1. Início
  2. / Construção
  3. / Um ex-fabricante de ar-condicionado virou o homem mais rápido da construção na China após o terremoto de Sichuan de 2008: sua empresa empilha prédios inteiros como peças de montar e ergueu uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro, com 90% feito em fábrica
Tempo de leitura 8 min de leitura Comentários 0 comentários

Um ex-fabricante de ar-condicionado virou o homem mais rápido da construção na China após o terremoto de Sichuan de 2008: sua empresa empilha prédios inteiros como peças de montar e ergueu uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro, com 90% feito em fábrica

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 21/05/2026 às 18:13
Atualizado em 21/05/2026 às 18:16
Assista o vídeoEx-fabricante de ar-condicionado revolucionou a construção na China com método modular que montou uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro. Entenda os fatos.
Ex-fabricante de ar-condicionado revolucionou a construção na China com método modular que montou uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro. Entenda os fatos.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Depois do terremoto de Sichuan de 2008, o empresário chinês Zhang Yue, dono de uma fabricante de ar-condicionado, criou um método de construção modular que empilha prédios inteiros como peças de montar. Sua empresa montou uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro, com 90% feito em fábrica antes da obra começar.

Em fevereiro de 2015, na cidade de Changsha, capital da província de Hunan, na China, a empresa Broad Sustainable Building (BSB), comandada pelo empresário Zhang Yue, concluiu a montagem da torre Mini Sky City, também chamada de J57, um arranha-céu de uso misto com 57 andares e 204 metros de altura, em apenas 19 dias úteis de canteiro. O feito chamou atenção mundial não pela altura, mas pela velocidade do método de construção modular adotado pela companhia, que ergueu uma média de três andares por dia ao empilhar módulos pré-fabricados como peças de um brinquedo de montar.

O detalhe que muitas reportagens omitem, no entanto, é fundamental para entender o que realmente aconteceu. Os 19 dias se referem apenas à montagem no canteiro de obras. Antes disso, a Broad Sustainable Building gastou cerca de quatro meses e meio fabricando, dentro de sua fábrica, os 2.736 módulos que seriam encaixados no local. Ou seja, não foi um prédio erguido do zero em menos de três semanas, e sim uma montagem rápida de peças prontas que levaram meses para serem produzidas. Essa distinção é o que separa o fato concreto do exagero que circula em vídeos sobre o tema na construção chinesa.

Quem é Zhang Yue, o ex-fabricante de ar-condicionado

Ex-fabricante de ar-condicionado revolucionou a construção na China com método modular que montou uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro. Entenda os fatos.
Zhang Yue não é arquiteto nem engenheiro civil de formação.

Ele fez fortuna como fundador do Broad Group, um dos maiores fabricantes de sistemas de ar-condicionado central da China, com destaque para os chamados chillers de absorção, equipamentos industriais de refrigeração. Foi nesse setor que ele construiu seu nome e acumulou o capital que, anos depois, seria redirecionado para um experimento ousado no ramo da construção civil.

A virada veio depois de um evento trágico. Em 12 de maio de 2008, um terremoto de magnitude estimada entre 7,9 e 8,0 atingiu a província de Sichuan, no sudoeste da China, deixando quase 70 mil mortos confirmados, segundo dados oficiais, e dezenas de milhares de prédios de concreto destruídos, entre escolas, hospitais e conjuntos habitacionais. Zhang Yue observou o colapso em massa dessas estruturas e passou a questionar por que a indústria ainda dependia tanto do concreto, material pesado e rígido que, segundo ele, tende a quebrar em vez de flexionar durante um abalo sísmico. Foi esse questionamento que o levou a entrar de vez na construção.

Como funciona o método de construção modular da Broad Sustainable Building

Ex-fabricante de ar-condicionado revolucionou a construção na China com método modular que montou uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro. Entenda os fatos.
O sistema criado por Zhang Yue parte de um princípio simples: tirar a obra do canteiro aberto e levá-la para dentro de uma fábrica controlada.

Em uma instalação de cerca de 230 mil metros quadrados, a empresa produz módulos do tamanho aproximado de contêineres de transporte. Cada módulo já sai de fábrica com piso, fiação elétrica, encanamento e dutos instalados internamente. Paredes se dobram e viram pisos, janelas e varandas se abrem para fora, tudo preparado antes de o módulo deixar a linha de produção.

No canteiro, caminhões transportam os módulos e guindastes os içam para a posição correta, onde são unidos por parafusos de aço de alta resistência, sem necessidade de concretagem demorada nem tempo de cura. O resultado é um processo que lembra a montagem de um móvel pré-fabricado em escala gigante, em que o local da obra se parece mais com uma área de montagem do que com um canteiro tradicional. É essa lógica industrial aplicada à construção de prédios que permite a velocidade observada nos projetos da empresa, com a ressalva de que a maior parte do trabalho acontece longe dali, dentro da fábrica.

Os números reais da torre de 57 andares montada em 19 dias

Ex-fabricante de ar-condicionado revolucionou a construção na China com método modular que montou uma torre de 57 andares em 19 dias de canteiro. Entenda os fatos.
Mini Sky City

A Mini Sky City, principal vitrine do método, reúne dados impressionantes mesmo quando analisada com rigor. São 57 andares, 204 metros de altura e cerca de 180 mil metros quadrados de área construída, com 800 apartamentos e espaço de escritório para 4 mil pessoas. Mais de 90% da estrutura saiu pronta da fábrica, com piso acabado e instalações já embutidas. A estrutura é totalmente de aço, sem núcleo de concreto, e usou cerca de 10.345 toneladas de vigas de aço fornecidas pela ArcelorMittal.

O método rendeu à empresa o prêmio de inovação do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) em 2013 e, segundo a própria companhia, eliminou o uso de aproximadamente 15 mil caminhões de concreto úmido, reduzindo drasticamente a poeira e a emissão de gases associadas à obra tradicional. Uma construção convencional desse porte levaria cerca de dois anos para ficar pronta. A BSB afirma que seu sistema reduz os custos de obra entre 20% e 40%, e que a Mini Sky City custou cerca de 700 dólares por metro quadrado. Esses números colocam a empresa no centro do debate global sobre o futuro da construção civil.

Separando o fato do exagero nos projetos chineses

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

É importante tratar com cautela algumas afirmações que circulam sobre esses prédios. A Broad Group divulga que seus módulos são até 100 vezes mais resistentes sob carga que painéis de concreto convencionais, que cada estrutura resiste a um terremoto de magnitude 9 e que a vida útil dos edifícios chega a mil anos. Esses dados, no entanto, vêm de material institucional da própria empresa e não foram confirmados de forma independente em fontes técnicas acessíveis publicamente, razão pela qual devem ser tratados como alegações do fabricante, e não como fatos consolidados.

O mesmo vale para o projeto mais ambicioso da companhia, o Sky City, que seria uma torre de 202 andares e ultrapassaria o Burj Khalifa como o prédio mais alto do mundo. As obras começaram com fundação em julho de 2013, mas foram rapidamente paralisadas por questões regulatórias e logísticas, e o projeto acabou nunca sendo concluído. O episódio mostra que, mesmo com um método de construção revolucionário, fatores como aprovação de órgãos públicos e cadeia de fornecimento continuam sendo barreiras reais para a escala desse tipo de tecnologia.

A impressão 3D de casas como tecnologia paralela

Enquanto a Broad Group empilha módulos, outra empresa chinesa apostou em um caminho diferente: imprimir prédios. A WinSun, com operação na região de Xangai, desenvolveu um método de impressão 3D industrial em que bicos gigantes depositam, em camadas, uma mistura de resíduos de construção reciclados e cimento de secagem rápida. Em 2014, a empresa anunciou ter produzido 10 casas completas em 24 horas, cada uma estruturalmente sólida e habitável, em uma demonstração que também repercutiu mundialmente.

Segundo a WinSun, o método reduz o uso de material entre 30% e 60% em comparação com a construção tradicional, além de diminuir drasticamente a necessidade de mão de obra. As aplicações apontadas incluem habitação popular, abrigos de emergência para vítimas de desastres e projetos de desenvolvimento rural no Sudeste Asiático e na África. Embora a técnica seja completamente diferente do empilhamento modular da Broad Group, a lógica de fundo é a mesma: tirar a construção do canteiro aberto e transferi-la para sistemas automatizados, controlados e repetíveis.

O mercado global de construção modular e o apoio dos governos

Esse movimento não é isolado nem restrito à China. O mercado global de construção modular foi estimado em cerca de 95 bilhões de dólares em 2025, com projeções de ultrapassar 175 bilhões de dólares até 2034, segundo levantamentos de mercado. A região Ásia-Pacífico concentra aproximadamente 45% desse total, e a China lidera a taxa de crescimento na região, impulsionada por investimentos públicos massivos em habitação e infraestrutura.

Outros países também avançam nessa direção. Singapura exige métodos modulares em parte de sua habitação pública, o Reino Unido injetou bilhões em projetos de construção fora do canteiro, e Japão e Coreia do Sul vêm escalando sistemas pré-fabricados nos setores residencial e comercial. Esse cenário mostra que a construção industrializada deixou de ser um experimento de nicho para se tornar uma aposta institucional, sustentada por política pública e capital de grande porte em vários continentes.

Por que o resto do mundo ainda constrói do jeito antigo

Diante de tantas vantagens aparentes, surge a pergunta: por que a maior parte do mundo ainda constrói como há meio século? A resposta passa, em grande medida, pela regulação. Os códigos de obras da maioria dos países foram escritos em torno de concreto e madeira, não de módulos de aço pré-fabricados unidos por parafusos. Adaptar normas, ensaios e certificações a esse novo paradigma é um processo lento, que envolve segurança estrutural, seguros e responsabilidade civil.

Há também a inércia do mercado. Incorporadoras já têm cadeias de fornecimento estabelecidas em torno do modelo tradicional, e mudar de escala ameaça setores inteiros da indústria, da produção de cimento à mão de obra de canteiro. Some-se a isso o envelhecimento da força de trabalho da construção em países desenvolvidos e a escassez global de moradias, estimada em cerca de 100 milhões de unidades, e fica claro que existe demanda. A tecnologia existe, o capital existe, mas a difusão da construção modular ainda esbarra em barreiras regulatórias e culturais que levam tempo para serem superadas.

A história de Zhang Yue e da Broad Sustainable Building é, ao mesmo tempo, inspiradora e um alerta contra o exagero. É real que um ex-fabricante de ar-condicionado ajudou a redefinir a velocidade possível na construção de arranha-céus, com método premiado e resultados verificáveis. Mas é igualmente real que os 19 dias famosos escondem meses de fabricação anterior, que vários números espetaculares são alegações da própria empresa e que o projeto mais ambicioso da companhia jamais saiu do chão. O futuro da construção provavelmente passa por esse caminho industrializado, mas com mais cautela do que os vídeos virais costumam sugerir.

Você moraria em um prédio erguido com módulos pré-fabricados empilhados como peças de montar, ou ainda confia mais na construção tradicional de concreto? Acha que esse modelo pode dar certo no Brasil, considerando nossa regulação e nosso clima? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre a construção modular e compartilhe a matéria com engenheiros, arquitetos e quem acompanha inovação no setor da construção civil.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x