Documentário da DW Brasil, com mais de 106 mil visualizações, desce ao canteiro do túnel Lyon-Turim, mostra a perfuratriz que avança 15 metros por dia e ouve os moradores do vale que chamam a obra de desastre
O túnel ferroviário que promete unir a Europa por baixo dos Alpes virou também um dos maiores embates entre progresso e território da atualidade, e um documentário publicado em 30 de junho de 2026 pela DW Brasil, no YouTube, mostra os dois lados de perto, num dilema que o Brasil das ferrovias inacabadas conhece bem. A obra da ligação Lyon-Turim, entre França e Itália, já consumiu 11 bilhões de euros e acontece a 600 metros abaixo da superfície.
A escala é de mover montanhas, literalmente. Segundo a DW Brasil, os dois tubos de mão única terão mais de 57 quilômetros de extensão cada, quase 60 quilômetros de túnel dupla via sob a cordilheira, com toneladas de explosivos e máquinas de perfuração colossais abrindo caminho na rocha.
600 metros abaixo dos Alpes: o canteiro que não para
O documentário desce ao coração da obra pela mão de Emmanuel Humbert, chefe do canteiro, que trabalha com engenharia subterrânea há 20 anos e define o projeto como o maior desafio da carreira, o “projeto mais lindo do mundo”. De um lado do canteiro fica a França; do outro, a Itália, e um trecho de 9 quilômetros já foi escavado em direção ao lado italiano, conforme a DW Brasil registra na visita.
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O ritmo é ditado pela rocha. A perfuratriz avança no máximo 15 metros por dia, e nos terrenos difíceis são os explosivos que rompem a camada rochosa, numa cadeia de montanhas parcialmente instável, em movimento constante. Um dos operários, no canteiro desde 2002, resume o espírito de quem constrói: é um projeto para a vida toda.
O objetivo: tirar caminhões da estrada e 45 minutos do relógio

O argumento oficial do projeto é triplo, segundo a DW Brasil: aproximar as pessoas, descarbonizar o transporte e construir uma infraestrutura durável para toda a Europa. Na prática, a ligação promete reduzir em 45 minutos o tempo de viagem entre Lyon e Turim e, mais importante, transferir o transporte de cargas das rodovias alpinas para a ferrovia.
O financiamento é compartilhado: União Europeia, França e Itália dividem a conta dos 11 bilhões de euros, e a previsão é que o túnel ferroviário seja concluído em 2033, quando os trens finalmente cruzarão as profundezas dos Alpes.
A aposta na ferrovia tem lógica ambiental direta: cada composição de carga que atravessa a montanha pelo túnel ferroviário substitui dezenas de caminhões que hoje sobem as estradas alpinas queimando diesel em serra. No transporte europeu, essa migração de modal é considerada um dos caminhos mais rápidos para cortar emissões sem reduzir o volume de mercadorias em circulação.
O vale de 44 mil habitantes que paga o preço da obra
O contraponto do documentário mora no Vale de Maurienne, no sudeste da França, casa de cerca de 44 mil pessoas, onde o túnel começa, perto da cidadezinha de Saint-Jean-de-Maurienne. É lá que a DW Brasil encontra Philippe, morador há 20 anos e militante contra o projeto, para quem a obra é um desastre econômico e ecológico.
A revolta tem endereço certo. “As construtoras é que estão enriquecendo. E somos nós, os contribuintes, que acabamos pagando a conta”, diz Philippe à DW Brasil, apontando as estradas da montanha esburacadas pelo inverno e sem manutenção, enquanto os bilhões descem para o subsolo.
Poeira, entulho e uma aposentadoria ao lado da obra

O lado B da engenharia aparece na superfície. Segundo a DW Brasil, o entulho da escavação é transportado por caminhões e esteiras, parte é reciclada e o restante é descartado no próprio vale, transformando uma paisagem antes idílica em cenário de poeira e máquinas barulhentas.
O documentário dá rosto a esse custo: Patrick, de 70 anos, mora ao lado de uma pilha de entulho e faz a conta amarga. “Isso ainda vai durar mais dez anos. Vou passar minha aposentadoria nessa obra, sem receber nada”, diz ele à DW Brasil, resignado a “dizer amém para tudo”.
A montanha drenada: o alerta da hidrogeóloga
O risco mais silencioso da obra está na água. Conforme a DW Brasil, a escavação de túneis pode derrubar o nível do lençol freático local, e as autoridades já observaram o efeito em várias nascentes do vale, acendendo o alerta de uma hidrogeóloga ouvida no documentário.
A imagem que ela usa é didática e assustadora: escavar a montanha é como tirar a tampa do ralo da banheira, uma drenagem da própria montanha, com o risco de o abastecimento de água da região secar. É o tipo de efeito colateral que não aparece no orçamento de 11 bilhões de euros, mas pode durar mais que a própria ferrovia.
Empregos temporários num vale em declínio
A economia local vive o paradoxo clássico das megaobras. O Vale de Maurienne, vítima da desindustrialização como outras regiões rurais da França, recebeu melhorias cofinanciadas pela operadora do túnel, que banca de 10 a 40% de projetos comunitários, como a praça da catedral, além da reforma de uma escola com pouco mais de 2 milhões de euros, destaca o prefeito no documentário.
Mas a crítica registrada pela DW Brasil é certeira: os bilhões criam empregos temporários que beneficiam uma parcela pequena dos habitantes, e a ferrovia, como uma rodovia, conecta grandes centros sem ajudar as áreas por onde passa, acelerando o declínio demográfico em vez de contê-lo. Entre os moradores, as opiniões se dividem entre o “demoliram tudo, sou contra” e o “pode nos dar o impulso necessário, com um pouco de paciência”.
O que o túnel ferroviário dos Alpes ensina ao Brasil
O dilema alpino soa familiar por aqui. O Brasil também discute há décadas tirar carga do caminhão e colocar no trilho, e cada grande traçado ferroviário nacional enfrenta a mesma equação: benefício difuso para o país inteiro, custo concentrado em quem mora no caminho da obra.
Há ainda uma lição de engenharia embutida no projeto. A ligação Lyon-Turim pertence à família dos chamados túneis de base, que cruzam a montanha pela cota mais baixa possível em vez de escalar encostas: o trem ganha um traçado quase plano, gasta menos energia e transporta mais carga por composição. É por isso que um túnel ferroviário desse porte é tratado como infraestrutura de século, e não de mandato: caro e lento de construir, mas projetado para operar por gerações.
A lição do documentário é dupla. Infraestrutura que descarboniza e barateia o frete se paga no longo prazo, mas a conta social e ambiental do canteiro precisa entrar no orçamento desde o primeiro dia, com compensação real para os vales, e não apenas praças reformadas. É a diferença entre uma obra que une, como promete o túnel ferroviário dos Alpes, e uma que atropela.
Assista ao documentário do túnel sob os Alpes em vídeo
A descida completa ao canteiro do túnel ferroviário, com a tuneladora roendo a rocha e os moradores do vale contando o preço da vizinhança, está no documentário da DW Brasil, no YouTube.
Quando os trens cruzarem os Alpes em 2033, os 45 minutos economizados terão custado 11 bilhões de euros e uma década e meia de convivência entre um vale e sua obra. Conta pra gente nos comentários: megaprojetos assim valem o preço pago por quem mora no caminho?

