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A 2.700 metros abaixo do mar, a Equinor encaixa a peça que vai bombear 16 milhões de m³ de gás por dia na Bacia de Campos

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 13/07/2026 às 19:19 Atualizado em 13/07/2026 às 19:21
A 2.700 metros abaixo do mar, a Equinor encaixa a peça que vai bombear 16 milhões de m³ de gás por dia na Bacia de Campo
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A cerca de 200 quilômetros da costa do Rio de Janeiro, a norueguesa Equinor acaba de cravar no fundo do mar da Bacia de Campos uma peça a 2.700 metros de profundidade, a etapa mais funda já executada pela empresa em toda a sua história. É o coração de um projeto de gás que promete abastecer 15% da demanda brasileira.

O equipamento tem um nome técnico e discreto: PLEM, sigla em inglês para manifold de fim de duto. Na prática, é a conexão submarina que vai unir a futura plataforma ao gasoduto que levará o gás natural até a costa. A instalação, concluída no início de julho, marca um passo decisivo do projeto Raia, o antigo bloco BM-C-33 do pré-sal da Bacia de Campos, e coloca o Brasil no centro de uma das operações offshore mais ambiciosas da década.

Um feito de engenharia em águas ultraprofundas

Para entender o tamanho do desafio, vale olhar os números. O campo fica sob uma lâmina d’água que chega a 2.900 metros, e o reservatório está ainda mais fundo, a cerca de três mil metros abaixo do leito do mar, numa rocha carbonática cheia de cavidades e fraturas que dificulta a produção. “Raia é o maior projeto em execução da Equinor e marca a operação em maior profundidade do nosso portfólio”, resumiu Geir Tungesvik, vice-presidente executivo de projetos da companhia.

Plataforma FPSO da Petrobras operando em mar aberto com rebocador ao lado
A plataforma do projeto Raia terá capacidade para cerca de 126 mil barris por dia.

Todo o sistema submarino está sendo montado pela TechnipFMC, num contrato que passou de US$ 1 bilhão, e envolve árvores de produção, manifolds, dutos flexíveis e umbilicais. A perfuração dos poços começou em março deste ano, com o navio-sonda Valaris DS-17, e prevê seis poços no total. Confesso que me impressiona pensar que tudo isso está sendo instalado no escuro absoluto, sob a pressão brutal de quase três quilômetros de água acima.

Quem está por trás do projeto

Raia não é uma aposta solitária. A Equinor é a operadora, com 35% de participação, dividindo o consórcio com a Repsol Sinopec, também com 35%, e a Petrobras, com 30%. O investimento total do projeto é estimado em cerca de US$ 9 bilhões, e as reservas recuperáveis passam de 1 bilhão de barris de óleo equivalente, distribuídas nas descobertas batizadas de Pão de Açúcar, Gávea e Seat.

Plataforma de petróleo offshore ao pôr do sol em mar aberto
O projeto Raia deve gerar até 50 mil empregos diretos e indiretos ao longo de sua vida útil.

O casco da plataforma, uma unidade flutuante do tipo FPSO, está sendo construído pelo estaleiro Seatrium em Angra dos Reis, no litoral do Rio, e será operado pela MODEC no primeiro ano. A unidade poderá armazenar até 2 milhões de barris de óleo e processar cerca de 126 mil barris por dia. A entrega está prevista para 2027, com o início da produção marcado para 2028. Chama atenção também que a cadeia de aço do gasoduto tem cerca de 99% de fornecimento nacional, o que espalha o investimento pela indústria brasileira e gera encomendas para fornecedores em vários estados.

A instalação do manifold é apenas o elo mais recente de uma corrente longa. Antes dele, em 2025, a Equinor já havia assentado o trecho do gasoduto em águas rasas, mais perto da costa. Agora, com a peça encaixada nas profundezas, entra a fase de conectar os poços, os dutos e a plataforma num sistema único. Cada uma dessas etapas acontece a milhares de metros de profundidade, com robôs submarinos operando onde nenhum mergulhador jamais chegaria. É uma obra que se monta às cegas, guiada por sonares e câmeras, peça por peça, até formar o quebra-cabeça que vai bombear gás em 2028.

O gás que vai direto para a malha nacional

O grande diferencial do projeto, porém, está no gás. A plataforma terá capacidade de produzir 16 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, e esse volume seguirá por um gasoduto de cerca de 200 quilômetros até a Unidade de Tratamento de Gás de Cabiúnas, em Macaé. Será o primeiro projeto no Brasil a levar o gás offshore direto para a malha nacional de transporte, sem precisar de uma planta de processamento adicional em terra.

O impacto potencial é considerável: quando estiver a pleno vapor, o Raia poderá atender cerca de 15% de toda a demanda brasileira de gás natural. Num país que ainda importa gás e sofre com preços altos para a indústria, colocar essa oferta nova no sistema pode mexer com um dos gargalos mais antigos da nossa matriz energética.

Plataforma flutuante de produção de petróleo vista aérea em águas costeiras
O gás do Raia irá direto para a malha nacional, sem processamento adicional em terra.

O projeto ainda foi desenhado com meta de baixa intensidade de carbono, menos de 6 quilos de CO2 por barril produzido, bem abaixo da média do setor, e deve gerar até 50 mil empregos diretos e indiretos ao longo de um ciclo de vida estimado em 30 anos. A decisão final de investimento foi tomada em 2023, e desde então cada etapa vem sendo cumprida com um cronograma raro de se ver em projetos dessa escala.

Fico imaginando o quanto essa engenharia invisível, lá no fundo do mar, vai pesar na conta de energia que chega até a indústria brasileira nos próximos anos. Se o gás do Raia entrar como planejado em 2028, será um dos maiores reforços de oferta que o país verá nesta década. E, num setor em que atrasos são quase a regra, cumprir o cronograma à risca já seria, por si só, uma conquista e tanto para todos os envolvidos.

O gás do projeto Raia será suficiente para aliviar o preço que a indústria brasileira paga hoje?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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