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Há quase 40 anos, operários entram todo dia num canteiro no litoral do Rio de Janeiro — mas a usina nuclear que deveria gerar energia para 6 milhões de casas nunca ficou pronta, já custou R$ 26 bilhões e consome R$ 1 bilhão por ano parada

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 25/04/2026 às 19:00
Atualizado em 24/04/2026 às 21:56
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A usina que virou bomba-relógio: terminar custa R$ 24 bilhões, abandonar custa R$ 26 bilhões, e não fazer nada queima R$ 1 bilhão por ano

No litoral de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, um canteiro de obras funciona ininterruptamente há quase 40 anos. Trabalhadores entram, cumprem turno e saem.

Segundo a Câmara dos Deputados, a obra parada de Angra 3 custa R$ 1 bilhão por ano aos cofres públicos — divididos entre R$ 800 milhões em dívidas, R$ 120 milhões em conservação de equipamentos e R$ 100 milhões em salários.

Contudo, a usina nuclear que deveria ter ficado pronta em 2014 nunca gerou um único watt de energia.

Além disso, o governo Lula adiou a decisão sobre o futuro da usina para 2026, transformando Angra 3 no que a Revista Sociedade Militar chamou de “bomba-relógio no colo do governo”.

R$ 24 bilhões para terminar, R$ 26 bilhões para abandonar — e nenhuma opção é barata

O dilema de Angra 3 é financeiramente paralisante. Conforme estudo do BNDES divulgado em novembro de 2025, o custo para completar a usina subiu para R$ 23,9 bilhões.

Porém, abandonar oficialmente a obra custaria entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões. Esse valor cobre liquidação de empréstimos com bancos públicos, multas contratuais e desmobilização do canteiro.

De acordo com a Gazeta do Povo, desativar Angra 3 custa praticamente o mesmo que terminar.

Portanto, o Brasil está preso em uma armadilha: qualquer decisão custa dezenas de bilhões, e a indecisão custa R$ 1 bilhão a cada 12 meses.

  • Custo para completar: R$ 23,9 bilhões (BNDES, nov/2025)
  • Custo para abandonar: R$ 22-26 bilhões
  • Custo anual da paralisia: R$ 1 bilhão/ano
  • Já investido: R$ 12 bilhões+
  • Percentual concluído: 65-67%
  • Potência planejada: 1.405 MW
  • Início das obras: década de 1980
Vista aérea do complexo nuclear de Angra dos Reis com duas usinas operando e a terceira em construção
Complexo nuclear de Angra dos Reis — Angra 1 e 2 operam normalmente, mas Angra 3 permanece inacabada após quase 40 anos de obras intermitentes

A estatal que pode quebrar por causa de uma obra que nunca termina

Consequentemente, a Eletronuclear — empresa responsável pela construção e operação das usinas nucleares brasileiras — enfrenta risco real de insolvência.

O presidente da companhia alertou que a empresa pode entrar em colapso financeiro em poucos meses se nenhuma decisão for tomada.

Nesse sentido, a dívida acumulada de Angra 3 já consome a maior parte da receita da Eletronuclear, comprometendo até a operação das usinas Angra 1 e Angra 2, que funcionam normalmente.

Da mesma forma, funcionários que trabalham no canteiro de Angra 3 recebem salários para realizar apenas manutenção preventiva de equipamentos — não construção efetiva.

Sobretudo, o cenário cria uma ironia cruel: o Brasil paga R$ 1 bilhão por ano para NÃO ter energia nuclear.

Trabalhadores em canteiro de obras de usina nuclear com estruturas de concreto
Operários no canteiro de Angra 3 — a obra emprega centenas de pessoas para manutenção, mas a construção efetiva está parada desde 2015

O que 1.405 MW significariam para o Brasil — se a usina existisse

Ainda assim, o potencial de Angra 3 é significativo. Com 1.405 megawatts de potência, a usina poderia abastecer aproximadamente 6 milhões de residências.

Para comparação, Angra 2 — que funciona desde 2001 — gera 1.350 MW e é responsável por cerca de 3% de toda a eletricidade consumida no Sudeste.

Igualmente, a energia nuclear tem uma vantagem que solar e eólica não oferecem: geração contínua 24 horas por dia, independente de sol ou vento.

Em um momento em que o Brasil enfrenta desafios enormes de infraestrutura, ter 1.405 MW ociosos por indecisão política é, no mínimo, frustrante.

De fato, especialistas ouvidos pela Câmara dos Deputados defendem a retomada da construção, argumentando que o custo de terminar é praticamente igual ao de abandonar — mas terminar gera energia por 40 anos.

Representação de desperdício financeiro em projeto de infraestrutura abandonado
Cada ano de indecisão sobre Angra 3 custa R$ 1 bilhão aos cofres públicos — dinheiro que poderia financiar escolas, hospitais ou outras obras de infraestrutura

2026: o ano em que Lula terá que decidir o destino de Angra 3

O CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) adiou a decisão sobre Angra 3 em dezembro de 2024, prometendo retomar a discussão em 2025.

Contudo, 2025 passou sem resolução. Agora, a expectativa é que 2026 seja o ano definitivo.

Por outro lado, o contexto político complica. Em ano pré-eleitoral, decisões que envolvem dezenas de bilhões em gastos públicos tendem a ser evitadas.

Dessa forma, a paralisia pode se estender por mais um ciclo — e com ela, mais R$ 1 bilhão desperdiçado.

Será que o Brasil vai finalmente resolver o impasse de Angra 3, ou a usina entrará na sua quinta década de obras sem nunca ter gerado energia?

Apesar dos argumentos técnicos a favor da conclusão, a decisão final depende de fatores que vão além da engenharia: capacidade de financiamento do BNDES, disposição política do Planalto e pressão de grupos ambientalistas que questionam a segurança nuclear pós-Fukushima. O desfecho permanece incerto.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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