulcânicos como a Islândia. A tecnologia desenvolvida ali poderia, no futuro, ajudar países inteiros a buscar energia limpa indo fundo, em direção ao calor que existe sob os nossos pés em qualquer lugar do planeta.

Buscar o fogo lá embaixo
Fico imaginando a audácia de descer uma broca rumo a uma rocha a quatrocentos graus, buscando de propósito o calor que a maioria das perfurações tenta a todo custo evitar. É uma inversão de lógica fascinante, em vez de fugir do fogo subterrâneo, a Islândia vai atrás dele, justamente porque é nesse extremo que mora a energia mais valiosa.
Com a perfuração prevista para começar ainda este ano, esse é um daqueles projetos que vão testar, na prática, até onde a humanidade consegue chegar para arrancar energia limpa das entranhas do planeta. Se funcionar, a Islândia mais uma vez vai mostrar ao mundo que o futuro da energia talvez não esteja só lá em cima, no sol e no vento, mas também muito lá embaixo, no calor antigo da própria Terra, esperando ser alcançado por quem tiver coragem de furar fundo o bastante.
Você apostaria na energia do calor profundo da Terra como uma das grandes fontes limpas do futuro?

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