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Mulher deixa Belo Horizonte após perder o pai, volta para a fazenda da família no Serro e transforma um queijo artesanal em símbolo de coragem, sucessão feminina e tradição mineira reconhecida entre os melhores do mundo

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/06/2026 às 07:10
Assista o vídeoMulher deixa Belo Horizonte após perder o pai, volta para a fazenda da família no Serro e transforma um queijo artesanal de mais de 300 anos
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Christiane Brandão voltou para a fazenda da família no Serro após a morte do pai e transformou o Queijo Maria Nunes em referência internacional.

Em 2012, a vida de Christiane Brandão mudou de forma brusca. Formada em Sistemas de Informação e vivendo em Belo Horizonte, ela viu a carreira urbana ser interrompida pela morte do pai e decidiu voltar para a Fazenda Maria Nunes, em Santo Antônio do Itambé, na região do Serro, para assumir uma produção familiar que precisaria praticamente ser reerguida do zero. O que parecia apenas um retorno forçado ao campo acabou se transformando em uma das histórias mais fortes do queijo artesanal mineiro. Segundo o Sebrae Minas, Christiane se tornou a primeira mulher a assumir o comando da fazenda em cinco gerações e levou o Queijo Maria Nunes a um patamar de reconhecimento nacional e internacional.

Christiane Brandão voltou ao Serro e assumiu um legado de quase 300 anos do queijo mineiro

A trajetória de Christiane tem força justamente porque une ruptura pessoal, sucessão rural e preservação cultural. Segundo o Sebrae, ela nasceu e cresceu na roça, acompanhando o pai na produção de queijo e no manejo do gado, mas saiu para estudar e construir carreira na capital. O retorno à fazenda só se tornou definitivo depois do luto e da necessidade de reorganizar a propriedade familiar.

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Ao voltar, ela não encontrou um negócio pronto esperando continuidade automática. A própria produtora relatou que precisou aprender e reaprender de forma desafiadora, conduzindo inventário, gestão e reconstrução da atividade. O peso da sucessão foi ampliado pelo fato de ela assumir um espaço que historicamente não era ocupado por mulheres na família.

Essa história se conecta diretamente com a tradição do Queijo Minas Artesanal do Serro, cuja produção, segundo o Sebrae Minas e o Iphan, remonta a pelo menos três séculos e integra um modo de fazer enraizado na identidade cultural das montanhas mineiras.

Queijo Maria Nunes nasceu em região histórica e preserva o modo artesanal reconhecido pelo Iphan

O peso do Queijo Maria Nunes não vem apenas da qualidade atual, mas também do território em que ele é produzido. Segundo o Sebrae Minas, a região do Serro, na Cordilheira do Espinhaço, reúne altitude, clima, água e solo que ajudam a formar o perfil sensorial do queijo local, produzido há cerca de 300 anos.

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Esse saber tradicional recebeu reconhecimento institucional. Segundo o Iphan, os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal foram registrados como Patrimônio Cultural do Brasil em 13 de junho de 2008 e tiveram o título revalidado em 2021, com ampliação da abrangência para as regiões produtoras hoje reconhecidas.

Isso significa que a produção de Christiane não está inserida apenas em um negócio rural, mas em uma cadeia cultural protegida e valorizada como patrimônio imaterial brasileiro. O queijo da fazenda carrega não só leite cru, pingo, coalho e sal, mas também um modo de fazer transmitido entre gerações no interior de Minas Gerais.

Produtora enfrentou resistência no campo e virou símbolo de sucessão feminina no queijo do Serro

Um dos aspectos mais marcantes da trajetória de Christiane é a questão de gênero. Segundo o Sebrae Minas, ela foi a primeira mulher da família a assumir a gestão da Fazenda Maria Nunes e enfrentou resistência em um ambiente rural tradicionalmente masculino.

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O próprio relato publicado pelo Sebrae Minas mostra que a desigualdade fazia parte da rotina da fazenda antes de sua chegada à liderança. Christiane afirmou que, no tempo do pai, havia apenas uma mulher trabalhando, recebendo menos que os homens mesmo exercendo funções equivalentes e até liderando a equipe. Ao assumir o negócio, ela passou a defender maior espaço feminino e equiparação dentro da propriedade.

Essa mudança fez a história dela ultrapassar a dimensão produtiva. O caso passou a ser visto também como exemplo de sucessão feminina no campo, em uma região onde a tradição do queijo é antiga, mas onde o comando dos negócios rurais nem sempre foi compartilhado da mesma forma entre homens e mulheres.

Apoio técnico e foco em qualidade levaram o Queijo Maria Nunes ao reconhecimento internacional

A virada da fazenda não aconteceu só pela sucessão. Segundo o Sebrae Minas, Christiane recorreu a suporte técnico para aperfeiçoar processos, elevar a qualidade do produto e fortalecer a gestão. Em 2015, ela passou a integrar o projeto Região do Serro, desenvolvido pelo Sebrae Minas, além de participar de ações ligadas à marca coletiva, cultura da cooperação e ao conselho regulador da Indicação Geográfica Serro.

Mulher deixa Belo Horizonte após perder o pai, volta para a fazenda da família no Serro e transforma um queijo artesanal de mais de 300 anos
queijo artesanal de mais de 300 anos

Os resultados apareceram de forma concreta. Segundo o Sebrae Minas, o Queijo Maria Nunes conquistou uma medalha de ouro e três medalhas de prata no Mondial du Fromage, na França. Na edição citada pela entidade, 250 jurados avaliaram 1.640 queijos, e o produto mineiro foi reconhecido como o 17º melhor queijo do mundo.

Esse salto internacional tem peso porque mostra como uma pequena produção familiar do interior de Minas Gerais conseguiu sair do luto, da reestruturação e da resistência local para disputar espaço simbólico com alguns dos queijos mais reconhecidos do planeta.

Queijo do Serro avança entre tradição, território e continuidade familiar

A história também não termina em Christiane. Segundo o Sebrae Minas, ela divide a gestão da fazenda com a filha Jady, o que reforça a continuidade familiar em torno do Queijo Maria Nunes. A sucessão, nesse caso, deixou de ser apenas preservação de patrimônio e passou a funcionar como projeto consciente de continuidade entre gerações.

Essa permanência importa porque a força do queijo artesanal do Serro depende justamente da sobrevivência das famílias produtoras e da manutenção do modo de fazer dentro do território. Sem sucessão, tradição e permanência no campo, a cadeia cultural do produto enfraquece. Com continuidade, ela se renova sem romper sua origem.

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No fim, a trajetória de Christiane Brandão resume três forças ao mesmo tempo: a dor pessoal que a levou de volta à fazenda, a reconstrução de uma propriedade familiar e a afirmação de um queijo mineiro que hoje carrega prestígio internacional sem abandonar a base artesanal que o tornou possível mesmo diante das mudanças das novas gerações.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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