Em Copenhague, resíduos de construção civil viraram moradias prontas em 2019. O projeto mostra por que tijolos reaproveitados podem reduzir descarte, mas exigem triagem, transporte, controle de qualidade e planejamento antes de voltar para uma nova obra.
Em vez de seguir para o descarte, tijolos retirados de prédios demolidos foram usados em 92 moradias do residencial Resource Rows, em Copenhague. Parte das peças veio da antiga cervejaria Carlsberg e foi colocada em fachadas que mantêm visíveis as cores, marcas e diferenças de cada material.
A obra foi concluída em 2019, no bairro de Ørestad, em Copenhague. A informação foi publicada por Danish Architecture Center, centro nacional de arquitetura da Dinamarca.
O caso ajuda a entender um problema comum na construção civil. Materiais ainda resistentes podem perder valor quando são misturados ao entulho, enquanto novas obras compram tijolos, madeira e janelas recém fabricados.
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De cervejaria demolida a fachada residencial em Copenhague
A fachada do Resource Rows foi montada com módulos de tijolos de um metro por um metro. As peças vieram de diversos prédios demolidos, com destaque para paredes retiradas da antiga cervejaria Carlsberg.
Os tijolos da cervejaria estavam presos por argamassa de cimento, material que dificulta a retirada de cada unidade sem causar quebra. Por isso, grandes partes das paredes antigas foram cortadas e transformadas em módulos maiores antes de seguir para a nova construção.

A diferença de tons, sinais de desgaste e formatos não foi escondida. A fachada usa essas marcas como parte do visual, deixando claro que os materiais tiveram uma vida anterior antes de voltar ao mercado.
Madeira e janelas recuperadas também ganharam nova função
Os tijolos não foram os únicos materiais recuperados. O projeto também usou madeira reaproveitada e janelas recuperadas, ampliando o uso de itens que poderiam ser descartados após obras, reformas e demolições.
A madeira usada em partes do residencial veio de sobras ligadas à construção do metrô de Copenhague. Há também pisos feitos com madeira que seria descartada por uma empresa do setor de pisos.
Danish Architecture Center, centro nacional de arquitetura da Dinamarca, detalhou que o pátio do conjunto recebeu um banco feito com madeira reaproveitada e que a passagem elevada entre os prédios também utiliza materiais retirados de uma fábrica demolida.
Por que tijolo usado ainda vale dinheiro na construção civil
Um tijolo usado pode continuar tendo valor quando está inteiro, limpo e adequado para uma nova função. O mesmo vale para madeira, portas, janelas e outras peças que mantêm condições de uso após uma demolição.
O problema aparece quando os materiais são retirados sem separação. Misturar tudo em uma caçamba aumenta a chance de quebra, sujeira e perda de peças que poderiam ser vendidas, reaproveitadas ou encaminhadas para reciclagem.
A reutilização não depende apenas de boa aparência. Cada material precisa passar por análise antes de entrar em uma nova obra, principalmente quando terá função importante na estrutura ou no fechamento de paredes.
O gargalo está em separar, testar e transportar cada peça
Reaproveitar materiais não é apenas retirar itens de um prédio antigo e levar para outro endereço. A etapa mais difícil envolve triagem, que é a separação do que ainda pode ser usado, e avaliação da condição de cada peça.
Também é preciso cuidar do transporte, do armazenamento e da limpeza. Tijolos quebrados, madeira úmida ou janelas com danos podem exigir reparo, ter uso limitado ou não servir para uma nova construção.
Outro ponto decisivo é a rastreabilidade. Em linguagem simples, isso significa registrar de onde veio o material, em que estado ele foi encontrado e onde será usado depois. Esse controle reduz dúvidas e ajuda a evitar o uso errado de peças recuperadas.
Brasil gerou cerca de 45 milhões de toneladas de resíduos de construção civil
Em 2022, o Brasil gerou cerca de 45 milhões de toneladas de resíduos de construção civil e demolição. Esse volume inclui sobras de obras, reformas, demolições, reparos e serviços de escavação.
ABREMA, associação brasileira de resíduos e meio ambiente, registrou que o Sudeste respondeu por 50,6% desse total no mesmo ano.
O dado brasileiro não permite comparar diretamente custos, exigências técnicas ou regras de Copenhague com as condições encontradas no Brasil. Mesmo assim, mostra o tamanho do desafio de separar materiais antes que eles percam valor no meio do entulho.
Reaproveitar materiais pode reduzir custos, mas não garante obra mais barata
O reaproveitamento pode diminuir gastos com compra de materiais novos e descarte. Porém, isso não significa que toda obra com itens usados será automaticamente mais barata.
A retirada cuidadosa, a limpeza, os testes, o armazenamento e o transporte podem aumentar o custo do processo. O resultado depende do estado de cada peça, da distância até a nova obra e da organização de quem faz a demolição.
O material consultado sobre o Resource Rows não apresenta uma comparação de custo entre uma obra tradicional e uma obra construída com materiais recuperados. Por isso, o ponto mais seguro é que a reutilização exige planejamento e pode trazer economia apenas quando a cadeia funciona de forma organizada.
As 92 moradias de Copenhague mostram que resíduos de construção civil podem voltar para o mercado sem esconder sua origem. Os tijolos da antiga cervejaria Carlsberg passaram de paredes demolidas para uma fachada residencial com identidade própria.
Para cidades que geram grandes volumes de entulho, o principal desafio é impedir que materiais ainda úteis se percam antes de serem avaliados. Separar, identificar e dar destino correto a cada item pode abrir espaço para novas obras com menos descarte.
Você acredita que construtoras deveriam separar tijolos, madeira e janelas ainda no início da demolição para reduzir desperdício e criar novas fontes de materiais para obras?
