Empresa britânica usa cogumelos, cascas de laranja e resíduos agrícolas para criar painéis de isolamento biodegradáveis para a construção civil.
A construção civil está entre os setores que mais consomem matérias-primas no planeta, enquanto toneladas de resíduos agrícolas e alimentares continuam sendo descartadas diariamente. No Reino Unido, uma empresa decidiu unir esses dois problemas em uma única solução: cultivar materiais de construção utilizando fungos, cascas de frutas e resíduos da indústria alimentícia.
A britânica Biohm desenvolveu painéis de isolamento feitos com micélio, a estrutura filamentosa que funciona como sistema radicular dos fungos, combinada com resíduos orgânicos provenientes da agricultura e da indústria de alimentos. Segundo o Fórum Econômico Mundial, a tecnologia utiliza cascas de laranja, cascas de cacau, subprodutos agrícolas e outros materiais que normalmente seriam descartados, transformando-os em componentes para edifícios mais sustentáveis.
Micélio de cogumelos está sendo usado para criar painéis de isolamento biodegradáveis para casas e edifícios
Ao contrário dos materiais convencionais, produzidos em processos industriais intensivos em energia, os painéis desenvolvidos pela Biohm são literalmente cultivados.
-
Crise da moradia na Nigéria ganha uma resposta radical: arquiteta transforma resíduos reciclados em casas modulares solares montadas em 4 horas para famílias sem condições
-
Casa feita com 1,5 tonelada de plástico reciclado fica pronta em 10 dias na Índia, tem paredes e telhado de resíduos prensados e muda a vida de uma catadora enquanto combate o lixo urbano
-
A Brightline vai ligar Los Angeles a Las Vegas em duas horas com o primeiro trem de alta velocidade elétrico dos EUA, a 320 km/h, numa obra de pelo menos 12 bilhões de dólares que promete tirar milhões de carros da estrada
-
Com o aluguel e o preço das casas empurrando jovens para as ruas, estudantes universitários criam um concreto ultraleve que resiste a furacões e leva mais de três horas para queimar, erguem com ele uma casa modular montável em três dias e a doam a quem escapou da rua
Segundo o Fórum Econômico Mundial, o micélio cresce sobre resíduos agrícolas e alimentares, formando uma rede natural capaz de unir partículas orgânicas sem necessidade de colas sintéticas ou derivados petroquímicos. Após atingir o formato desejado, o crescimento é interrompido por meio de um processo térmico, transformando o material em um produto estável e pronto para uso na construção civil.
O resultado é um painel de isolamento térmico produzido a partir de recursos renováveis, biodegradável e com potencial para substituir materiais tradicionais que apresentam elevada pegada de carbono.
Cascas de laranja, resíduos de cacau e subprodutos agrícolas deixam de ser lixo para virar matéria-prima da construção sustentável
A empresa também desenvolveu um material chamado ORB, sigla para Organic Refuse Biocompound. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, o ORB é produzido com resíduos provenientes da agricultura e da indústria alimentícia, utilizando um ligante de origem vegetal para formar chapas que podem substituir painéis derivados da madeira. O produto é descrito pela empresa como 100% biodegradável e vegano, podendo ser moldado em diferentes formatos e aplicações.
Além de cascas de laranja, a Biohm afirma utilizar resíduos como cascas de cacau, subprodutos agrícolas e outras biomassas descartadas em larga escala. A proposta é criar uma cadeia produtiva baseada em economia circular, na qual o desperdício de um setor se transforma em matéria-prima de outro.
Construção civil enfrenta pressão crescente para reduzir emissões e reaproveitar resíduos
O interesse por biomateriais cresce em um momento em que a construção civil enfrenta desafios ambientais cada vez maiores. Segundo dados citados pelo AskNature, plataforma vinculada ao Biomimicry Institute, o Fórum Econômico Mundial estima que os resíduos gerados pela construção poderão alcançar 2,2 bilhões de toneladas anuais até 2025, enquanto aproximadamente um terço dos alimentos produzidos no planeta é desperdiçado.
Nesse cenário, materiais produzidos com fungos aparecem como alternativa para reduzir a dependência de insumos convencionais, diminuir o descarte de resíduos orgânicos e reduzir emissões associadas à fabricação de materiais industriais. Especialistas apontam que o potencial desses produtos vai além do isolamento térmico, podendo incluir chapas estruturais, revestimentos internos, mobiliário e aplicações arquitetônicas mais amplas.
Fungos podem ajudar a criar edifícios mais eficientes e com menor pegada de carbono
Outro diferencial do micélio é sua capacidade natural de crescimento. Segundo a Biohm, o fungo forma pequenas bolsas de ar durante seu desenvolvimento, característica que contribui para propriedades isolantes e para a regulação de umidade no ambiente construído. Alguns estudos também investigam o potencial desses materiais para sequestrar carbono durante sua fase produtiva, embora a quantificação desse benefício ainda dependa de análises específicas de ciclo de vida.
A empresa afirma ainda que seus materiais foram concebidos para integrar sistemas circulares, permitindo reaproveitamento ou biodegradação ao final da vida útil, reduzindo a geração de resíduos permanentes. Em vez de produzir placas de isolamento em fornos industriais alimentados por combustíveis fósseis, a proposta é utilizar organismos vivos para cultivar componentes capazes de crescer praticamente sozinhos.
Paredes cultivadas podem representar uma das mudanças mais radicais já vistas na indústria da construção
A ideia de construir casas usando fungos pode parecer ficção científica, mas já está deixando os laboratórios e chegando aos primeiros projetos comerciais. Segundo o Fórum Econômico Mundial, a Biohm integra iniciativas internacionais voltadas à economia circular e ao desenvolvimento de materiais regenerativos, buscando provar que edifícios do futuro podem ser produzidos a partir de recursos considerados resíduos hoje.
Se durante décadas a construção civil dependeu de cimento, aço, concreto e derivados petroquímicos, uma nova geração de materiais começa a mostrar que parte das cidades do futuro talvez possa ser cultivada em vez de fabricada. A pergunta agora é outra: quantos dos resíduos produzidos diariamente pela agricultura e pela indústria alimentícia ainda podem se transformar em casas, escritórios e edifícios inteiros?
