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Entre vales do Himalaia e rios glaciais, o Nepal desviou o Tamakoshi, escavou túneis em rocha instável e ergueu uma hidrelétrica de 456 MW para reduzir apagões, cortar importações e redefinir sua soberania energética

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 07/02/2026 às 16:51
Atualizado em 07/02/2026 às 16:53
Entre vales do Himalaia e rios glaciais, o Nepal desviou o Tamakoshi, escavou túneis em rocha instável e ergueu uma hidrelétrica de 456 MW para reduzir apagões, cortar importações e redefinir sua soberania energética
Entre vales do Himalaia e rios glaciais, o Nepal desviou o Tamakoshi, escavou túneis em rocha instável e ergueu uma hidrelétrica de 456 MW para reduzir apagões, cortar importações e redefinir sua soberania energética
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Entre vales do Himalaia, o Nepal ergueu a hidrelétrica Upper Tamakoshi de 456 MW para reduzir apagões, cortar importações de energia e redefinir sua soberania elétrica.

Em 22 de julho de 2021, o Nepal colocou oficialmente em operação comercial a Usina Hidrelétrica Upper Tamakoshi, instalada no vale do rio Tamakoshi, no distrito de Dolakha, região central do país, a cerca de 150 quilômetros a nordeste de Katmandu. O empreendimento é operado pela Nepal Electricity Authority (NEA), estatal responsável pelo sistema elétrico nacional, e integra a política energética do Ministério de Energia, Recursos Hídricos e Irrigação do Nepal.

Com 456 megawatts de capacidade instalada, o projeto se tornou a maior hidrelétrica já construída no país e um marco histórico por ter sido financiado majoritariamente com capital doméstico, envolvendo fundos públicos de previdência, bancos estatais e participação direta do governo. As informações técnicas e institucionais constam em relatórios oficiais da NEA, do Banco Mundial, da Asian Development Bank (ADB) e em documentos públicos do governo nepalês.

A dependência energética crônica que travava o Nepal

Durante décadas, o Nepal viveu um paradoxo energético. Apesar de abrigar alguns dos rios mais íngremes e potentes do planeta, alimentados por geleiras do Himalaia, o país enfrentava apagões diários, especialmente durante a estação seca. Até meados da década de 2010, cortes de energia superiores a 12 horas por dia eram comuns em centros urbanos e praticamente constantes em áreas rurais.

Para evitar colapsos no sistema, o país passou a importar eletricidade da Índia, criando uma dependência externa sensível para uma economia já fragilizada. Segundo dados oficiais da NEA, antes da Upper Tamakoshi, mais de 30% da energia consumida no inverno vinha do exterior, pressionando as contas públicas e limitando o crescimento industrial.

Foi nesse contexto que a hidrelétrica passou a ser tratada como projeto estratégico nacional, não apenas como obra de infraestrutura.

Onde nasce a energia: o rio Tamakoshi e o vale glaciar

rio Tamakoshi nasce em regiões glaciais acima de 5.000 metros de altitude, no Himalaia central. Seu desnível abrupto cria um potencial hidrelétrico excepcional, mas também impõe desafios extremos à engenharia. O vale é estreito, sujeito a deslizamentosavalanches, erosão acelerada e instabilidade geológica permanente.

Em vez de uma barragem convencional de grande reservatório, os engenheiros optaram por um sistema do tipo run-of-river, que reduz áreas inundadas e impacto social, mas exige túneis longos e escavações profundas em rocha instável. Essa decisão moldou toda a complexidade técnica do projeto.

Engenharia subterrânea em escala extrema

O núcleo da Upper Tamakoshi está oculto sob a montanha. A água do rio é captada por uma estrutura de tomada relativamente baixa e desviada para um túnel de adução com cerca de 8 quilômetros de extensão, escavado diretamente em rocha metamórfica fraturada.

Esse túnel conduz a água até uma casa de força totalmente subterrânea, onde estão instaladas seis turbinas Francis, cada uma com potência aproximada de 76 MW, somando os 456 MW totais. Após gerar energia, a água retorna ao leito natural do rio, minimizando alterações hidrológicas a jusante.

Relatórios técnicos da NEA apontam que a escavação exigiu reforços estruturais contínuos, injeções de concreto, drenagem permanente e adaptação constante do método construtivo conforme as condições geológicas variavam ao longo do traçado.

O terremoto de 2015 e o quase colapso do projeto

Em 25 de abril de 2015, um terremoto de magnitude 7,8 atingiu o Nepal, causando mais de 9 mil mortes e devastação generalizada. O vale do Tamakoshi foi duramente afetado. Deslizamentos massivos soterraram acessos, danificaram túneis em escavação e comprometeram estruturas provisórias da usina.

Documentos oficiais indicam que o projeto sofreu atrasos superiores a 18 meses apenas em função do terremoto, além de aumentos significativos de custo para estabilização de encostas e recuperação de túneis. Ainda assim, o governo decidiu manter o cronograma revisado, tratando a obra como prioridade nacional.

Financiamento doméstico e soberania econômica

Diferentemente de muitos grandes projetos em países em desenvolvimento, a Upper Tamakoshi foi financiada sem concessão a empresas estrangeiras. Mais de 50% do capital veio de fundos de aposentadoria de funcionários públicos, forças armadas e empresas estatais. O restante foi coberto por bancos nacionais e aporte direto do governo.

Essa estrutura transformou a usina em um ativo estratégico interno, cujos lucros retornam diretamente ao sistema público nepalês. Segundo o Ministério da Energia, a usina tem potencial para reduzir drasticamente a importação de eletricidade e, em períodos de excedente, permitir exportações sazonais para países vizinhos.

Impacto direto na matriz elétrica e nos apagões

Com a entrada em operação da Upper Tamakoshi, o Nepal passou a registrar superávit energético durante a estação chuvosa, algo inédito na história recente do país. A usina responde sozinha por cerca de um terço da capacidade instalada nacional, alterando o equilíbrio do sistema.

Dados da NEA mostram queda expressiva nos cortes de energia e redução do custo médio de geração, criando condições para expansão industrial, eletrificação rural e maior estabilidade econômica.

Por que a Upper Tamakoshi redefine o futuro do Nepal

Mais do que uma hidrelétrica, a Upper Tamakoshi representa uma mudança estrutural. O projeto provou que o Nepal é capaz de executar engenharia pesada em ambiente extremo, financiar grandes obras com capital próprio e transformar seus recursos naturais em alavanca econômica.

Em um país montanhoso, pobre em combustíveis fósseis e altamente vulnerável a choques externos, controlar a própria energia significa controle sobre o próprio desenvolvimento. É por isso que, mesmo diante de terremotos, atrasos e custos elevados, a obra nunca foi abandonada.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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