Equipamento criado por startup ligada à USP foi identificado apenas no lançamento e monitora sono, atividade física e efeitos da luz no corpo humano em ambiente espacial extremo
Uma descoberta inesperada durante um dos momentos mais importantes da exploração espacial recente colocou o Brasil no centro das atenções globais. Durante o lançamento da missão Artemis II, da NASA, um detalhe aparentemente discreto chamou a atenção: um equipamento brasileiro estava sendo utilizado pelos astronautas — e o mais surpreendente é que seus próprios criadores só perceberam isso no momento em que assistiam à transmissão oficial.
A informação foi divulgada por “O Globo”, com base em relatos do CTO e cofundador da Condor Instruments, Luis Filipe Rossi, que revelou como a tecnologia desenvolvida em São Paulo acabou integrando uma missão lunar sem qualquer confirmação prévia. Segundo ele, embora a empresa já tivesse tido contato com a NASA anteriormente, não havia garantia de uso do dispositivo na missão.
Só descobrimos que ele realmente estava sendo utilizado na missão no dia do lançamento, quando vimos o equipamento no pulso dos astronautas — afirmou Rossi.
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Esse episódio não apenas evidencia a relevância da inovação brasileira, mas também mostra como soluções desenvolvidas no país podem alcançar padrões internacionais e integrar projetos de altíssimo nível científico e tecnológico.
Como funciona o equipamento brasileiro utilizado na missão Artemis II
O dispositivo que chamou a atenção durante a missão é o ActLumus, um actígrafo desenvolvido pela Condor Instruments. Embora visualmente semelhante a um relógio de pulso, o equipamento possui tecnologia avançada voltada para pesquisas científicas de alta precisão.
Na prática, o wearable monitora continuamente padrões de sono, níveis de atividade física e exposição à luz ao longo do dia. Esse último fator, inclusive, é considerado um dos mais críticos em missões espaciais, já que fora da Terra o corpo humano perde a principal referência natural de tempo: a alternância entre dia e noite proporcionada pela luz solar.
Segundo Rossi, o grande diferencial da tecnologia brasileira está no sensor de luz, que vai além da medição convencional.
O equipamento consegue medir não apenas a intensidade da luz, mas também como diferentes receptores do olho humano estão sendo estimulados, incluindo os ligados ao ritmo circadiano e ao sono.
Dessa forma, o dispositivo permite acompanhar como o organismo dos astronautas reage à ausência de ciclos naturais. Isso é essencial porque o desajuste do relógio biológico pode causar impactos significativos na saúde e no desempenho.
Por que o monitoramento do sono é essencial no espaço
Em ambientes espaciais, onde não há ciclos naturais de luz, o corpo humano pode sofrer alterações profundas. Como consequência, problemas como insônia, fadiga, queda de atenção, alterações hormonais e redução do desempenho cognitivo podem surgir.
De acordo com Rossi, esse cenário representa não apenas um desconforto, mas um risco operacional real.
A privação de sono pode afetar atenção, memória, tempo de reação e tomada de decisão. Em uma missão espacial, onde tudo exige alta precisão, manter a tripulação descansada é uma questão importante de desempenho e segurança.
Portanto, o uso de dispositivos como o ActLumus permite que cientistas monitorem esses efeitos em tempo real e ajustem rotinas para preservar a saúde dos astronautas.
Mesmo diante de um ambiente extremo, o equipamento precisou de poucas adaptações. Segundo a empresa, a principal mudança foi a redução da potência do Bluetooth para atender aos requisitos específicos da missão espacial.
Da USP para a NASA: a trajetória da inovação brasileira
A história da Condor Instruments começa em 2013, dentro do ecossistema acadêmico paulista. A startup surgiu a partir de uma parceria com pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP) e recebeu apoio inicial da Fapesp.
Com um investimento inicial de R$ 40 mil dos próprios fundadores e um aporte adicional de R$ 195 mil da fundação, a empresa iniciou o desenvolvimento de soluções voltadas ao monitoramento científico do sono e do ritmo circadiano.
Ao longo dos anos, a empresa expandiu sua atuação e hoje cerca de 90% das suas vendas são destinadas ao mercado internacional. Entre seus clientes estão instituições renomadas como Harvard University, Stanford University, o NIH e o NHS britânico. Além disso, empresas como United Airlines, Air Canada e FedEx também utilizam suas tecnologias.
Diante desse cenário, a participação na missão Artemis II representa um marco simbólico para a ciência brasileira. Para Rossi, ver uma tecnologia criada em São Paulo sendo utilizada em uma missão lunar reforça o potencial do país no cenário global.
Ver uma tecnologia desenvolvida no Brasil sendo usada em uma das missões espaciais mais importantes da atualidade mostra que inovação de classe mundial também pode nascer aqui — destacou.
Você acredita que o Brasil pode se tornar protagonista em missões espaciais nos próximos anos?

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