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Um terço dos municípios já atrasa fornecedores e entra em 2026 sem dinheiro para pagar contas, empurra despesas para o futuro e vê risco de colapso em serviços básicos nas cidades mais pobres do país

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 15/12/2025 às 10:17
Um terço dos municípios atrasa fornecedores e acumula despesas públicas em meio à crise financeira que ameaça os serviços básicos no país.
Um terço dos municípios atrasa fornecedores e acumula despesas públicas em meio à crise financeira que ameaça os serviços básicos no país.
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Pesquisa da CNM com 4.172 municípios revela que quase 30% já atrasam fornecedores e 31% vão empurrar restos a pagar para 2026 sem fonte de recursos, enquanto novos programas federais pressionam folhas e ameaçam serviços básicos justamente nas cidades mais vulneráveis do país com risco crescente de colapso fiscal local

De acordo com o portal do ESTADÃO, o Congresso aprovou um adicional de 1% do Fundo de Participação dos Municípios, pago todo mês de dezembro para reforçar o caixa das prefeituras. Mesmo assim, um terço dos municípios entra em 2026 atrasando fornecedores e sem dinheiro para quitar todas as contas que deveriam ter sido pagas neste ano.

Levantamento da Confederação Nacional dos Municípios, com 4.172 cidades que representam 75% do total, mostra que 31% das prefeituras vão empurrar despesas para 2026 sem fonte de custeio, apesar da PEC aprovada em 2022. Para a entidade, o avanço de novas obrigações e benefícios cria uma bomba fiscal que ameaça serviços básicos e deve explodir no mandato de quem estiver no poder até 2027.

Pesquisa revela contas no vermelho em milhares de municípios

A pesquisa da CNM detalha o tamanho do aperto nas contas públicas locais. Entre os 4.172 municípios ouvidos, 1.202 prefeituras, o equivalente a 28,8%, admitem estar em atraso com fornecedores.

Outros 2.858, ou 68,5%, dizem estar em dia, e 112 (2,7%) nem responderam à pergunta, o que aumenta a sensação de incerteza sobre a real dimensão do problema.

Ao olhar para 2026, o cenário fica ainda mais preocupante. Um total de 1.293 municípios, ou 31%, vai deixar despesas deste ano para o próximo sem ter fonte de recursos para bancá-las, os chamados restos a pagar sem cobertura.

Do outro lado, 2.623 (62,9%) afirmam não deixar pendências sem custeio, enquanto 256 (6,1%) não responderam.

Na prática, isso significa que uma parte expressiva dos municípios já entra em 2026 começando o ano no vermelho, antes mesmo de enfrentar novos aumentos de salários, reajustes contratuais e pressões de custeio. A CNM alerta que, se nada mudar, a combinação de atrasos e restos a pagar tende a formar uma bola de neve que recai sobre serviços essenciais.

Folha em dia, mas programas novos estrangulam os municípios

Apesar do aperto, a grande maioria das prefeituras ainda consegue manter a folha de pagamento em dia. Segundo a CNM, 98% dos municípios relatam não ter atraso no pagamento de servidores públicos, inclusive no 13º salário.

O problema é que, ao mesmo tempo, foram assumidas novas obrigações sem contrapartida de receita.

O presidente da entidade, Paulo Ziulkoski, cita três exemplos centrais: o piso salarial da enfermagem, o programa Mais Médicos e a implantação de escolas em tempo integral.

Todas essas políticas ampliam a despesa com pessoal, estrutura e custeio, mas não vieram acompanhadas de repasses suficientes para os municípios.

“O governo federal não para de criar pepino para os municípios, e os prefeitos aderem a isso. Não é o prefeito quem está sofrendo.

Quem está pagando isso é a população mais pobre”, afirma Ziulkoski. Para ele, a arrecadação dos municípios cresce pouco, enquanto a despesa explode com novos pisos e a pressão da previdência, principalmente nas menores cidades, que dependem quase só de transferências federais.

Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul concentram parte dos atrasos

Os dados por Estado mostram que a crise não está distribuída de forma homogênea pelo mapa. Minas Gerais aparece com 196 municípios em atraso com fornecedores, seguida de perto por São Paulo, com 168 prefeituras nessa situação.

Quando o recorte é a falta de dinheiro para pagar despesas que serão empurradas para 2026, o quadro continua grave.

São 213 municípios em Minas Gerais, 192 em São Paulo e 114 no Rio Grande do Sul que dizem não ter fonte de custeio para bancar todos os restos a pagar.

Esses números ajudam a explicar por que, em maio de 2025, durante a Marcha dos Prefeitos em Brasília, o clima entre gestores municipais era de forte pressão sobre o governo federal e o Congresso.

Prefeitos de municípios médios e pequenos relatam que a conta já está chegando em áreas como transporte escolar, saúde básica e manutenção urbana, com cortes silenciosos na ponta.

PEC de 2022, novas leis e a aposentadoria que vira bomba fiscal

Em 2022, o Congresso aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição que, em tese, proíbe a criação de novos programas com impacto para os municípios sem indicar a fonte de custeio.

Na prática, porém, a CNM afirma que várias leis têm sido aprovadas afastando essa obrigação, o que enfraquece o espírito da PEC.

“Todo esse impacto é muito grave. Isso vai se acumulando cada vez mais”, alerta Ziulkoski. Segundo ele, a despesa com pessoal e previdência cresce, muitos municípios concedem aumentos sem condições de pagar, e a margem para investir ou manter serviços fica cada vez menor.

Uma das maiores preocupações atuais é a proposta aprovada no Senado que concede aposentadoria integral e paritária para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, com impacto estimado em 69,9 bilhões de reais para os municípios. Ziulkoski chama a medida de “bomba futura”.

Ele lembra que a votação ocorreu em clima de pré-campanha: “Como é véspera de eleição, qual parlamentar vai votar contra e perder voto?”, questiona.

Na avaliação da CNM, o ajuste mais duro vai sobrar para quem assumir a Presidência em 2027 e para prefeitos que estarão no meio do mandato, com a bomba estourando sobre orçamentos já estrangulados.

Crise financeira lidera ranking de problemas e ameaça serviços básicos

Além dos números das contas públicas, a pesquisa da CNM ouviu a percepção dos gestores. Oito em cada dez entrevistados, ou 80,2%, apontam a crise financeira e a falta de recursos como o principal desafio hoje.

Em seguida vêm a instabilidade política e econômica (67,5%), a gestão na saúde (63,4%) e os reajustes salariais (62,2%).

Recentemente, o Congresso aprovou uma PEC que limita o pagamento de precatórios pelos municípios de acordo com a arrecadação e permite renegociar dívidas das prefeituras com a União.

Para Ziulkoski, essa mudança traz algum alívio, mas está longe de resolver a pressão produzida por novos programas e benefícios contínuos.

A estratégia da entidade, daqui para frente, será tentar segurar o aumento de despesas no Congresso e denunciar projetos que jogam a conta para os municípios sem garantir dinheiro novo, principalmente onde a população depende quase exclusivamente do SUS, das escolas públicas e de serviços básicos mantidos pelas prefeituras.

Na avaliação de técnicos municipais, se esse movimento não for contido, o risco é ver um colapso progressivo de serviços essenciais nas cidades mais pobres, com filas maiores na saúde, escolas sem estrutura adequada e atrasos em contratos de limpeza, transporte e assistência social.

Na sua cidade, você já percebe sinais de que os serviços oferecidos pelos municípios estão piorando por causa da falta de dinheiro?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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