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A França demoliu oito turbinas eólicas que funcionavam há mais de vinte anos e colocou apenas seis no lugar. O resultado parece impossível mas é real, a geração quase dobrou de dez para quase dezenove megawatts sem ocupar um único hectare de terra nova

Publicado em 05/06/2026 às 23:06
Atualizado em 05/06/2026 às 23:11
Assista o vídeoNa França, a ENGIE trocou oito turbinas eólicas por seis e quase dobrou a geração: a repotenciação que a WindEurope vê como atalho de energia limpa na Europa.
Na França, a ENGIE trocou oito turbinas eólicas por seis e quase dobrou a geração: a repotenciação que a WindEurope vê como atalho de energia limpa na Europa.
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Em 2023, no sul da França, a ENGIE substituiu oito turbinas eólicas antigas por apenas seis modernas no parque de Fitou, e a capacidade quase dobrou, de cerca de dez para quase dezenove megawatts. A WindEurope estima que essa repotenciação pode liberar muita energia limpa na Europa.

Parece contradição, mas é real. Em 2023, no sul da França, a empresa de energia ENGIE demoliu oito turbinas eólicas que funcionavam havia mais de vinte anos e colocou apenas seis máquinas modernas no lugar. O resultado: a geração de eletricidade quase dobrou, saltando de cerca de dez para quase dezenove megawatts, no parque eólico de Fitou.

O segredo tem nome: repotenciação. Em vez de erguer um parque novo, a ENGIE reaproveitou o terreno que já existia e apenas trocou as turbinas eólicas velhas por modelos muito mais potentes. E o melhor, sem ocupar um único hectare de terra nova nem enfrentar uma década de licenciamento, já que a comunidade e a conexão à rede elétrica já estavam ali.

O que é a repotenciação que a ENGIE aplicou na França

ENGIE retirou oito turbinas eólicas e instalou seis modernas
ENGIE retirou oito turbinas eólicas e instalou seis modernas

A repotenciação consiste em desmontar turbinas antigas e instalar modelos de nova geração, mais potentes e eficientes, aproveitando a infraestrutura que já existe, como a ligação à rede, as estradas de acesso e a aceitação da comunidade.

No parque de Fitou, que opera desde 2001 e é um dos mais antigos da França, em uma cordilheira voltada para o litoral mediterrâneo, a ENGIE retirou oito turbinas eólicas e instalou seis modernas, da fabricante Vestas, com rotores maiores e torres mais altas.

O salto de capacidade foi expressivo. A potência total do local passou de cerca de dez para quase dezenove megawatts, ou seja, praticamente dobrou, com menos máquinas e na mesma área.

A empresa, que recicla em média 90% dos componentes das turbinas retiradas, trata Fitou como um modelo a ser repetido em todo o seu portfólio europeu, com projetos de repotenciação já em andamento na França, na Bélgica e na Alemanha.

Por que seis turbinas eólicas modernas geram mais que oito antigas

turbinas eólicas
turbinas eólicas

A parte contraintuitiva é como menos equipamentos produzem mais energia. Uma turbina moderna pode gerar de três a quatro vezes a eletricidade anual da máquina que substituiu, e isso se explica por três avanços.

O primeiro é a altura: as turbinas eólicas de primeira geração tinham cerca de 50 a 60 metros, enquanto as atuais passam dos 100 metros, e o vento é mais forte e constante quanto mais alto se chega.

O segundo avanço são as pás. O diâmetro do rotor praticamente dobrou em duas décadas, e uma pá maior varre uma área de ar maior, capturando mais energia a cada rotação, mesmo sob o mesmo vento.

O terceiro é a inteligência embarcada: as turbinas eólicas modernas usam geradores de velocidade variável e controle de passo, girando as pás em tempo real para otimizar o ângulo.

Juntas, essas melhorias permitem que seis máquinas novas superem com folga oito antigas.

O potencial da repotenciação para a Europa

O caso de Fitou interessa porque pode se multiplicar. As primeiras turbinas eólicas comerciais da Europa foram instaladas no início dos anos 1990 e 2000, projetadas para durar cerca de vinte anos, prazo que já se esgotou ou está acabando em centenas de locais.

Como construir um parque novo no continente leva de 7 a 15 anos, entre licenciamento, estudos ambientais e contestações judiciais, a repotenciação surge como um atalho, aproveitando o que já está pronto.

Os números reforçam o argumento. Entre 5 mil e 8 mil turbinas eólicas na Europa estão chegando ou já passaram do fim da vida útil de projeto.

Segundo a WindEurope e estimativas do setor, repotenciar essa frota envelhecida poderia liberar de 50 a 100 gigawatts adicionais sem um único novo pedido de licença para terrenos não urbanizados, sendo que 50 gigawatts equivalem, mais ou menos, ao consumo de eletricidade de um país do tamanho da Espanha.

Ainda assim, a própria WindEurope aponta que menos de 10% das turbinas que chegam ao fim da vida são repotenciadas hoje, porque os operadores são desencorajados por regras de licenciamento lentas e mutáveis.

Nem todo parque eólico serve: os limites da repotenciação

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Apesar do entusiasmo, a repotenciação não funciona em qualquer lugar. As turbinas eólicas modernas, por serem maiores, exigem fundações mais robustas, e alguns parques antigos não foram projetados para suportá-las.

Quando o solo não comporta as bases mais profundas, é preciso reconstruir toda a fundação, o que pode comprometer a viabilidade econômica do projeto.

A capacidade da rede elétrica é outro limite, já que as conexões antigas foram dimensionadas para a produção original e atualizá-las pode sair caro demais.

Há ainda a questão da aceitação social. Embora costume ser mais fácil do que em locais novos, ela não é garantida, porque as máquinas modernas são bem mais visíveis.

Comunidades que aceitaram turbinas eólicas de cerca de 50 metros em 2001 podem ter preocupações reais diante de uma de 150 metros.

Mesmo com essas ressalvas, segundo a consultoria Wood Mackenzie, 275 gigawatts de capacidade eólica no mundo vão completar 20 anos entre 2023 e 2033, o que deve impulsionar fortemente a repotenciação na próxima década.

Para a WindEurope, porém, aproveitar todo esse potencial depende de simplificar as regras de licenciamento que ainda travam a troca de turbinas eólicas na Europa.

Trocar oito turbinas eólicas velhas por seis modernas e quase dobrar a energia, sem ocupar terra nova, mostra que parte da solução para a transição energética pode estar nos parques que já existem.

Conte nos comentários se você acha que o Brasil deveria adotar a repotenciação nos seus parques eólicos mais antigos e o que ainda atrapalha esse tipo de obra.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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