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Sob os Alpes entre França e Itália, operários escavam um dos túneis ferroviários mais longos do mundo, com quase 60 km, a 600 metros de profundidade e 11 bilhões de euros de investimento

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 03/07/2026 às 21:28 Atualizado em 03/07/2026 às 21:32
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Túnel ferroviário de quase 60 km sob os Alpes custa 11 bilhões de euros, avança 15 metros por dia e divide moradores; veja o documentário
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Documentário da DW Brasil, com mais de 106 mil visualizações, desce ao canteiro do túnel Lyon-Turim, mostra a perfuratriz que avança 15 metros por dia e ouve os moradores do vale que chamam a obra de desastre

O túnel ferroviário que promete unir a Europa por baixo dos Alpes virou também um dos maiores embates entre progresso e território da atualidade, e um documentário publicado em 30 de junho de 2026 pela DW Brasil, no YouTube, mostra os dois lados de perto, num dilema que o Brasil das ferrovias inacabadas conhece bem. A obra da ligação Lyon-Turim, entre França e Itália, já consumiu 11 bilhões de euros e acontece a 600 metros abaixo da superfície.

A escala é de mover montanhas, literalmente. Segundo a DW Brasil, os dois tubos de mão única terão mais de 57 quilômetros de extensão cada, quase 60 quilômetros de túnel dupla via sob a cordilheira, com toneladas de explosivos e máquinas de perfuração colossais abrindo caminho na rocha.

600 metros abaixo dos Alpes: o canteiro que não para

O documentário desce ao coração da obra pela mão de Emmanuel Humbert, chefe do canteiro, que trabalha com engenharia subterrânea há 20 anos e define o projeto como o maior desafio da carreira, o “projeto mais lindo do mundo”. De um lado do canteiro fica a França; do outro, a Itália, e um trecho de 9 quilômetros já foi escavado em direção ao lado italiano, conforme a DW Brasil registra na visita.

O ritmo é ditado pela rocha. A perfuratriz avança no máximo 15 metros por dia, e nos terrenos difíceis são os explosivos que rompem a camada rochosa, numa cadeia de montanhas parcialmente instável, em movimento constante. Um dos operários, no canteiro desde 2002, resume o espírito de quem constrói: é um projeto para a vida toda.

O objetivo: tirar caminhões da estrada e 45 minutos do relógio

Perfuratriz gigante avança pela galeria escavada na rocha centenas de metros abaixo da montanha.
Perfuratriz gigante avança pela galeria escavada na rocha centenas de metros abaixo da montanha.

O argumento oficial do projeto é triplo, segundo a DW Brasil: aproximar as pessoas, descarbonizar o transporte e construir uma infraestrutura durável para toda a Europa. Na prática, a ligação promete reduzir em 45 minutos o tempo de viagem entre Lyon e Turim e, mais importante, transferir o transporte de cargas das rodovias alpinas para a ferrovia.

O financiamento é compartilhado: União Europeia, França e Itália dividem a conta dos 11 bilhões de euros, e a previsão é que o túnel ferroviário seja concluído em 2033, quando os trens finalmente cruzarão as profundezas dos Alpes.

A aposta na ferrovia tem lógica ambiental direta: cada composição de carga que atravessa a montanha pelo túnel ferroviário substitui dezenas de caminhões que hoje sobem as estradas alpinas queimando diesel em serra. No transporte europeu, essa migração de modal é considerada um dos caminhos mais rápidos para cortar emissões sem reduzir o volume de mercadorias em circulação.

O vale de 44 mil habitantes que paga o preço da obra

O contraponto do documentário mora no Vale de Maurienne, no sudeste da França, casa de cerca de 44 mil pessoas, onde o túnel começa, perto da cidadezinha de Saint-Jean-de-Maurienne. É lá que a DW Brasil encontra Philippe, morador há 20 anos e militante contra o projeto, para quem a obra é um desastre econômico e ecológico.

A revolta tem endereço certo. “As construtoras é que estão enriquecendo. E somos nós, os contribuintes, que acabamos pagando a conta”, diz Philippe à DW Brasil, apontando as estradas da montanha esburacadas pelo inverno e sem manutenção, enquanto os bilhões descem para o subsolo.

Poeira, entulho e uma aposentadoria ao lado da obra

Montanhas de entulho de rocha escavada se acumulam no vale ao lado das esteiras transportadoras.
Montanhas de entulho de rocha escavada se acumulam no vale ao lado das esteiras transportadoras.

O lado B da engenharia aparece na superfície. Segundo a DW Brasil, o entulho da escavação é transportado por caminhões e esteiras, parte é reciclada e o restante é descartado no próprio vale, transformando uma paisagem antes idílica em cenário de poeira e máquinas barulhentas.

O documentário dá rosto a esse custo: Patrick, de 70 anos, mora ao lado de uma pilha de entulho e faz a conta amarga. “Isso ainda vai durar mais dez anos. Vou passar minha aposentadoria nessa obra, sem receber nada”, diz ele à DW Brasil, resignado a “dizer amém para tudo”.

A montanha drenada: o alerta da hidrogeóloga

O risco mais silencioso da obra está na água. Conforme a DW Brasil, a escavação de túneis pode derrubar o nível do lençol freático local, e as autoridades já observaram o efeito em várias nascentes do vale, acendendo o alerta de uma hidrogeóloga ouvida no documentário.

A imagem que ela usa é didática e assustadora: escavar a montanha é como tirar a tampa do ralo da banheira, uma drenagem da própria montanha, com o risco de o abastecimento de água da região secar. É o tipo de efeito colateral que não aparece no orçamento de 11 bilhões de euros, mas pode durar mais que a própria ferrovia.

Empregos temporários num vale em declínio

A economia local vive o paradoxo clássico das megaobras. O Vale de Maurienne, vítima da desindustrialização como outras regiões rurais da França, recebeu melhorias cofinanciadas pela operadora do túnel, que banca de 10 a 40% de projetos comunitários, como a praça da catedral, além da reforma de uma escola com pouco mais de 2 milhões de euros, destaca o prefeito no documentário.

Mas a crítica registrada pela DW Brasil é certeira: os bilhões criam empregos temporários que beneficiam uma parcela pequena dos habitantes, e a ferrovia, como uma rodovia, conecta grandes centros sem ajudar as áreas por onde passa, acelerando o declínio demográfico em vez de contê-lo. Entre os moradores, as opiniões se dividem entre o “demoliram tudo, sou contra” e o “pode nos dar o impulso necessário, com um pouco de paciência”.

O que o túnel ferroviário dos Alpes ensina ao Brasil

O dilema alpino soa familiar por aqui. O Brasil também discute há décadas tirar carga do caminhão e colocar no trilho, e cada grande traçado ferroviário nacional enfrenta a mesma equação: benefício difuso para o país inteiro, custo concentrado em quem mora no caminho da obra.

Há ainda uma lição de engenharia embutida no projeto. A ligação Lyon-Turim pertence à família dos chamados túneis de base, que cruzam a montanha pela cota mais baixa possível em vez de escalar encostas: o trem ganha um traçado quase plano, gasta menos energia e transporta mais carga por composição. É por isso que um túnel ferroviário desse porte é tratado como infraestrutura de século, e não de mandato: caro e lento de construir, mas projetado para operar por gerações.

A lição do documentário é dupla. Infraestrutura que descarboniza e barateia o frete se paga no longo prazo, mas a conta social e ambiental do canteiro precisa entrar no orçamento desde o primeiro dia, com compensação real para os vales, e não apenas praças reformadas. É a diferença entre uma obra que une, como promete o túnel ferroviário dos Alpes, e uma que atropela.

Assista ao documentário do túnel sob os Alpes em vídeo

A descida completa ao canteiro do túnel ferroviário, com a tuneladora roendo a rocha e os moradores do vale contando o preço da vizinhança, está no documentário da DW Brasil, no YouTube.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Quando os trens cruzarem os Alpes em 2033, os 45 minutos economizados terão custado 11 bilhões de euros e uma década e meia de convivência entre um vale e sua obra. Conta pra gente nos comentários: megaprojetos assim valem o preço pago por quem mora no caminho?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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