Ailanthus altissima – Árvore-do-céu cresce rápido, altera solos e invade cidades na Europa, tornando-se uma das espécies invasoras mais difíceis de controlar.
Pouquíssimas pessoas fora do mundo da botânica conhecem a árvore-do-céu. Mas, para gestores ambientais europeus, urbanistas e pesquisadores de invasões biológicas, Ailanthus altissima virou motivo de alerta há mais de duas décadas. Originária da China, a espécie foi levada para a Europa ainda no século XVIII, inicialmente como planta ornamental e para reflorestamento urbano. Crescia rápido, resistia à poluição, suportava solos pobres e temperaturas extremas — exatamente o que as cidades industriais da época pediam. O problema é que, ao longo do tempo, essas mesmas características transformaram a árvore-do-céu em uma invasora biológica com impacto urbano e ecológico significativo.
Crescimento explosivo, reprodução em massa e resistência urbana
A árvore-do-céu reúne três características que explicam seu sucesso na Europa:
Crescimento acelerado
Em condições ideais, pode crescer 1,5 a 2 metros por ano, alcançando mais de 20 metros de altura na fase adulta. Esse ritmo supera várias espécies nativas de florestas temperadas.
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Reprodução agressiva
A Ailanthus produz grande quantidade de sementes aladas (samarras) que podem ser dispersas pelo vento a longas distâncias. Além disso, forma rebrotas vigorosas a partir das raízes, o que dificulta erradicação mecânica.
Resistência a ambientes degradados
Ela suporta solos compactados, poluição, calor extremo, sais de degelo usados em estradas e baixa disponibilidade hídrica, condições que eliminam a maioria das árvores nativas.
Por isso, hoje ela ocupa bordas de rodovias, linhas ferroviárias, muros, calçadas, parques urbanos, construções abandonadas e taludes de rios, avançando tanto em áreas urbanas quanto rurais.
Alelopatia: como a árvore intoxica o solo e inibe concorrentes
Uma das armas mais eficientes da Ailanthus é a alelopatia, um fenômeno químico em que plantas liberam substâncias no solo para dificultar o crescimento de outras espécies.
O composto ailantona, presente nas raízes e folhas, inibe a germinação e o crescimento de plantas nativas, modificando o equilíbrio competitivo da vegetação. Isso explica por que, em locais dominados pela árvore-do-céu, a flora tende a se tornar pobre e homogênea.
Esse tipo de interferência biogeoquímica está documentado em revistas e institutos europeus especializados em invasões biológicas e explica parte do seu sucesso ecológico fora da Ásia.
Impacto em insetos, aves e cadeias ecológicas
A árvore-do-céu pode alterar comunidades biológicas de diferentes maneiras:
Insetos:
Há registros de efeitos tóxicos sobre algumas larvas e herbívoros, reduzindo a diversidade de insetos em áreas invadidas.
Aves:
Como floresta homogênea não oferece variedade de sementes e insetos, áreas tomadas por Ailanthus tendem a atrair menos espécies de aves, reduzindo a complexidade ecológica.
Plantas nativas:
Espécies típicas de reflorestamento europeu, como carvalho, faia, sorveira e bétula, perdem território devido à concorrência química e estrutural.
O resultado visível é um processo conhecido como substituição ecológica, em que uma espécie exótica ocupa o nicho de diversas nativas ao mesmo tempo.
Do jardim ao problema continental: o caso europeu
Hoje, a árvore-do-céu é considerada invasora em diversos países europeus, como:
• Alemanha
• Itália
• Espanha
• França
• Suíça
• Áustria
• Romênia
• Hungria
Em alguns deles, gestores estimam milhares de hectares dominados pela espécie, especialmente próximos a ferrovias e áreas industriais, onde a vegetação sofre distúrbios frequentes — ambiente ideal para plantas colonizadoras.
A situação chamou tanto a atenção que a União Europeia listou a Ailanthus como espécie exótica invasora de preocupação continental, exigindo planos de manejo e limitação de plantio em áreas públicas.
Por que é tão difícil controlar a árvore-do-céu
Erradicar a espécie é difícil por dois motivos:
Rebrotas subterrâneas
Se cortada sem tratamento adequado, o sistema radicular envia dezenas de brotos novos, ampliando a infestação.
Tolerância a herbicidas
Ela apresenta resistência parcial a alguns herbicidas comuns e exige técnicas específicas de aplicação, como anelamento + herbicida sistêmico.
Essa capacidade de regeneração é comparável à de invasores muito conhecidos, como kudzu nos EUA e giesta-amarela na Península Ibérica.
A pergunta inevitável: ela é só vilã?
Curiosamente, pesquisadores lembram que a espécie tem usos positivos no seu ambiente original (Ásia), incluindo:
• madeira leve
• melífera para apicultura
• uso medicinal tradicional
• resistência urbana
O problema não está na espécie em si, mas na introdução fora do seu ecossistema, onde não enfrenta seus predadores naturais, pragas e patógenos reguladores.
Um caso exemplar do século XXI
A árvore-do-céu se tornou um símbolo de um debate maior: como o século XXI lida com invasões biológicas em cidades.
Enquanto a maioria das espécies invasoras é discutida no contexto rural ou florestal, a Ailanthus mostra que a urbanização também cria ecossistemas e que esses ecossistemas podem, intencionalmente ou não, selecionar organismos extremamente competitivos.
Para especialistas, o grande desafio agora não é apenas erradicar a árvore-do-céu, mas redefinir a relação entre cidade, biodiversidade e espécies exóticas, entendendo que o futuro ambiental da Europa também será decidido no asfalto, no concreto e nas ferrovias.


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