Interceptações de navios petroleiros no Caribe, determinadas pelo governo Trump, já reduzem exportações de petróleo da Venezuela e ampliam a pressão econômica sobre o regime de Nicolás Maduro.
O endurecimento das ações dos Estados Unidos contra a Venezuela ganhou força em dezembro, após o anúncio de um bloqueio a embarcações que entram ou saem do país. A medida faz parte da estratégia do governo do presidente Donald Trump para ampliar a pressão política e econômica sobre o regime de Nicolás Maduro, tendo o petróleo como principal alvo.
Desde então, ao menos três grandes navios petroleiros foram alvo de tentativas de interceptação por autoridades norte-americanas. As ações ocorreram ao longo da primeira quinzena de dezembro e já mostram efeitos concretos sobre o fluxo de exportação venezuelano, segundo dados de rastreamento marítimo.
Navios de grande porte entram no radar das autoridades americanas
Todos os navios envolvidos nas operações são petroleiros de grande capacidade, usados no transporte de petróleo cru. De acordo com informações oficiais do governo dos Estados Unidos e dados de rastreamento marítimo, as embarcações têm capacidade superior a 300 mil toneladas.
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As interceptações foram informadas entre os dias 10 e 21 de dezembro e envolveram navios que navegavam sob bandeiras da Guiana e do Panamá. No setor marítimo, a bandeira indica o país de registro da embarcação, o que não representa, necessariamente, a origem da carga ou da empresa responsável.
Ainda assim, o uso dessas bandeiras levantou questionamentos. A autoridade marítima da Guiana afirmou que uma das embarcações utilizava o registro do país de forma irregular e não constava nos cadastros oficiais.
Skipper foi apreendido e levantou alerta sobre uso irregular de bandeiras
Entre os navios interceptados está o Skipper, um petroleiro de grandes proporções. A embarcação tem cerca de 333 metros de comprimento, o equivalente a mais de três campos de futebol enfileirados, e capacidade máxima estimada em aproximadamente 310 mil toneladas de petróleo cru.
A interceptação do Skipper foi informada no dia 10 de dezembro, após a apreensão do navio pelos Estados Unidos próximo à costa venezuelana. Embora aparecesse em sistemas de rastreamento navegando sob bandeira da Guiana, o governo guianense declarou que o uso do registro era irregular.
Em nota, a autoridade marítima do país afirmou ter identificado uma “tendência inaceitável” de uso não autorizado da bandeira nacional por embarcações que não estão registradas oficialmente.
Centuries é apontado como parte da chamada frota fantasma
Outro caso relevante envolve o petroleiro Centuries. O navio aparecia navegando sob bandeira do Panamá e teve sua interceptação informada no dia 20 de dezembro, durante a madrugada de um sábado, em operação conduzida pelos Estados Unidos nas proximidades da Venezuela.
Segundo a Casa Branca, o Centuries operava com bandeira falsificada e integrava a chamada “frota fantasma” venezuelana. Esse termo é usado para descrever embarcações que ocultam sua identidade ou desligam sistemas de rastreamento para transportar petróleo considerado irregular pelas autoridades americanas.
Bella 1 escapa do cerco após versões contraditórias
Já no domingo (21), autoridades informaram uma tentativa de interceptação do petroleiro Bella 1. Ao longo do dia, no entanto, surgiram versões divergentes sobre o ocorrido.
A agência Bloomberg noticiou que os Estados Unidos teriam abordado o navio, identificado como uma embarcação sob bandeira do Panamá. Por outro lado, fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que, apesar da perseguição em águas internacionais no Caribe, o petroleiro ainda não havia sido abordado naquele momento.
Na segunda-feira seguinte, foi confirmado que o Bella 1 conseguiu escapar do cerco americano. Dados do site MarineTraffic indicavam que o navio navegava sob bandeira da Guiana e tinha como destino Curaçao, ilha holandesa no Caribe. A embarcação possui cerca de 333 metros de comprimento, 60 metros de largura e capacidade superior a 318 mil toneladas de petróleo cru.
Tráfego de petroleiros cai e exportações são afetadas
Os efeitos das interceptações começaram a aparecer rapidamente. Dados de empresas especializadas em monitoramento marítimo indicam uma queda acentuada no tráfego de navios petroleiros em águas venezuelanas após o aumento das ações de fiscalização no Caribe.
Levantamentos da Kpler, plataforma especializada em dados de rastreamento de navios e fluxos globais de petróleo, mostram que parte significativa das embarcações passou a evitar rotas associadas à Venezuela ou permaneceu parada.
A estimativa é de que mais de 16 milhões de barris estejam armazenados em petroleiros parados em águas venezuelanas ou nas proximidades do país. O número inclui navios já carregados e outros que aguardam autorização para carregamento.
Ritmo de carregamento diminui nas últimas semanas
Além disso, o ritmo de carregamentos de petróleo caiu de forma relevante nas últimas semanas. Segundo a Kpler, os volumes ficaram cerca de um quarto abaixo do patamar recente de exportações observado nos meses anteriores.
Informações compiladas pela Reuters, com base em dados da plataforma Refinitiv Eikon, indicam que o movimento de navios entrando e saindo de águas venezuelanas praticamente parou após as primeiras interceptações.
De acordo com a agência, apenas embarcações que operam sob licenças específicas concedidas pelo governo dos Estados Unidos continuam exportando petróleo venezuelano.
Petróleo venezuelano concentra interesse estratégico dos EUA
A Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a aproximadamente 17% do volume global conhecido, segundo a Energy Information Administration (EIA), órgão oficial de estatísticas energéticas dos Estados Unidos.
O país supera produtores como Arábia Saudita, com 267 bilhões de barris, e Irã, com 209 bilhões. Apesar disso, grande parte do petróleo venezuelano é extra-pesado, o que exige tecnologia avançada e investimentos elevados para extração.
Na prática, o potencial permanece subaproveitado devido à infraestrutura precária e às sanções internacionais que limitam o acesso a capital e tecnologia.
Interesse econômico e pressão política caminham juntos
Segundo a EIA, o petróleo pesado da Venezuela “é bem adequado às refinarias norte-americanas, especialmente às localizadas ao longo da Costa do Golfo”. Nesse cenário, a estratégia do governo Trump atende a dois objetivos simultâneos.
Por um lado, busca favorecer a economia dos Estados Unidos. Por outro, pressiona diretamente a produção e as exportações de petróleo da Venezuela, setor central para a economia do país e para a sustentação do governo de Nicolás Maduro.
Os efeitos iniciais dessa política já começaram a se materializar. Reportagem da Bloomberg News indicou que Caracas enfrenta dificuldades para armazenar petróleo, em meio às medidas de Washington para impedir que navios atracem ou deixem portos venezuelanos.
Frota fantasma e papel da China no mercado de petróleo
Desde a imposição de sanções ao setor de energia venezuelano, em 2019, comerciantes e refinarias que compram petróleo do país passaram a recorrer com mais frequência à frota fantasma. Essas embarcações ocultam sua localização e, muitas vezes, já foram sancionadas por transportar petróleo do Irã ou da Rússia.
A China segue como a maior compradora do petróleo bruto venezuelano. O volume responde por cerca de 4% das importações chinesas. Em dezembro, os embarques devem alcançar uma média superior a 600 mil barris por dia, segundo analistas ouvidos pela Reuters.
Atualmente, o mercado global de petróleo permanece bem abastecido. Milhões de barris seguem armazenados em navios-tanque ao largo da costa chinesa, aguardando descarregamento.
Caso o bloqueio se prolongue, analistas avaliam que a retirada de quase um milhão de barris por dia da oferta global tende a pressionar os preços internacionais do petróleo.
Operações se ampliam em meio a ações militares no Caribe
As interceptações de petroleiros ocorrem paralelamente a uma ordem de Trump ao Departamento de Defesa para realizar ataques contra embarcações no Caribe e no Oceano Pacífico. Segundo a administração americana, esses navios estariam envolvidos no contrabando de fentanil e outras drogas ilegais.
Desde o início de setembro, ao menos 104 pessoas foram mortas em 28 ataques conhecidos, de acordo com informações divulgadas por autoridades e veículos internacionais.
Em entrevista à revista Vanity Fair, publicada nesta semana, a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, afirmou que Trump “quer continuar explodindo barcos até Maduro gritar ‘tio’.”


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