Expedição mapeia montanha submarina de 3.109 m no Pacífico, revela mais de 100 espécies inéditas e expõe o quanto do oceano ainda é desconhecido
Em julho de 2024, o navio de pesquisa Falkor (too) saiu navegando sobre uma cadeia de montanhas no fundo do Pacífico que geólogos já conheciam pelo nome: a Dorsal Nazca. O que ninguém sabia era o que havia exatamente ali embaixo. Vinte e oito dias depois, a equipe do Schmidt Ocean Institute havia mapeado uma montanha submarina de 3.109 metros de altura que não constava em nenhum mapa do mundo — maior do que o Monte Olimpo, o ponto mais alto da Grécia — habitada por mais de 100 espécies que a ciência nunca havia catalogado. E isso em uma região onde apenas 26% do fundo oceânico já foi mapeado em alta resolução.
Montanha submarina desconhecida na Dorsal Nazca surpreende cientistas
A Dorsal Nazca é uma extensa cadeia de montanhas submarinas localizada no Pacífico Sul, em águas internacionais a aproximadamente 1.450 km da costa do Chile. Embora sua existência já fosse conhecida por geólogos, a composição detalhada da cadeia permanecia praticamente inexplorada.
Utilizando um sistema de sonar de feixes múltiplos instalado no casco do Falkor (too), a equipe conseguiu mapear o fundo oceânico com precisão métrica. O equipamento funciona emitindo ondas sonoras que se propagam até o leito marinho e retornam ao navio, permitindo reconstruir a topografia submersa com alto nível de detalhe.
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Foi nesse processo que surgiu a montanha desconhecida. Sua base está a 4.103 metros de profundidade e o topo a 994 metros abaixo da superfície. Isso significa uma elevação total de 3.109 metros acima do fundo oceânico, distribuída em uma área de aproximadamente 70 km², dimensão comparável à região central de uma grande metrópole.
Escala da descoberta coloca montanha entre as maiores já identificadas no fundo do mar
A dimensão da estrutura impressiona mesmo quando comparada a referências conhecidas. Com mais de 3 mil metros de altura, a montanha supera o Monte Olimpo da Grécia, que possui 2.917 metros, e se aproxima de formações geológicas continentais.
Além disso, o topo da montanha permanece a quase 1.000 metros abaixo da superfície, em uma zona de escuridão permanente, inacessível a mergulhadores e apenas explorável por veículos robóticos especializados.
Essa combinação de profundidade, isolamento e ausência de mapeamento prévio explica por que uma estrutura desse porte permaneceu desconhecida até 2024, mesmo estando relativamente próxima da costa sul-americana.
Formação geológica da Dorsal Nazca explica origem das montanhas submarinas
A cadeia Nazca tem origem vulcânica e está diretamente associada ao movimento da Placa de Nazca sobre um ponto quente no manto terrestre. Esse processo ocorre quando material fundido ascende através da crosta, formando montanhas ao longo de milhões de anos.

À medida que a placa tectônica se desloca, as formações recém-criadas são empurradas para longe do ponto de origem, dando lugar a novas estruturas. Esse mecanismo gera uma sequência de montanhas com diferentes idades geológicas, formando uma cadeia contínua ao longo do fundo oceânico.
Esse mesmo processo é responsável pela formação do arquipélago do Havaí, com a diferença de que, no caso da Dorsal Nazca, todas as estruturas permaneceram submersas.
ROV SuBastian revela ecossistema profundo com corais milenares e biodiversidade inédita
A exploração direta da montanha foi realizada pelo ROV SuBastian, um veículo subaquático operado remotamente capaz de atingir profundidades de até 4.500 metros. Equipado com câmeras de alta definição, iluminação potente e braços robóticos, o equipamento permitiu observar o ambiente em tempo real.
As imagens revelaram um ecossistema altamente complexo, incluindo extensos campos de esponjas de vidro, formações de corais bamboo com vários metros de altura e estruturas de corais conhecidos como bubblegum, caracterizados pela coloração rosada.
Em uma das encostas, foi identificado um recife de aproximadamente 800 m², onde diversas espécies convivem, como peixes-escorpião, estrelas-frágeis e caranguejos-rei. Muitos desses organismos crescem a taxas extremamente lentas, indicando idades que podem ultrapassar mil anos.
Mais de 100 espécies desconhecidas ampliam em quase 30% o registro biológico da região
Ao longo de três expedições realizadas em 2024, os pesquisadores registraram mais de 150 espécies não documentadas anteriormente na região, sendo que pelo menos 100 delas são consideradas potencialmente novas para a ciência.
Antes dessas missões, o número total de espécies catalogadas nas dorsais Nazca e Salas y Gómez era de aproximadamente 1.019. Após as expedições, esse número ultrapassou 1.300, representando um aumento significativo em um curto período.
Entre os organismos identificados estão esponjas com morfologias inéditas, crustáceos ainda não classificados e espécies de equinodermos encontradas em profundidades nunca antes registradas.
Montanhas submarinas funcionam como ilhas biológicas isoladas no oceano profundo
Um dos aspectos mais relevantes da descoberta foi a constatação de que cada montanha abriga um ecossistema distinto. Espécies presentes em uma formação estavam completamente ausentes em outra, mesmo quando separadas por distâncias relativamente pequenas.
Esse isolamento ocorre porque a planície abissal que separa as montanhas atua como uma barreira natural para organismos fixos. A dispersão depende de larvas transportadas por correntes oceânicas, o que limita a troca genética entre populações.
O resultado é a formação de sistemas biológicos únicos, onde cada montanha funciona como uma “ilha” independente no fundo do mar, com implicações diretas para estratégias de conservação.
Dorsal Nazca possui mais de 200 montanhas submarinas ainda pouco exploradas
A montanha descoberta é apenas uma entre mais de 200 estruturas que compõem a Dorsal Nazca, que se estende por aproximadamente 2.900 km até a região da Ilha de Páscoa.
Grande parte dessas formações permanece sem exploração detalhada, especialmente por estarem localizadas em águas internacionais. Durante as expedições de 2024, foram mapeados mais de 52 mil km² de fundo oceânico, mas isso representa apenas uma fração da área total da cadeia.
A tendência é que novas expedições revelem ainda mais estruturas desconhecidas, reforçando a ideia de que o fundo oceânico continua sendo uma das últimas fronteiras inexploradas do planeta.
Apenas 26% do fundo oceânico foi mapeado e revela dimensão do desconhecido
Segundo o Schmidt Ocean Institute, apenas cerca de 26% do fundo dos oceanos foi mapeado com resolução suficiente para identificar estruturas detalhadas. Considerando que os oceanos cobrem cerca de 71% da superfície terrestre, a maior parte do planeta ainda permanece desconhecida.
Essa limitação se deve principalmente à necessidade de mapeamento direto por sonar, que exige expedições caras e demoradas. Satélites conseguem detectar grandes variações, mas não têm precisão para revelar detalhes menores.
Projetos internacionais como o Seabed 2030 buscam mapear completamente o fundo oceânico até o final da década, mas o ritmo atual ainda está distante desse objetivo.
Descoberta reforça urgência de proteção de ecossistemas em águas internacionais
A região da Dorsal Nazca está localizada fora da jurisdição de qualquer país, o que a torna vulnerável a atividades como pesca predatória e mineração de fundo oceânico.
O Tratado de Alto Mar, adotado pela ONU em 2023, busca criar mecanismos para proteger áreas internacionais, mas ainda depende de ratificação por um número mínimo de países para entrar em vigor.
A descoberta de ecossistemas intactos e altamente biodiversos fortalece o argumento científico para transformar a região em área marinha protegida, antes que atividades humanas causem impactos irreversíveis.
O que a expedição de 2024 demonstrou é que uma única montanha pode abrigar centenas de espécies únicas. Considerando que existem mais de 100 mil montanhas submarinas com mais de 1.000 metros de altura nos oceanos do planeta, o potencial de descobertas é gigantesco.
A maioria dessas estruturas nunca foi visitada. Cada nova expedição tem o potencial de reescrever partes inteiras do conhecimento científico sobre biodiversidade marinha, evolução e ecossistemas profundos. A montanha de 3.109 metros não é uma exceção é apenas uma amostra do que ainda está escondido sob o oceano.

