A equipe seguiu a pista de um geólogo francês que encontrou um dente no deserto nos anos 1950, atravessou o Saara de moto com um guia Tuareg e, em novembro de 2019, avistou fragmentos de ossos e uma crista que ninguém conseguiu identificar na hora
Conforme publicou a Phys.org em fevereiro de 2026, a descoberta teve início com uma monografia de 1966 do geólogo francês Hughes Faure, que descrevia um dente fossilizado encontrado no Níger nos anos 1950.
Faure havia marcado a localização em um mapa antigo, sem fotografias nem figuras detalhadas. Apenas uma coordenada no deserto.
Décadas depois, o paleontólogo Paul Sereno, professor de Biologia Organísmica e Anatomia da Universidade de Chicago, seguiu essa pista.
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Além disso, um morador local da etnia Tuareg guiou a equipe de motocicleta para o interior do Saara, após quase um dia inteiro de viagem pela areia.
Quando chegaram ao sítio em Jenguebi, na Região de Agadez, encontraram fragmentos de dentes, ossos da mandíbula e uma estrutura óssea estranha na superfície do deserto.
Ninguém entendeu o que era aquela crista. Não na hora.
A pandemia atrasou tudo — mas em 2022, a equipe voltou e encontrou mais duas cristas
Entre 2019 e 2022, a pandemia de COVID-19 interrompeu os trabalhos de campo.
Contudo, quando a equipe de 20 pesquisadores retornou ao sítio em 2022 com mais equipamentos, a resposta apareceu.
Dessa forma, encontraram duas cristas adicionais — e a comparação entre as três peças confirmou o que os paleontólogos suspeitavam: era uma espécie completamente nova.
O paper foi publicado na revista Science, conforme reportou a EarthSky em 19 de fevereiro de 2026, com o título que inclui a palavra-chave: “New scimitar-crested Spinosaurus species from the Sahara caps stepwise spinosaurid radiation”.
Nesse sentido, o Spinosaurus mirabilis — nome que vem do latim “mirabilis”, que significa “assombroso” — se tornou a primeira espécie nova do gênero descoberta em mais de 100 anos.

A crista que parece o topete do Elvis: a maior já encontrada em um dinossauro
A característica mais impressionante do animal é a crista craniana em forma de cimitarra — uma lâmina de osso que se curvava para o céu como uma espada.
Segundo os pesquisadores, a crista era coberta por queratina, a mesma proteína de cabelos e unhas humanas.
Além disso, a estrutura era vascularizada internamente e texturizada na superfície, o que indica que funcionava como ornamento de exibição — provavelmente para atrair parceiros.
Os cientistas acreditam que a crista era brilhantemente colorida em vida, curvando-se como uma “lâmina em forma de farol”.
Da mesma forma que um fóssil esquecido por 119 anos surpreendeu a ciência recentemente, esta crista esperou milhões de anos sob a areia do Saara para ser reconhecida.
A comparação com o topete do Elvis não é apenas humor — é a analogia mais precisa para uma estrutura óssea extravagante que não deveria existir num predador daquele porte.

Por que chamaram de “garça do inferno” — e como ela caçava
Paul Sereno não escolheu o apelido por acaso.
“Eu imagino esse dinossauro como uma espécie de garça do inferno que não tinha problemas em se aventurar em suas pernas robustas até dois metros de água, mas provavelmente passava a maior parte do tempo caçando em armadilhas rasas de muitos grandes peixes da época”, afirmou o paleontólogo.
De fato, o animal possuía dentes interdigitados — onde os dentes da mandíbula inferior se encaixavam entre os da superior, como os de um crocodilo.
Sobretudo, essa dentição é típica de animais especializados em capturar peixes, um padrão encontrado também em ictiossauros e pterossauros.
Os fósseis foram encontrados em sedimentos de rio, confirmando que o animal vivia em habitat fluvial, no interior do continente — e não na costa, como se acreditava anteriormente sobre os espinossauros.
Portanto, o Saara de 95 milhões de anos atrás não era deserto. Era uma floresta tropical cortada por rios largos, onde predadores de 8 metros caçavam peixes gigantes em águas rasas.
Oito metros de comprimento — e ainda era jovem
O espécime de referência (holótipo) media aproximadamente 8 metros de comprimento — ou 26 pés.
No entanto, todos os ossos coletados pertenciam a animais subadultos.
Isso significa que o tamanho real de um adulto maduro é desconhecido — e provavelmente maior.
Consequentemente, o S. mirabilis pode ter sido significativamente maior do que os 8 metros já documentados.
Além disso, a equipe encontrou fósseis de dois dinossauros de pescoço comprido (saurópodes) próximos aos restos do espinossauro, indicando que diversas espécies de grande porte conviviam no mesmo ecossistema fluvial.
O que o torna diferente do Spinosaurus que você conhece dos filmes
O Spinosaurus mais famoso é o S. aegyptiacus, que apareceu no filme Jurassic Park III em 2001.
Por outro lado, o S. mirabilis se diferencia em vários aspectos importantes.
A crista craniana do mirabilis é dramaticamente mais alta e em forma de cimitarra. O aegyptiacus tinha um crânio mais alongado e plano, semelhante ao de crocodilos.
Ainda assim, ambos compartilham os dentes interdigitados e o hábito de caçar peixes. São parentes próximos — mas com estratégias de exibição completamente diferentes.
Como um fóssil que ficou 40 anos esquecido numa gaveta e revelou um dinossauro impossível, o S. mirabilis prova que o registro fóssil ainda guarda surpresas enormes em locais já explorados.

O que matou a garça do inferno — e o que matou o Saara verde
O Spinosaurus mirabilis se extinguiu há aproximadamente 94 milhões de anos.
Segundo o paper, a causa foi um aumento rápido no nível do mar e mudanças climáticas que eliminaram os rios rasos onde o animal caçava.
Conforme o oceano avançou sobre o continente, as florestas fluviais deram lugar a ambientes marinhos — e predadores terrestres de grande porte perderam seu habitat.
O próprio Saara continuou se transformando ao longo de milhões de anos, até se tornar o deserto que conhecemos hoje — onde os ossos de um predador de 8 metros esperaram na areia, em silêncio, por uma equipe que seguiu um mapa de 1966 para encontrá-los.

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