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Rocha que ficou escondida por décadas, parecia só uma pedra gigante de 300 toneladas, mas escavações revelaram urnas mortuárias e vestígios de até 11 mil anos em Bom Jardim, no interior de Pernambuco

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Escrito por Geovane Souza Publicado em 01/07/2026 às 09:06 Atualizado em 01/07/2026 às 09:09
Pedra do Navio em Bom Jardim é transformada em parque municipal após estudos apontarem vestígios funerários pré-históricos no local
Pedra do Navio em Bom Jardim é transformada em parque municipal após estudos apontarem vestígios funerários pré-históricos no local (Foto: Prefeitura Municipal de Bom Jardim)
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A Pedra do Navio, no Agreste de Pernambuco, saiu do abandono para virar parque municipal depois que pesquisas arqueológicas ligaram o local a comunidades pré-históricas. A formação de granito, com cerca de 10 metros de altura, guarda um histórico de urnas mortuárias, artefatos antigos e escavações feitas entre as décadas de 1960 e 1970.

Uma formação rochosa de aproximadamente 300 toneladas virou o centro de uma nova rota turística em Bom Jardim, no Agreste de Pernambuco.

Conhecida como Pedra do Navio, ela chama atenção pelo formato que lembra uma embarcação antiga e pelo passado arqueológico ligado a povos que ocuparam a região há milhares de anos.

O ponto fica às margens da PE-088, a cerca de 2 quilômetros do centro da cidade. Depois de décadas parcialmente coberta por vegetação, terra acumulada e pouca estrutura ao redor, a área foi transformada em Parque Municipal Pedra do Navio.

Segundo informações da Prefeitura Municipal de Bom Jardim, pesquisas realizadas entre 1968 e 1974 pelo arqueólogo Armand Laroche, com apoio do Laboratório de Carbono-14 do Principado de Mônaco, indicaram presença humana pré-histórica na área, com datações entre 11.000 e 1.000 anos antes do presente.

A rocha apareceu por inteiro depois da abertura de uma rodovia

Pedra do Navio não fazia parte da paisagem urbana de Bom Jardim
Pedra do Navio não fazia parte da paisagem urbana de Bom Jardim (Foto: Prefeitura Municipal de Bom Jardim)

A Pedra do Navio não fazia parte da paisagem urbana de Bom Jardim da forma como aparece hoje. Por muitos anos, apenas trechos da formação eram visíveis, o que ajuda a explicar por que ela ficou fora dos registros mais antigos da cidade, fundada em 1867.

A mudança começou na década de 1960, durante a abertura da PE-88. O corte da vegetação e a movimentação de terra revelaram a dimensão real do monólito, que passou a ser visto por moradores e pesquisadores com outro olhar.

O nome veio da própria forma da pedra. Vista de alguns ângulos, a estrutura granítica lembra o casco de um navio pousado em terra firme, imagem que acabou se tornando uma marca visual de Bom Jardim.

As escavações encontraram sinais de um possível cemitério antigo

O ponto mais relevante da história não está apenas no tamanho da rocha, mas no que apareceu no solo ao redor dela. Como informou o Diário do Litoral, escavações feitas nos anos 1970 revelaram urnas mortuárias, objetos de adorno e utensílios domésticos enterrados na região, o que levou pesquisadores a associar o local a práticas funerárias de antigas comunidades.

Esse tipo de achado muda a leitura do lugar. A Pedra do Navio deixa de ser apenas uma formação natural curiosa e passa a integrar um contexto de ocupação humana antiga no interior pernambucano.

Parte dos objetos encontrados foi encaminhada para preservação no Recife. Esse deslocamento é comum quando peças arqueológicas precisam de guarda técnica, controle de conservação e acesso a pesquisadores.

O achado ajuda a explicar a ocupação humana no Agreste pernambucano

A região de Bom Jardim fica no Agreste Setentrional de Pernambuco, área de transição entre zonas mais úmidas e o semiárido. Essa localização ajuda a entender por que comunidades antigas poderiam ter usado o território para moradia, deslocamento, coleta, caça e rituais funerários.

As datações citadas pela prefeitura colocam o sítio em uma faixa temporal ampla. Não se trata de um único momento de ocupação, mas de evidências distribuídas por milênios, entre grupos que viveram antes da colonização europeia e antes da formação dos municípios atuais.

No Brasil, vestígios como urnas, cerâmicas, ossadas, adornos e ferramentas ajudam arqueólogos a reconstruir hábitos de alimentação, rotas de circulação, formas de sepultamento e relações com o ambiente. No caso da Pedra do Navio, o interesse científico está justamente na combinação entre geologia, memória local e material arqueológico.

O cuidado com esse tipo de área não depende apenas do município. O Iphan informa que o patrimônio arqueológico brasileiro é protegido pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961, sendo considerado patrimônio cultural brasileiro e bem da União.

O antigo ponto esquecido agora tem área de lazer, esporte e turismo

A transformação da área em parque municipal mudou a relação da cidade com a Pedra do Navio. O espaço foi inaugurado em 5 de julho de 2024 e passou a reunir preservação histórica, lazer, cultura e esporte em uma área de 8.320 metros quadrados.

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Foto: Prefeitura Municipal de Bom Jardim

De acordo com a Revista Algomais, o projeto teve investimento de R$ 4,8 milhões e incluiu praça de alimentação com seis quiosques, palco para eventos, áreas esportivas, equipamentos de ginástica e plantio de 40 árvores adultas.

A estrutura também abriu espaço para artesanato local e atividades culturais. Para uma cidade do interior, esse tipo de equipamento tem peso econômico direto, porque atrai visitantes, movimenta pequenos comerciantes e cria demanda por guias, alimentação e serviços.

Bom Jardim fica a cerca de 100 quilômetros do Recife, de Caruaru e de Campina Grande. Essa posição facilita viagens curtas de fim de semana, principalmente para quem busca turismo de natureza, história regional e passeios familiares sem longos deslocamentos.

A preservação dos objetos é parte essencial da nova fase da Pedra do Navio

A revitalização resolve uma parte do problema, mas não encerra a responsabilidade sobre o sítio. Áreas com vestígios arqueológicos exigem sinalização adequada, controle de acesso em pontos sensíveis e orientação ao visitante para evitar danos, retirada de peças ou pisoteio em áreas de interesse científico.

O Museu do Homem do Nordeste, ligado à Fundação Joaquim Nabuco, abriga cerca de 16 mil peças relacionadas às heranças culturais de povos indígenas, do colonizador europeu e de africanos escravizados na formação do Nordeste.

Quando achados arqueológicos são preservados em instituições desse tipo, eles ganham documentação, possibilidade de estudo e melhores condições físicas de conservação. Para o público, também deixam de ser apenas objetos isolados e passam a fazer parte de uma narrativa maior sobre a ocupação do território.

No caso da Pedra do Navio, o desafio agora é equilibrar turismo e memória. O parque pode atrair moradores, estudantes e visitantes, mas a força do lugar está naquilo que ele revela sobre populações que viveram ali muito antes das estradas, das cidades e dos registros oficiais.

A Pedra do Navio virou atração, mas continua sendo um sítio de interesse histórico. O que você acha que deve pesar mais nesse tipo de espaço, o turismo local ou a preservação científica? Deixe seu comentário e conte se você visitaria um parque construído em torno de um achado arqueológico como esse.

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Geovane Souza

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