Um dos endereços mais conhecidos da parte alta da Rua Conde de Bonfim pode deixar para trás décadas de degradação. O terreno do antigo Carrefour da Usina foi comprado pela Direcional e deve ganhar um empreendimento residencial de grande porte.
O terreno que abrigou uma antiga unidade do Carrefour na região da Usina, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, deverá ganhar novo destino depois de quase duas décadas fechado. Segundo o Diário do Rio e a Agenda do Poder, o imóvel foi vendido para a construtora Direcional, que pretende erguer um condomínio habitacional com aproximadamente 600 unidades residenciais distribuídas em 10 blocos.
O número chama atenção porque transforma um prédio conhecido pelo abandono em mudança relevante na parte alta da Rua Conde de Bonfim. Construído em 1997 pelo Grupo Carrefour, o antigo supermercado está desativado desde fevereiro de 2005.
Um supermercado fechado virou símbolo de abandono na Usina

O imóvel fica na Rua Conde de Bonfim, 1181, na subida para o Alto da Boa Vista. De acordo com o Diário do Rio, a antiga unidade tinha cerca de 3 mil metros quadrados e encerrou as atividades em meio ao cenário de violência que atingia aquela parte da Tijuca nos anos 2000.
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Relatos da época, mencionados nas fontes consultadas, apontam que tiroteios e episódios de saques ao supermercado contribuíram para o fechamento da loja. A proximidade com as comunidades do Borel e da Indiana ajudou a transformar a unidade em exemplo de como a insegurança pode alterar a rotina comercial de um bairro.
Depois disso, o prédio deixou de ser apenas um antigo ponto de compras. Com o passar dos anos, passou a representar uma área parada, sem uso definido e com sucessivas tentativas frustradas de reaproveitamento.
Venda para a Direcional muda área parada desde 2005
A nova etapa começa com a venda do terreno para a Direcional, construtora conhecida por atuar em empreendimentos habitacionais populares. Segundo o Diário do Rio e a Agenda do Poder, o projeto para a área contempla cerca de 600 unidades em 10 blocos.
O Grupo Direcional afirma atuar em construção e incorporação com foco em moradias populares. Esse perfil ajuda a explicar o tipo de projeto anunciado para o antigo terreno do Carrefour.
Ainda não há, nas informações levantadas, detalhes públicos sobre nome comercial, metragem dos apartamentos, preços, vagas, cronograma ou início das obras. Por enquanto, o dado mais concreto é a intenção de transformar um imóvel abandonado em moradia.
O impasse de ITBI que travou uma venda anterior

Antes da chegada da Direcional, o imóvel já havia sido alvo de outras tentativas. Uma delas ocorreu em 2009, quando uma negociação com a Realesis Holding S.A. foi estimada em cerca de R$ 14 milhões.
A operação acabou envolvida em uma disputa sobre a cobrança do ITBI. O caso aparece no Acórdão nº 14.727 do Conselho de Contribuintes do Município do Rio de Janeiro, que analisou a cobrança relacionada à promessa de compra e venda do imóvel.
O documento mostra a diferença entre valores. O valor declarado pela adquirente era de R$ 14 milhões, enquanto a base de cálculo do ITBI chegou a R$ 99,27 milhões. Depois, uma avaliação técnica apontou R$ 96,12 milhões. Esse conflito fiscal ajuda a explicar por que o prédio continuou parado mesmo após negociações anteriores.
De possível BOPE a centro Covid, planos ficaram pelo caminho
O antigo Carrefour da Usina também foi lembrado em diferentes propostas. Segundo o Diário do Rio, o Governo do Estado chegou a estudar a desapropriação da área para instalar uma unidade do BOPE, mas a ideia não avançou.
Em outro momento, o imóvel apareceu em proposta ligada à criação de um centro de atendimento para pacientes com Covid 19. A iniciativa acabou arquivada. Na prática, o prédio acumulou planos que não se concretizaram, enquanto seguia sem função urbana clara.
Essa sequência reforça o peso da venda atual. O que antes parecia um terreno preso ao passado agora volta ao debate público com um projeto capaz de recolocar a área na dinâmica residencial da Tijuca.
Ocupações, lixo e operação com mais de 100 pessoas
O abandono também abriu espaço para ocupações. Em janeiro de 2025, uma operação envolvendo a Subprefeitura da Grande Tijuca, Guarda Municipal, Comlurb e policiais do Batalhão da Tijuca encontrou mais de 100 pessoas no antigo prédio.
Segundo o Diário do Rio, não houve prisões, e os ocupantes foram orientados a deixar o local. A ação também retirou duas carcaças de automóveis e cerca de 20 toneladas de lixo acumulado.
As fontes informam ainda que os acessos usados por ocupantes incluíam a parte dos fundos do terreno, área que faz divisa com a Floresta da Tijuca.
Caso vai além de um terreno vendido
A história do antigo Carrefour da Usina não é apenas a troca de dono de um imóvel. Ela reúne fechamento de supermercado, insegurança urbana, disputa tributária, propostas públicas abandonadas, invasões, lixo acumulado e agora um projeto habitacional com 600 unidades.
Se sair do papel, o condomínio da Direcional marcará uma virada em um endereço que ficou quase 20 anos associado ao abandono. O caso mostra como terrenos esquecidos em áreas consolidadas podem carregar muito mais do que concreto velho: eles revelam disputas, atrasos, fragilidades urbanas e a dificuldade de transformar espaços parados em solução real para a cidade.
