Tarifas dos Estados Unidos elevam custos, travam a exportação de açúcar orgânico do Brasil e deixam produtores sem alternativas de mercado.
Seis meses após a intensificação das tarifas impostas pelos Estados Unidos, o açúcar orgânico do Brasil vive um dos momentos mais delicados de sua história recente.
A medida, adotada pelo governo norte-americano em 2025, elevou drasticamente os custos de exportação, reduziu a competitividade do produto brasileiro e dificultou a abertura de novos mercados, gerando estoques elevados e incertezas para o setor.
Antes isento, o açúcar orgânico brasileiro passou a enfrentar, na prática, uma carga tarifária próxima de 100% para entrar no mercado americano.
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Nem mesmo o fim da ‘montanha russa’ descrita pelo preço do petróleo tipo Brent (principal referência global) – que saltou de uma cotação de US$ 72 para US$ 120, até baixar ao patamar de US$ 76 o barril – devido ao acordo de paz recente firmado entre os EUA e o Irã, foi suficiente para aliviar a economia brasileira de pressões inflacionárias.
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O impacto atinge diretamente produtores e exportadores, justamente em um país que lidera o consumo global de alimentos orgânicos e depende desse insumo para manter sua indústria certificada.
Tarifaço americano atinge em cheio o açúcar orgânico brasileiro
A mudança no cenário começou com a política comercial do presidente Donald Trump, que atingiu o produto brasileiro em duas frentes.
Além da manutenção da sobretaxa de 40%, em vigor desde agosto de 2025, o açúcar orgânico passou a sofrer também a tarifa adicional de 10% aplicada a exportações globais.
Por outro lado, o golpe mais severo veio com o fim da chamada specialty-quota. Esse mecanismo garantia isenção da tarifa de US$ 327 por tonelada para uma cota anual de 240 mil toneladas de açúcar orgânico.
Com a perda do benefício, o produto do Brasil deixou de ter qualquer vantagem competitiva no mercado americano.
Estados Unidos dependem do produto, mas repassam custos ao consumidor
Apesar das tarifas, os Estados Unidos seguem altamente dependentes do açúcar orgânico importado.
Isso ocorre porque a legislação americana exige o uso exclusivo desse tipo de açúcar na fabricação de alimentos orgânicos, como granolas, barras de cereais e iogurtes.
Sem produção interna suficiente, a indústria americana continua comprando do Brasil, mas repassa o aumento de custos ao consumidor final.
Segundo exportadores, a medida não fortalece produtores locais e ainda encarece os preços no varejo.
Native busca novos mercados, mas encontra novas barreiras
Diante das restrições impostas pelos Estados Unidos, a Native Produtos Orgânicos, do Grupo Balbo, iniciou uma estratégia de diversificação de mercados.
O México surgiu como alternativa promissora em 2025, com os primeiros embarques sendo realizados com sucesso.
No entanto, a estratégia foi interrompida no fim do ano. Em 31 de dezembro, o governo mexicano anunciou o fim da isenção de tarifas de importação para o açúcar, elevando a cobrança para 200% sobre o açúcar orgânico.
“Chegamos a embarcar dez contêineres para o México e havia pedidos de mais, mas não vamos mais conseguir exportar”, lamenta Leontino Balbo Júnior, vice-presidente da Native Produtos Orgânicos.
Estoques crescem e capital de giro se torna entrave
Com a perda do mercado mexicano e as dificuldades nos Estados Unidos, a Native enfrenta hoje um cenário crítico.
A empresa acumula cerca de 30 mil toneladas em estoque, volume considerado elevado para uma operação que esperava exportar 40 mil toneladas aos EUA nesta safra.
“O distribuidor não tem caixa para comprar. Está sem capital de giro”, afirma Balbo. A expectativa era zerar os estoques até abril, o que não deve mais ocorrer.
Canadá surge como alternativa limitada para exportação
Atualmente, o Canadá tem sido a principal válvula de escape para parte da produção brasileira.
As indústrias canadenses passaram a receber mais pedidos de clientes americanos, tentando suprir a demanda reprimida nos Estados Unidos.
Ainda assim, os volumes são modestos. A Native, que antes exportava 6 mil toneladas por ano, deve elevar os embarques para cerca de 9 mil toneladas anuais, número insuficiente para compensar as perdas no mercado americano.
Jalles Machado mantém vendas aos EUA, mas alerta para impactos
Outra exportadora relevante, a Jalles Machado, ainda consegue manter suas vendas de açúcar orgânico aos Estados Unidos.
Segundo o diretor financeiro da empresa, Rodrigo Penna, a necessidade do mercado americano sustenta os contratos, apesar das tarifas.
“Continuamos vendendo para nossos clientes porque os Estados Unidos precisam. Mas estão repassando [o custo] para o varejo”, diz Penna.
Ele ressalta que a empresa tenta ampliar a exportação para outros mercados, porém sem resultados expressivos.
“[A tarifa] está encarecendo o açúcar para o consumidor e não ajuda o produtor americano, que não produz orgânico”, conclui.

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