Terremotos de 2023 entre 4,5 e 5,6 sacudiram Meusu e expuseram barragens que seguram pasta de urânio e rádio. Com 23 depósitos e até 106 milhões de pés cúbicos, o risco ameaça a bacia do Syr Daria. Casos na Zâmbia e no Brasil mostram o preço em vidas e lavouras.
Depois dos terremotos de 2023, entre magnitudes 4,5 e 5,6, moradores do vale de Meusu, no Quirguistão, respiraram aliviados ao perceber que as barragens nas montanhas não racharam. O alívio, porém, não veio por elas serem robustas, e sim por uma ideia simples e assustadora: basta uma ruptura para desencadear um colapso em cadeia.
O problema é que essas barragens não seguram água. Elas seguram rejeitos de urânio e seus resíduos, uma massa que pode escorrer como pasta úmida, com potencial de atingir rios, agricultura e milhões de pessoas. E, quando se olha para o que já ocorreu em outros países, fica claro que barragens que falham não deixam só um rastro ambiental: elas reorganizam economias inteiras.
O que existe atrás das barragens nas montanhas do Quirguistão
O risco atual nasce de um legado do fim da década de 1940, quando a União Soviética acelerou a busca por urânio para alcançar os Estados Unidos.
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A operação no vale do rio Meusu começou em 1946, em uma área remota, cercada por montanhas e pouco marcada em mapas. Perto dali, o assentamento de Meusu cresceu para sustentar a indústria do urânio e virou uma cidade fechada, registrada com nome de código: Caixa Postal 200.
Com o colapso da União Soviética em 1991, a corrida armamentista terminou, mas o problema ficou. O Quirguistão herdou os rejeitos de urânio, resíduos que ainda contêm urânio e materiais como rádio e tório, além dos produtos de sua deterioração.
Não é resíduo que “envelhece” até ficar inofensivo dentro da vida humana. O que define o risco é onde ele está e como foi confinado.
Na área de Meusu, os números mostram a escala: há 23 depósitos de rejeitos e 13 aterros de minas. Juntos, armazenam entre 67 e 106 milhões de pés cúbicos de lixo radioativo em um vale com rio, encostas íngremes e solos instáveis.
As barragens nessa região viram, na prática, a única barreira física entre essa massa e o ambiente ao redor.
Por que essas barragens são tão vulneráveis a um tremor mais forte
O que está retido em Meusu não se comporta como um bloco compacto. Por dentro, é uma massa macia, úmida e móvel, com ligações fracas entre partículas, descrita como algo próximo de pasta de dente. Isso muda tudo: se o material não se sustenta, a estabilidade depende quase integralmente das barragens que o contêm.
O problema é que essas barragens foram projetadas para outro regime de operação e, por muito tempo, não receberam manutenção adequada.
Ao mesmo tempo, Meusu fica em área sismicamente ativa, com histórico que reforça o alerta. Em 1992, um terremoto com magnitude aproximada de 6,2 teve epicentro próximo.
Em 2025, tremores em torno de 4,3 foram registrados ali, fortes o suficiente para serem sentidos sem instrumentos. E o próprio enquadramento regional admite que terremotos fortes, até cerca de sete, são possíveis.
Quando se combinam os fatores, o risco deixa de ser teórico: rejeito radioativo móvel, barragens envelhecidas, terreno de montanha e tectônica ativa. A pergunta deixa de ser se haverá pressão demais e passa a ser quando.
O alerta que vem de 1958 e do caminho que a água faz depois do vale
Esse não é um medo abstrato. Em abril de 1958, a barragem de rejeitos número 7 cedeu. Entre 14 e 21 milhões de pés cúbicos de rejeito radioativo escaparam, desceram o relevo e foram direto para o leito do rio Meusu, a poucas dezenas de pés da massa liberada.
Por muito tempo, detalhes do acidente ficaram classificados, e ainda hoje é difícil medir com precisão o número de afetados ou fatalidades diretas, mas um ponto permaneceu constante: houve contaminação em larga escala de solos e sistemas de água.
O agravante, aqui, não é apenas o evento local, e sim o trajeto. O rio Meusu não termina no limite de uma cidade.
Ele segue para o sul e se conecta a uma região muito maior e mais vulnerável: o vale de Fergana, uma das áreas mais densamente povoadas da Ásia Central, compartilhada por Usbequistão, Quirguistão e Tajiquistão. Em 2025, a população dessa região é estimada em cerca de 17 milhões de pessoas.
Nessa planície fértil, a agricultura depende de água em movimento constante, em uma rede intrincada de canais, cidades e vilas.
Se rejeitos radioativos alcançam aquíferos ou cursos d’água conectados ao sistema do Syr Daria, o choque não fica restrito a um município.
Ele passa a ser um risco transfronteiriço com potencial de atingir campos, água potável e cadeias produtivas.
A “solução” que existe e por que ela pode não acontecer no ritmo necessário
Reforçar barragens parece intuitivo, mas não resolve o núcleo do problema: o material continua sendo uma massa móvel, e as estruturas seguem sob ameaça sísmica e erosiva.
A alternativa prática descrita para reduzir o risco é mover os rejeitos para um local mais seguro, o que implica escavar, transportar e armazenar novamente, com preparação de engenharia e camadas de isolamento que podem chegar a 6 pés de espessura para limitar umidade e migração de componentes radioativos.
No papel, soa como obra. Na realidade, é um processo caro, demorado e com requisitos rígidos. Existe uma estimativa preliminar na casa de €17 milhões, valor que pode parecer administrável para países ricos, mas pesa para um país que já enfrenta dificuldades até na manutenção rotineira de áreas de rejeitos.
Há também um plano associado a um financiamento que prevê realocar 12 milhões de pés cúbicos de rejeito para um local mais seguro, um avanço relevante, mas que cobre apenas parte do volume total.
E ainda há um detalhe concreto que costuma ser ignorado até virar crise: as estradas. Rotas de montanha, estreitas e difíceis, seriam o caminho para caminhões com carga perigosa.
Cada curva e cada penhasco aumentam a chance de acidente. Mover rejeitos pode ser a saída, mas o próprio movimento já carrega risco.
O que a Zâmbia mostrou quando uma barragem rompe e o país perde seu rio
A comparação mais dura é ver como um rompimento de barragem se traduz imediatamente em crise de água e segurança.
Em 18 de fevereiro de 2025, na Zâmbia, uma barragem de rejeitos rompeu e liberou cerca de 13 milhões de galões de resíduos no ambiente. O fluxo alcançou o rio Mambashi, tributário do Kafue, e seguiu rio abaixo.
A reação foi urgente: houve registro de mortandade de peixes, mudança de cor e cheiro da água e a interrupção temporária do abastecimento de uma cidade de cerca de 700 mil pessoas.
Como o Kafue funciona como artéria do país, atravessando áreas agrícolas, cidades, zonas industriais e vilas de pesca, o impacto não fica “contido” em um ponto.
Água de rio alimenta irrigação, consumo humano, indústria e até recarga de aquíferos, o que abre caminho para contaminação se espalhar muito além do trecho inicial.
A tentativa de contenção expôs o desespero logístico: a força aérea foi usada para despejar centenas de toneladas de cal no rio, enquanto barcos também espalhavam cal para neutralizar acidez.
Uma estimativa independente citada no episódio apontou que o volume real de resíduos poderia chegar a 1,5 milhão de toneladas, acima dos números oficiais.
Em outras palavras, quando uma barragem falha, a gestão vira corrida contra o tempo e nem sempre existe “limpeza” real possível.
O Brasil como prova de que barragens podem destruir em minutos e cobrar por décadas
O Brasil oferece o exemplo de como um colapso pode apagar um lugar e redesenhar uma bacia hidrográfica inteira.
Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão rompeu e liberou 1,4 bilhão de pés cúbicos de rejeitos.
A onda de lama e polpa tóxica avançou rapidamente e atingiu o vilarejo de Bento Rodrigues, que foi soterrado. Morreram 19 pessoas, e centenas perderam casas e meios de vida em questão de minutos.
A partir daí, o desastre ganhou escala de rio. O rejeito entrou no sistema do rio Doce, percorreu centenas de milhas, interrompeu abastecimentos, alterou margens e leitos, e acabou chegando ao Oceano Atlântico após cerca de 415 milhas ao longo do curso.
Foi reportado um registro imediato de mais de 29 mil peixes mortos na bacia. Cerca de 80% da vegetação ribeirinha ao longo de tributários foi destruída, e a agricultura sofreu com mais de 5 mil acres de terras agrícolas enterradas, além de quase 3600 acres de áreas naturais soterradas.
A dimensão jurídica também mostra como barragens continuam “ativas” na vida de um país muitos anos depois.
Em 2025, a Justiça de Londres reconheceu responsabilidade da BHP Billiton e autorizou o avanço de uma ação coletiva envolvendo 620 mil pessoas e um pedido total de 48 bilhões em danos.
E mesmo com esse marco, as indenizações individuais ainda entraram em calendário posterior, com previsão de definição de pagamentos em 2026. O rompimento foi em 2015, mas o custo segue andando junto com o tempo.
O que une Quirguistão, Zâmbia e Brasil no risco das barragens
Nos três cenários, o padrão é o mesmo: barragens seguram volumes que não podem simplesmente ser “parados” quando algo dá errado.
No Quirguistão, o risco é um legado radioativo em zona sísmica, com rejeitos que se comportam como massa móvel e que podem alcançar uma bacia agrícola e populacional gigantesca.
Na Zâmbia, o rompimento mostrou como um rio pode deixar de ser confiável de um dia para o outro. No Brasil, a ruptura de uma barragem deixou um rastro físico, ambiental e social que atravessou uma década e ainda move tribunais e reparações.
A lição central não é apenas técnica. É de governança e de tempo. Barragens envelhecem, volumes acumulam, riscos se somam, e quando um evento gatilho acontece, terremoto, falha estrutural, pressão contínua, a resposta precisa ser imediata, cara e imperfeita.
Onde há rios, há agricultura. Onde há agricultura, há gente. E é por isso que um problema escondido em um vale de montanha pode virar alerta global.
Você acha que o mundo vai agir antes do próximo colapso de barragens, ou só depois que outro rio inteiro ficar comprometido?

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