1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. 11 mil habitantes, mais de 500 vulcões e 10 mil horas sem diesel: ilha isolada das Canárias usa apenas vento e água como bateria gigante para tentar provar que territórios remotos podem viver longos períodos sem depender de combustível fóssil
Faça um comentário 7 min de leitura

11 mil habitantes, mais de 500 vulcões e 10 mil horas sem diesel: ilha isolada das Canárias usa apenas vento e água como bateria gigante para tentar provar que territórios remotos podem viver longos períodos sem depender de combustível fóssil

Imagem de perfil do autor Ana Alice
Escrito por Ana Alice Publicado em 03/07/2026 às 20:51 Atualizado em 03/07/2026 às 20:55
El Hierro, nas Canárias, acumula 10 mil horas com energia de vento e água e vira referência em renováveis sem diesel para ilhas isoladas. (Imagem: Ilustrativa)
El Hierro, nas Canárias, acumula 10 mil horas com energia de vento e água e vira referência em renováveis sem diesel para ilhas isoladas. (Imagem: Ilustrativa)
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

No Atlântico, uma ilha pequena combina vento, água e relevo vulcânico para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e testar um modelo energético observado por pesquisadores de diferentes países.

A ilha espanhola de El Hierro, no arquipélago das Canárias, acumulou 10 mil horas de abastecimento elétrico 100% renovável desde a entrada em operação do projeto Gorona del Viento, que combina vento e água para reduzir a dependência de diesel em um território isolado no Atlântico.

O marco foi informado em reportagem do The Guardian e colocou novamente a ilha no debate sobre modelos de energia limpa em áreas sem conexão direta com grandes redes elétricas.

Localizada no extremo oeste das Canárias, perto da costa noroeste da África, El Hierro tem forte atividade vulcânica, relevo acidentado e ventos constantes.

Segundo a Unesco, a ilha tem uma das maiores concentrações vulcânicas do arquipélago, com mais de 500 crateras abertas e outras centenas cobertas por fluxos de lava mais recentes.

O tamanho reduzido, o isolamento geográfico e a necessidade de importar combustível ajudam a explicar por que El Hierro passou a ser acompanhada por pesquisadores, governos e empresas interessados em soluções para ilhas e regiões remotas.

Energia renovável em El Hierro

O centro do projeto é a central hidroeólica Gorona del Viento, instalada no município de Valverde.

O sistema reúne cinco aerogeradores, uma central de bombeamento, uma usina hidrelétrica, reservatórios de água e uma estrutura de controle que alterna geração e armazenamento conforme as condições de vento e demanda.

Quando há vento suficiente, os aerogeradores produzem eletricidade para abastecer a ilha.

A energia excedente é usada para bombear água de um reservatório inferior para outro, localizado em área mais alta.

Em períodos de menor produção eólica, essa água é liberada e passa por turbinas hidráulicas, gerando eletricidade para a rede local.

Segundo o Instituto para a Diversificação e Economia da Energia da Espanha, a central conta com parque eólico de 11,5 MW, usina hidrelétrica de 11,32 MW, sistema de bombeamento de 6 MW e reservatório superior com capacidade de 380 mil metros cúbicos.

María Candelaria Sánchez Galán, chefe de operações da Gorona del Viento, explicou em entrevista ao The Guardian que a água armazenada funciona como uma bateria.

A declaração resume o princípio do sistema: usar o excedente de energia eólica para criar uma reserva capaz de gerar eletricidade quando o vento não é suficiente.

Uso de diesel ainda faz parte da rede elétrica

Apesar dos avanços, El Hierro ainda não funciona permanentemente sem combustíveis fósseis.

Dados oficiais da Gorona del Viento mostram que, em 2025, a central garantiu 1.049 horas de cobertura 100% renovável, evitou a emissão de 21.551 toneladas de gases de efeito estufa e poupou 5.591 toneladas de diesel.

A Red Eléctrica, operadora do sistema elétrico espanhol, informou que a usina hidroeólica respondeu por 43,6% da geração anual da ilha em 2025.

No mesmo ano, a participação renovável superou 80% em 69 dias, segundo a empresa.

Esses dados atualizam a referência anterior de que El Hierro atendia cerca de metade da demanda elétrica anual com fontes renováveis.

A diferença entre alcançar 100% em determinados períodos e manter esse índice durante todo o ano é central para entender o caso.

A experiência mostra que a autossuficiência renovável pode ocorrer por longas janelas de tempo, mas também depende de vento, consumo, armazenamento e controle da rede operando de forma coordenada.

Em 2019, El Hierro já havia registrado um período prolongado de abastecimento exclusivamente renovável.

Segundo o Cabildo de El Hierro, entre 13 de julho e 7 de agosto daquele ano, a ilha passou 596 horas seguidas com eletricidade produzida pela combinação de geração eólica e hidráulica.

Por que El Hierro atrai pesquisadores

A busca por autossuficiência na ilha não começou apenas com a energia elétrica.

Uma seca severa em 1948 marcou a memória local e levou os moradores a depender de ajuda externa para garantir água.

Desde então, a segurança hídrica e energética passou a integrar políticas públicas e projetos de infraestrutura no território.

Hoje, a eletricidade produzida pela Gorona del Viento também contribui para alimentar as usinas de dessalinização que abastecem a população.

A relação entre água e energia aparece em duas etapas: a água serve como forma de armazenamento elétrico e, ao mesmo tempo, precisa de eletricidade para ser produzida em uma ilha com recursos naturais limitados.

Galán afirmou ao The Guardian que cientistas de diferentes países visitam El Hierro para estudar como o modelo pode ser aplicado em outros territórios.

“Somos um laboratório em constante evolução”, disse ela.

A frase foi usada pela chefe de operações para descrever o acompanhamento técnico que o projeto recebe desde sua implantação.

A aplicação do modelo, porém, depende de condições locais.

El Hierro tem população pequena, demanda elétrica inferior à de grandes centros urbanos, ventos frequentes, relevo adequado ao bombeamento de água e políticas de conservação ambiental.

Esses fatores ajudam a explicar o desempenho da central e dificultam comparações diretas com cidades maiores ou ilhas com geografia diferente.

Vulcões, biodiversidade e áreas protegidas

A transição energética de El Hierro ocorre em um território reconhecido por órgãos internacionais de conservação.

A ilha foi declarada Reserva da Biosfera pela Unesco em 2000 e recebeu o status de geoparque global em 2015, classificação voltada à preservação de áreas com relevância geológica.

A paisagem vulcânica é uma das características centrais da ilha.

Em menos de 300 quilômetros quadrados, El Hierro reúne crateras, cones, campos de lava, falésias e áreas agrícolas adaptadas a um relevo irregular.

O território também inclui zonas protegidas, reservas marinhas e espécies endêmicas, o que aproxima a política energética de temas como uso do solo, agricultura e conservação da biodiversidade.

No Valle del Golfo, a agricultura orgânica aparece como outro eixo da estratégia local.

Mariela Pérez, responsável por uma fazenda experimental do conselho insular citada na reportagem original, relacionou a presença de borboletas à qualidade ambiental da área.

“As borboletas são o indicador da qualidade do ar. Aqui tudo é agricultura orgânica, e é por isso que elas vêm”, afirmou.

A produção agrícola convive com a recuperação de vinhedos tradicionais.

O viticultor Carmelo Padrón, que herdou terras da família, trabalha na retomada de variedades locais em áreas que haviam sido abandonadas.

Segundo ele, parte dessas uvas se tornou rara na Europa depois da filoxera, praga que afetou a viticultura europeia no século 19.

Vulcão Tagoro e pesquisas no mar

A costa sul de El Hierro, conhecida como Mar de Las Calmas, também faz parte dos projetos de conservação e pesquisa da ilha.

A região é usada por pescadores artesanais, mergulhadores e cientistas, especialmente por causa das formações vulcânicas submarinas e da presença de vida marinha.

Em 2011, uma erupção submarina ao sul da localidade de La Restinga deu origem ao vulcão Tagoro.

No início, o fenômeno provocou impacto sobre a fauna e a flora marinhas.

Com o passar dos anos, pesquisadores passaram a observar a recuperação de espécies e a estudar a área como um ambiente natural de acompanhamento científico.

A proximidade do Tagoro com a costa tornou o vulcão mais acessível para pesquisas.

Eugenio Fraile, pesquisador do Instituto Espanhol de Oceanografia citado na reportagem original, afirma que a existência de uma fonte hidrotermal a menos de 2 quilômetros da costa pode ser investigada como possível recurso geotérmico para El Hierro.

A avaliação de Fraile indica potencial de uso energético, mas a proposta ainda depende de estudos, viabilidade técnica e confirmação antes de qualquer aplicação.

Por isso, a geotermia aparece como uma possibilidade em análise, não como solução já incorporada ao sistema elétrico da ilha.

O que o modelo energético indica

El Hierro não eliminou completamente o diesel nem resolveu todos os desafios de uma rede elétrica isolada.

Ainda assim, os dados oficiais indicam que a ilha conseguiu sustentar o fornecimento com fontes renováveis por milhares de horas desde a implantação da Gorona del Viento.

O caso também indica que a transição energética em áreas isoladas depende de mais de uma fonte de geração.

No modelo adotado pela ilha, vento, água, armazenamento, controle da rede e gestão do consumo atuam de forma integrada para reduzir o acionamento de motores a diesel.

A usina hidroeólica é a estrutura mais conhecida do projeto, mas a experiência local também envolve dessalinização, agricultura, pesca artesanal, proteção ambiental e planejamento territorial.

Em El Hierro, essas áreas aparecem conectadas porque a disponibilidade de energia, água e recursos naturais interfere diretamente na vida cotidiana da população.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x