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Uma única tempestade solar pode derrubar satélites, apagar o GPS e deixar 40 milhões de pessoas sem luz por meses — e os transformadores que protegem a rede levam 4 anos para serem fabricados

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 27/04/2026 às 06:45
Atualizado em 27/04/2026 às 06:51
Aurora boreal intensa sobre cidade com linhas de transmissão durante tempestade geomagnética
Uma tempestade solar extrema poderia deixar 40 milhões de pessoas sem luz por meses — e o mundo não está preparado
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Uma única tempestade solar pode derrubar satélites, apagar o GPS e deixar 40 milhões de pessoas sem luz por meses — e os transformadores que protegem a rede levam 4 anos para serem fabricados

Segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), uma tempestade solar de grandes proporções poderia deixar entre 20 e 40 milhões de americanos sem energia elétrica. Além disso, o blecaute poderia durar de 16 dias a dois anos, dependendo da velocidade de substituição dos transformadores danificados.

De fato, a Lloyd’s de Londres estima que o custo global de um evento solar catastrófico alcançaria US$ 9,1 trilhões — o equivalente a 1,4% do PIB mundial destruído de uma só vez.

Portanto, uma tempestade solar não é ficção científica. É um evento que já aconteceu antes, que vai acontecer de novo, e para o qual o mundo não está preparado.

Consequentemente, com o Sol no pico do Ciclo 25 em 2025-2026, especialistas consideram o risco mais alto do que em qualquer momento dos últimos 20 anos.

O Evento Carrington: quando o Sol quase destruiu a civilização do telégrafo

A maior tempestade solar já registrada ocorreu em 1859 e ficou conhecida como Evento Carrington. Conforme relatos históricos, a tempestade geomagnética causou faíscas em linhas telegráficas, incendiou estações e gerou auroras boreais visíveis no Caribe e na Colômbia.

Naquela época, a infraestrutura elétrica do mundo se resumia a fios de telégrafo. Ainda assim, o impacto foi devastador. Em outras palavras, o Sol atingiu o único sistema elétrico que existia — e o derrubou.

Nesse sentido, se um evento Carrington acontecesse hoje, o impacto seria incomparavelmente maior. O mundo de 2026 depende de eletricidade, satélites, GPS e internet para absolutamente tudo — desde semáforos até cirurgias, transações bancárias e abastecimento de água.

O elo mais fraco: transformadores que levam 4 anos para fabricar

Transformador de alta tensão danificado em subestação elétrica
Transformadores de alta tensão pesam até 400 toneladas e levam 4 anos para fabricar — o elo mais fraco da rede

Segundo especialistas em infraestrutura elétrica citados pela Space.com, o maior risco de uma tempestade solar está nos transformadores de alta tensão — equipamentos gigantes que convertem eletricidade de uma voltagem para outra ao longo da rede.

Além disso, correntes geomagneticamente induzidas (GICs) geradas pela tempestade solar podem aquecer esses transformadores até o ponto de destruição permanente.

Na prática, um único transformador de alta tensão pesa entre 100 e 400 toneladas, custa até US$ 10 milhões e leva de 12 a 18 meses para fabricar sob encomenda — sem estoque disponível. Sobretudo porque a maioria não é mais produzida nos Estados Unidos.

Dessa forma, se centenas de transformadores fossem destruídos simultaneamente por uma tempestade solar, a substituição poderia levar uma década.

Da mesma forma que a usina nuclear de Angra 3 enfrenta gargalos de fornecimento que atrasam a obra por décadas, a rede elétrica global depende de componentes que simplesmente não podem ser produzidos em massa.

GPS, internet e aviação: tudo que depende do espaço pode parar

Satélites em órbita com explosão solar ao fundo
GPS, internet e previsão do tempo dependem de 31 satélites que uma tempestade solar pode danificar permanentemente

Igualmente vulneráveis são os satélites em órbita. Segundo o USGS, uma tempestade solar extrema poderia danificar permanentemente satélites de comunicação, GPS, previsão do tempo e observação terrestre.

Para ter uma ideia, o sistema GPS — que guia aviões, navios, aplicativos de transporte e logística global — depende de 31 satélites operando simultaneamente. Se uma tempestade solar danificasse metade deles, o mundo perderia posicionamento por meses.

Além do mais, a aviação civil depende de rádio em ondas curtas para comunicação sobre oceanos. Conforme demonstrado pelas erupções X2.5 de abril de 2026, mesmo explosões solares moderadas podem causar blecautes de comunicação de até uma hora.

Em uma tempestade solar extrema, esses blecautes poderiam durar dias — forçando o cancelamento de todos os voos transoceânicos.

1989: a tempestade solar que já deixou 6 milhões sem luz

O precedente mais recente e concreto aconteceu em março de 1989. Segundo relatos da CBS News, uma tempestade geomagnética derrubou toda a rede elétrica da província de Quebec, no Canadá, em apenas 92 segundos.

No total, 6 milhões de pessoas ficaram sem energia por 9 horas — em pleno inverno canadense, com temperaturas abaixo de -20°C.

Contudo, a tempestade de 1989 foi classificada como moderada em comparação com um evento Carrington. Em comparação, estima-se que um Carrington moderno seria 10 a 50 vezes mais potente.

Apesar disso, o mundo investiu muito pouco em proteção desde então. Por outro lado, países como Finlândia e Suécia instalaram capacitores de proteção em transformadores-chave — mas a maioria dos países, incluindo Brasil e Estados Unidos, não fez o mesmo.

O Brasil é especialmente vulnerável — e quase ninguém fala sobre isso

Cidade moderna às escuras durante blecaute noturno
Em 1989, uma tempestade solar moderada deixou 6 milhões de canadenses sem luz por 9 horas em pleno inverno

Ainda assim, o risco não se limita a países de alta latitude. De acordo com pesquisadores, o Brasil possui linhas de transmissão de energia entre as mais longas do mundo — algumas com mais de 2.000 quilômetros de extensão.

Segundo especialistas da USP, quanto mais longa a linha, maior a corrente induzida por uma tempestade geomagnética. Portanto, o sistema elétrico brasileiro é particularmente suscetível a danos em transformadores durante eventos solares extremos.

Por outro lado, o Brasil ainda não possui um plano nacional de contingência específico para tempestades solares — ao contrário de países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, que já publicaram relatórios e protocolos de emergência.

O governo dos Estados Unidos publicou em 2026 um relatório classificando as tempestades solares extremas entre as cinco maiores ameaças naturais ao país — ao lado de terremotos, pandemias, erupções vulcânicas e tsunamis.

Segundo o relatório, a diferença é que todas as outras ameaças são localizadas. Uma tempestade solar, por outro lado, afeta o planeta inteiro simultaneamente — sem possibilidade de ajuda internacional, porque todos os países seriam atingidos ao mesmo tempo.

Além disso, a Agência Espacial Europeia lançou em 2025 a missão Vigil, um satélite sentinela posicionado no ponto Lagrange L5 para monitorar o Sol e fornecer alertas com até 5 dias de antecedência.

No entanto, 5 dias de antecedência não são suficientes para proteger transformadores que levam 4 anos para fabricar. O alerta serve apenas para desligar sistemas críticos preventivamente — o que por si só causaria bilhões em prejuízos econômicos.

Consequentemente, especialistas defendem a criação de reservas estratégicas de transformadores de alta tensão — semelhantes às reservas estratégicas de petróleo que já existem. O custo seria de US$ 100 milhões a US$ 500 milhões — uma fração dos US$ 9 trilhões em danos potenciais.

Conforme dados do ciclo solar, o Sol atinge picos de atividade a cada 11 anos. O ciclo atual (25) está particularmente ativo — com o smoothed sunspot number atingindo 157 em agosto de 2024, muito acima das previsões.

Será que o mundo vai esperar a próxima tempestade solar catastrófica acontecer para investir em proteção — ou vai agir preventivamente enquanto ainda há tempo? O Evento Carrington aconteceu em 1859. Estatisticamente, outro está atrasado.

Por fim, a questão não é se uma tempestade solar extrema vai atingir a Terra — é quando. Segundo cientistas, a probabilidade de um evento de nível Carrington nos próximos 10 anos é de 12%. Ainda assim, o mundo continua tratando essa ameaça como ficção científica, enquanto US$ 9 trilhões em infraestrutura permanecem desprotegidos.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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