AllSpace usa reciclados, energia solar e design africano para criar moradia modular de baixo custo para deslocados na Nigéria.
Para a arquiteta e designer nigeriana Blossom Eromosele, a crise de moradia na Nigéria não era apenas um problema social abstrato, mas uma falha concreta de infraestrutura, dignidade e resposta humanitária. Dessa leitura nasceu a AllSpace, uma proposta de moradia modular solar criada para atender comunidades deslocadas com uma solução de baixo custo, inspirada em referências africanas e produzida com materiais reciclados.
O projeto ganhou projeção internacional justamente por combinar elementos raros no campo da habitação emergencial: baixo custo, energia solar, reciclados e uma linguagem arquitetônica que tenta aproximar o abrigo da ideia de lar. Segundo o United Nations Office for Partnerships, a AllSpace foi incluída na turma de 2025 do programa Creatives for Our Future, em parceria com a Swarovski Foundation.
Crise de moradia na Nigéria impulsionou a criação da AllSpace como moradia modular solar para comunidades deslocadas
Segundo o ArchDaily, a AllSpace foi concebida para responder à crise de deslocamento na Nigéria, em um contexto em que mais de 3,2 milhões de pessoas vivem em deslocamento interno por causa de conflitos no nordeste, eventos climáticos extremos e urbanização acelerada.
-
Cogumelos, cascas de laranja e resíduos agrícolas estão virando painéis de isolamento para construção, substituindo materiais convencionais por paredes cultivadas em vez de fabricadas
-
Casa feita com 1,5 tonelada de plástico reciclado fica pronta em 10 dias na Índia, tem paredes e telhado de resíduos prensados e muda a vida de uma catadora enquanto combate o lixo urbano
-
A Brightline vai ligar Los Angeles a Las Vegas em duas horas com o primeiro trem de alta velocidade elétrico dos EUA, a 320 km/h, numa obra de pelo menos 12 bilhões de dólares que promete tirar milhões de carros da estrada
-
Com o aluguel e o preço das casas empurrando jovens para as ruas, estudantes universitários criam um concreto ultraleve que resiste a furacões e leva mais de três horas para queimar, erguem com ele uma casa modular montável em três dias e a doam a quem escapou da rua
Nesse cenário, a proposta de Blossom Eromosele foi pensada para campos e assentamentos temporários que enfrentam carências severas de estrutura básica.
A publicação informa que muitos desses espaços sofrem com falta de saneamento, energia confiável, construções mais robustas e privacidade. A AllSpace surgiu como resposta direta a esse vazio, com a intenção de oferecer uma moradia temporária mais estável e menos precária para famílias em situação de vulnerabilidade.
Em vez de tratar a habitação emergencial como uma estrutura genérica e impessoal, o projeto foi desenhado para funcionar como alternativa mais humana e mais próxima da realidade local. Essa é a base que sustenta a AllSpace desde sua concepção.
Design inspirado na arquitetura tradicional africana fez a AllSpace buscar pertencimento, identidade e sensação real de lar
Um dos pontos mais marcantes da AllSpace está no uso de referências da arquitetura tradicional africana. De acordo com o ArchDaily, o desenho foi inspirado em formas vernaculares para que o abrigo não fosse percebido apenas como estrutura provisória, mas como espaço capaz de transmitir familiaridade e pertencimento.

Essa escolha dá ao projeto um peso que vai além da função técnica. Ao aproximar a moradia modular da memória cultural das comunidades afetadas, a proposta tenta reduzir a sensação de ruptura total que costuma acompanhar o deslocamento forçado e a perda da casa original.
No texto do United Nations Office for Partnerships, a AllSpace é descrita como uma solução habitacional de baixo custo, movida a energia solar e feita com materiais reciclados, criada como alternativa sustentável e escalável para comunidades deslocadas. A dimensão cultural reforça esse desenho mais amplo da proposta.
Materiais reciclados, energia solar e custo de US$ 120 transformaram a AllSpace em solução de moradia modular de baixo custo
Segundo a plataforma The World Around, cada unidade da AllSpace pode ser produzida localmente por cerca de US$ 120. As estruturas são feitas com lona reciclada e alumínio, além de incorporar energia solar como parte do funcionamento da moradia, combinando abrigo emergencial com autonomia energética básica.
O ArchDaily acrescenta que a proposta inclui um sistema de iluminação solar desenvolvido a partir de lixo eletrônico reutilizado e garrafas plásticas, em colaboração com Stanley Anigbogu, integrante da edição anterior do Creatives for Our Future. Isso amplia a lógica de circularidade do projeto e reforça o uso de resíduos como parte da infraestrutura essencial da habitação.
Além do custo reduzido, a AllSpace foi pensada para ser uma solução escalável. Na descrição publicada por The World Around, o envolvimento de pessoas refugiadas e deslocadas na montagem das unidades também aparece como parte do modelo, com potencial para gerar trabalho, fortalecer vínculos culturais e ampliar a autonomia das comunidades atendidas.
Reconhecimento internacional colocou Blossom Eromosele e a AllSpace no centro do debate sobre arquitetura humanitária e design sustentável
O reconhecimento institucional da AllSpace não ficou restrito ao circuito de arquitetura. O United Nations Office for Partnerships confirmou Blossom Eromosele entre os nomes da turma 2025 do programa Creatives for Our Future, apresentando o projeto como uma solução de habitação sustentável para comunidades deslocadas.
Na plataforma The World Around, Blossom é apresentada como vencedora do Young Climate Designer Award, com a AllSpace descrita como uma resposta de arquitetura climática, moradia modular e abrigo digno para pessoas vulneráveis na Nigéria. A combinação entre design vernacular, energia renovável e baixo custo foi o ponto central desse reconhecimento.
O ArchDaily informa que os próximos passos do projeto incluem testar e refinar protótipos em campo, com desenvolvimento de materiais adequados a diferentes ambientes, terrenos e necessidades culturais. A meta é expandir a solução para mais comunidades afetadas pelo deslocamento.
AllSpace mostra como moradia emergencial pode combinar arquitetura humanitária, sustentabilidade e dignidade habitacional
A força da AllSpace está em reposicionar a habitação emergencial como algo que precisa oferecer mais do que cobertura mínima. Com design inspirado em formas africanas, energia solar, reciclados e foco em produção local, o projeto tenta responder ao deslocamento forçado com uma proposta que reúne funcionalidade, identidade e custo reduzido.
Em um país pressionado por deslocamentos ligados a conflito, clima e fragilidade estrutural, a iniciativa de Blossom Eromosele passou a ser vista como exemplo de como arquitetura humanitária, design sustentável e moradia modular podem se cruzar em uma solução prática. Foi essa combinação que levou a AllSpace do campo conceitual para o radar internacional.

